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ARTIGOS

25/09/2012 
II Conversação dos Institutos - Buenos Aires - novembro 2009

Quando o dinheiro falta
Carmen Silvia Cervelatti, 
Daniela de Camargo Barros Affonso e 
Sandra Arruda Grostein

Introdução
O permanente debate em torno de dificuldades e impasses tem sido o eixo privilegiado de trabalho na Clínica Lacaniana de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise (CLIPP). Recentemente, esse esforço de questionamento levou o Instituto a realizar uma Conversação Institucional, com a presença de um êxtimo, motivada por inquietações no âmbito da instituição, originadas na Conversação dos Institutos do Campo freudiano no Brasil, durante o VIII Congresso da EBP, realizado em Florianópolis, em abril de 2009.
Partiu-se do pressuposto de que o tema escolhido na ocasião, a Psicose Ordinária, objeto de vasta pesquisa, representaria o Uno do Instituto. Contudo, o texto produzido não sustentou o Uno, gerando uma sobreposição do múltiplo sobre ele. Como efeito, a presença de um êxtimo mostrou-se imprescindível para ultrapassar esse ponto. Romildo do Rêgo Barros  foi convidado e sugeriu a realização de Conversação Institucional a partir dos textos das Entrevistas do Momento Atual  . A Conversação teve um primeiro momento, virtual, iniciado em 27 de julho de 2009, em que os participantes produziram textos articulando a bibliografia proposta e as questões da CLIPP, e um segundo, presencial, que se realizou no dia 19 de setembro, instigado pelos textos.
Diversos aspectos institucionais foram de alguma forma retificados, especialmente quanto à necessidade de redefinição do campo da CLIPP em relação à Escola, à Universidade, aos outros Institutos, à Saúde Pública, à saúde mental, etc. O tema dinheiro perpassava todas as instâncias de discussão: se a CLIPP promove algumas atividades gratuitas, não estaria fazendo suplência à Escola? Como o atendimento em psicanálise oferecido pela CLIPP à população de baixa renda se diferencia do CPCT? Como a psicanálise pode produzir algum efeito numa demanda de ajuda confundida com o serviço público ou com a troca de favores?
Fruto dessas indagações, o presente trabalho retomou a III Jornada da CLIPP “O pagamento em análise”, realizada em novembro de 2004, em que foram convidados para o debate a Clínica do Instituto Sedes Sapientae, o Centro Clínico e de Pesquisa da Diretoria de Comunidade e Cultura da Sociedade Brasileira de Psicanálise – São Paulo e a Divisão de Psicologia do Hospital das Clínicas – FMUSP. Sérgio Laia, então presidente da EBP, convidado para a Jornada, proferiu a conferência “O pagamento: diferenças entre Freud e Lacan”, em que apontou duas diferenças básicas entre a teoria freudiana e o ensino de Lacan no que concerne à questão do pagamento em análise. A primeira diz respeito à articulação freudiana em que gratuidade gera, necessariamente, resistência. Se em Lacan, a resistência esta sempre do lado do analista, não importa o quanto se paga, mas como este conduz o tratamento, manejando este viés. A segunda vai da economia libidinal anal relacionada ao dinheiro, em Freud, ao que Lacan chamou de significante fundamental. O dinheiro não seria um significante como os outros, mas um significante que sustentaria toda a cadeia significante, na medida em que, na produção capitalista, o dinheiro é uma mercadoria que sustenta toda a troca de mercadoria.
Como o atendimento oferecido pela CLIPP se distingue daquele gratuito, promovido pelo Instituto Sedes Sapientae, instituição filantrópica? Ou daquele praticado na SBPSP com preço fixo, instituído por preceitos burocráticos e universais? Ou ainda do serviço público representado pelo Hospital das Clínicas, onde não há pagamento, mas a intermediação do governo, por meio de impostos? Nos três casos enfocados, a ênfase recai na formação e no aprimoramento dos praticantes. E na CLIPP?
Dinheiro e transferência
“Sou pobre, doente, não tenho nada e quero receber.” Assim se pode articular a demanda direcionada à CLIPP, que oferece atendimento à população de baixa renda na cidade de São Paulo. Paciente e analista, cada um entra com sua cota, disse Lacan em A Direção do Tratamento  . O analista paga com sua pessoa, suas palavras e com o mais essencial de seu juízo mais íntimo  , e o paciente com dinheiro. Esta troca, “pelo fato de o dinheiro ter uma significação compartida universalmente, sanciona o ‘contrato’ entre as duas partes, mediando e regulando o laço social entre o sujeito que pede uma análise e o analista”. 
O dinheiro como objeto se presta a fazer laço entre o paciente (S barrado) e o analista (A barrado): o primeiro, ao pagar, perde algo, e o Outro, por receber, explicita não ter algo. Neste ponto reside a possibilidade de o dinheiro funcionar como elemento separador e não a serviço da alienação. Se o dinheiro perder sua característica de circulação, de mediador universal, passa a ter função complementar, paralisante e, consequentemente, alienante. É o que muitas vezes se pode constatar nos atendimentos da CLIPP.
O paciente, ao procurar atendimento, necessariamente motivado pelo “baixo custo”, pode atribuir diversos sentidos ao viés “dinheiro”. A equivalência entre dinheiro e saber – quanto mais saber possui o profissional, mais caro deve ser o tratamento e vice-versa – pode ocasionar obstáculos ao tratamento. Se o praticante responde desse lugar, identificando-se ao sujeito suposto não saber, há fixação no eixo imaginário “ele não sabe, eu também não”: o paciente abandona as entrevistas preliminares e muitas vezes procura novamente a CLIPP – na qual supõe existir saber – para ser encaminhado a outro praticante.
Outra via possível é o paciente atribuir não saber ao praticante, mas possuir a crença de que, com a prática proporcionada pelo seu tratamento, venha a adquiri-lo. É um saber através do falo, que pode permitir o tratamento. Mas de que modo? O “ser pobre” deve se manter no sem-sentido. Se à pobreza o praticante atribui um saber universal – “sei o que é ser pobre” – o trabalho psicanalítico inviabiliza-se, na medida em que responde à demanda de assistencialismo. “Trata-se assim de recordar em todo âmbito da cultura esta contribuição irredutível da psicanálise: a consideração da particularidade subjetiva, que vai além do respeito aos direitos humanos.” 
Se “o que há é a existência singular da demanda de um paciente”  , ao praticante cabe não se identificar e não responder, seja do lugar de não saber, seja daquele de caridoso. Somente assim pode colocar-se na posição de não ter nada a dar (A barrado), emprestando-se como sujeito suposto ao saber. O Outro enganador, da boa vontade, das boas intenções, caridoso, fazem-no todo, sem barra. O pagamento “simbólico” se prestaria, nesse caso, à filantropia e ao assistencialismo. O Outro barrado está além das regras e conserva em seu cerne o fora-do-sentido, convidando ao sentido através da particularidade da demanda. Eis o desejo do analista.
Do desejo ainda anônimo, quando o paciente procura a CLIPP movido pela oferta de tratamento a preço acessível, uma operação deve se suceder: do possível barato para a transferência com o praticante. Condição para tal é a transferência de trabalho do praticante com a CLIPP, pela suposição de que a teoria psicanalítica dá sustentação a essa prática por meio do permanente debate sobre a clínica. Sem isso, incorre-se no risco de o praticante fazer um uso perverso da CLIPP – “uso a instituição para receber pacientes” – ou gozar da pobreza do paciente. 
O debate permanente no Instituto “deve poder responder pela ética do ato analítico, por seu lugar entre as ações e as instituições humanas”.  Caminha-se constantemente com o risco de, ao receber pacientes oriundos, na sua maioria, do serviço público, reproduzir o mesmo, fazendo suplência àquilo que não foi proporcionado. É possível situar a psicanálise no campo das terapias, desde que seja enfatizada a diferença entre a busca da unidade da psique, preconizada pelas psicoterapias, e o trabalho com o sentido, objetivo da psicanálise. “É fato que o sujeito produz muito mais sentidos do que necessita para viver. E efetivamente ordenar esses sentidos (...) para nós, psicanalistas, o sentido sexual, é uma problemática política que alcança o programa da civilização.”

