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ARTIGO

05/09/2004
Por Sandra Arruda Grostein

"Foi bico dr. fulano, foi bico*"

Este caso foi apresentado uma primeira vez no Evento - Irresponsável Mundo Novo - promovido pelo IPP/EBP-SP em novembro/98. Durante a discussão, deparei-me com a afirmação de Éric Laurent que se tratava sem dúvida, de uma psicose, contrariamente à minha hipótese de neurose. Neste contexto a apresentação será feita em três tempos:


1. Primeira hipótese diagnóstica: 

Um ex-paciente procura-me para atender em caráter de urgência sua esposa, que acabara de dar a luz a uma criança. Segundo ele, sua esposa estava parecendo louca. Relata que ela não conseguia parar de falar, emendava um assunto no outro, falava coisas sem importância, havia perdido a crítica e falava o que lhe passava pela cabeça. Na primeira entrevista, ainda na maternidade, me diz que não entende porque todos estão preocupados, pois, para ela, esta experiência está sendo maravilhosa, já que está podendo ser completamente verdadeira. O que me chama a atenção é que realmente ela emenda um assunto no outro, com muita dificuldade de se interromper; outro fato me chama a atenção ao descrever o medo que tinha do parto, expressa com muita satisfação, que no momento em que nasce a criança, ela diz: “Foi bico Dr. Fulano, foi bico”. Repete essa expressão várias vezes. Está muito contente, muito excitada, com toda a experiência. Não sente, porém, a filha como sendo sua, deixa que pessoas mais experientes possam tomar conta da menina. Por uns dez dias, aproximadamente, me propus a escutá-la duas vezes ao dia, a princípio no hospital e depois em sua casa. O que chamava a atenção era a distância, bem marcada, entre o sentido daquilo que falava e o significado, isto é, não se importava com o que falava e nem para quem falava, mas o falar em si mesmo.

Minha estratégia, neste momento, foi me colocar como alguém que poderia escutá-la, ter um lugar privilegiado como ouvinte.

Não havia queixas nem questões. A queixa era do marido, dos pais e até mesmo do médico. Não dela. Esse período durou aproximadamente quinze dias. Me perguntava que sujeito é este que se apresenta logo após o parto? Um sujeito estranho a ela mesma e aos outros. Num momento preciso surge um sintoma que finaliza esse período de falar livremente. Um sintoma que foi descrito como: falta de ar, associado a um engasgo, seguido de uma tosse. Dizia que este sintoma se apresenta num momento preciso, está associado ao desmame. Ela não conseguiu amamentar mais a filha, “porque o seio não fazia bico”.

Associado a este sintoma pára o período de excitação, passa a apresentar um humor depressivo.

Durante a gravidez havia apresentado um sintoma relativamente parecido e, na ocasião, procurou um cardiologista. Então, quando este sintoma reaparece ela volta a procurar o cardiologista, que faz o diagnóstico de uma tosse nervosa, com depressão. Depois de um certo tempo, pára de tossir, engasgar, etc. O sintoma desaparece, há um deslocamento, surge a dificuldade em manter relações sexuais, posteriormente um outro deslocamento, não consegue engravidar. Embora, o episódio do pós-parto continuasse como um “precipitado” estranho a ela mesma, passo a considerar neste período do tratamento (aproximadamente dois anos) o diagnóstico de histeria e os sintomas como conversivos.


2. Comentários de Éric Laurent:

“Trata-se de uma psicose puerperal, perfeitamente desencadeada e terrível. É preciso dizê-lo e é um momento fecundo. Está num momento produtivo importante. Não chegou ainda à estabilização. E podemos ver esse neologismo “foi bico” que no instante em que o médico faz com que ela dê a luz, faz o parto, temos o desencadeamento do episódio. Trata-se de um episódio maníaco, hipomaníaco, de qualquer forma bastante consistente, que foi precedido de um neologismo “foi bico”, que depois assume todo o seu valor de neologismo, quando ela não consegue amamentar, pois não tem “bico”. E aí, podemos ver o quanto essa declaração que ela repete, o que ela quer dizer. No  fundo, esse alívio da angústia, ou mais exatamente, o alívio do estado depressivo em que  estava, pois o cardiologista que a examinou disse se tratar de uma depressão. Então, houve um estado depressivo com o qual ela sustentou a gravidez. Após o parto, o humor muda e ela passa para o estado maníaco. É o momento em que ocorre esse “neologismo constituído”. Em seguida, temos o desenvolvimento “como foi fácil”, a primeira significação do neologismo; temos o alívio da depressão, segunda significação do neologismo ela “não tem bico”, a terceira significação do neologismo -  é o estado atual em que ela não consegue engravidar – “não é fácil”. Eis a substituição. Vemos que não funciona como sintoma. O sintoma que ela apresentou não funciona como um sintoma histérico, como uma espécie de dificuldade em respirar que poderia ser um sintoma histérico. Aqui, em compensação, como está ligado à amamentação ou ao desmame da menina, esta menina que tem um dificuldade oral. No entanto, isso não funciona, não descola-se da mesma forma que o deslocamento sexual. Não é tanto a sexualidade que está em jogo aqui, mas ter a criança, recomeçar, passar a todas essas regras, submeter-se a essas regras, regras que são um espécie de falsa lei, que se coloca no lugar da não relação com a filha, da não relação com o marido, esse sentimento de estranheza, todas as regras de como fazer um filho. Existe, então, uma espécie de despersonalização em sua relação com a filha e com o marido. Vemos, então, o funcionamento. Trata-se de fazer crer que existe um sintoma e que a forma de ter uma certa estabilização nessa menina, que se encontra num estado muito produtivo, nessa mulher, aliás, e se ela engravidar, então, para um segundo filho a situação será muito  grave”.


3. Conseqüências na direção do tratamento: 

Enquanto estava às voltas com os comentários de Laurent sobre o caso, a paciente me anuncia sua nova gravidez. (Novembro/98)

O que anteriormente poderia ser considerado um sucesso terapêutico, naquele momento se apresentava como uma situação grave. Além dos comentários de Laurent, referências teóricas me ajudaram num novo posicionamento frente a este caso, como por exemplo: - “detalhes que não concernem aos distúrbios da linguagem, mas aos efeitos clínicos a mínima de algo destoante na amarração R.S.I. como, num sujeito, uma premência do imaginário, próxima de uma fixação simbólica bem leve ou então uma relação de estranheza entre o eu e o corpo. Ou ainda, um outro, o exercício desenfreado da pulsão, desconectada de toda tomada na dialética de discurso, etc.

O sujeito não deixará entrever o que faz a singularidade de suas amarrações sintomáticas a não ser que o analista o estimule nisso, se o acompanha nesse desvendamento. Se o analista acredita na neurose deste sujeito, ele manterá “sua vestimenta” de neurótico; no melhor, nada vai acontecer, não sendo possível nenhum domínio sobre o inconsciente; no pior, uma interpretação irá tocar desastradamente na amarração precária que o analista descobrirá então.”(1)

Num primeiro tempo, logo após o parto, procurei produzir algumas escanções em sua fala, uma vez que claramente esta não era dirigida a um outro; visava ao corte, J.-A.Miller nos adverte que: “o psicanalista em sua política demarca o sujeito num estado de divisão”. Isto é, talvez esta divisão, Spaltung se reduza simplesmente a isso, que a palavra se deixa interpretar.... isso deve ser entendido no âmbito de sua propriedade de estrutura independentemente da boa vontade demonstrada pelo sujeito”.(2) Me parecia então que havia sido possível a instalação de um Outro com a constituição de uma cadeia significante.

Quando Laurent isola o “bico” com seu valor de neologismo e o diferencia do sintoma, a direção do tratamento muda de perspectiva, não mais a divisão, e sim a tentativa de localizar nesta fala pontos de possíveis amarrações, na relação facilidade/não facilidade.

Desde a perspectiva do histórico familiar, é a caçula de uma prole de três filhos, sendo que os dois irmãos mais velhos são homens. Este lugar de única menina, é por ela definido como excessivamente protegida, e consequentemente muito desprovida de saber, o que parcialmente explica seus terríveis medos, - como o do parto, entre outros.

Além de medrosa e insegura, se vê totalmente dependente do outro, antes do pai e agora do marido. A dependência está associada a muita angústia.

“É impensável a ausência do marido”. Ele não pode viajar sem levá-la e vice-versa, jamais viajou sozinha! Ela sempre precisa saber onde ele está. Faz contatos regulares por telefone para tranquilizar-se, etc.      

Neste segundo período do trabalho, reconsiderei a relação com o outro, tomando a dependência como referência para direção do tratamento. Decido por fixar alguns pontos, tais como duração da sessão, horário e pagamento, além disso, uma facilidade maior de acesso ao analista. Nesta segunda gravidez, diferentemente da primeira, não houve manifestações depressivas, e algumas horas após o parto me telefona: - “Estou me sentindo bem... meu filho nasceu sadio... acho que desta vez não vou ter aqueles problemas... mas, a senhora não vai viajar ainda, não é?” (a criança nasceu em meados de junho às vésperas de minhas férias).

Atualmente o trabalho analítico continua em torno da questão facilidade/não facilidade. Após rápidas tentativas de trabalhar na carreira profissional escolhida, desiste por entender que sua formação universitária não foi suficiente para habilitá-la. Diante de algumas tarefas cotidianas sente-se “desqualificada” para executá-las, seja como mãe ou dona de casa. Recebe do marido todo tipo de reprovações.

Há uma relação de “desqualificação” de um lado e de “super exigência” de outro, aí está centrado seu julgamento quanto à facilidade ou não, em responder ao que lhe é pedido.

Referências Bibliográficas:

[1] Deffieux, J.P, "Um caso nem tão raro", Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica-A Conversação de Arcachon, Biblioteca Freudiana Brasileira, 1997.
[2] Miller, J. A., Procura o real no tratamento psicanalítico, Revista Dora nº. 2, 1999.

* Obs.: Foi bico – na gíria quer dizer foi fácil.

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