Considerações finais
            Afinal, que clínica se pratica na CLIPP? Não se trata de clínica-escola, de formação do analista, tampouco de filantropia ou prestação de serviço. Não há subvenção de qualquer natureza. O funcionamento da CLIPP sustenta-se basicamente pelo pagamento ao Curso de Psicanálise oferecido pelo Instituto, ou seja, pela vertente do ensino e não da clínica.
A clínica do Instituto está inserida em sua Seção Clínica onde, além dessa atividade, há reuniões semanais que englobam a Apresentação de Pacientes, e discussões sobre a entrevista ali realizada, casos clínicos atendidos pelos praticantes e questões clínicas ou teóricas da psicanálise. Nem o paciente, nem o praticante, são da CLIPP: os pacientes são encaminhados, por intermédio da CLIPP, aos praticantes, que os atendem em seus próprios consultórios. Pagam diretamente a ele. No caso de o praticante se desligar da Seção Clínica, o paciente permanece com ele, não volta à instituição. Por outro lado, o praticante também não é da CLIPP, a relação de pertinência à Seção Clínica é contingencial e ligada ao desejo: o conjunto dos participantes é flutuante, não configura um todo.
O desafio é oferecer a psicanálise à cidade de São Paulo, à grande maioria das pessoas que não teria acesso a ela em outras circunstâncias. Interroga-se permanentemente qual a efetiva possibilidade de gerar transferências nesse contexto. “Parece-me mais razoável repelir a demanda do Outro social, ou interpretá-la, mas não responder a ela de maneira direta. Caso contrário, não será psicanálise aplicada à terapêutica, e sim assistência social de orientação lacaniana, e como isso não existe, será assistência social de pretensão lacaniana.” 
No cerne dessa prática está o debate constante em torno da clínica, tendo no horizonte a contraposição à unidade do psíquico buscada pelas psicoterapias. Nesse sentido, o dinheiro pode servir à tirania da causalidade – “cobrar pouco tem causa” – ou dar sustentação a uma prática que une o dinheiro e o significante CLIPP. 
A intermediação do significante CLIPP permite que o dinheiro, por um lado, não seja um impedimento ao tratamento e, por outro, não se configure como fator depreciativo da psicanálise. Além disso, a CLIPP proporciona uma confrontação da prática de cada um com a dos outros por meio da discussão dos casos clínicos, tendo como Uno a orientação lacaniana que retoma a teoria de Freud e o ensino de Lacan.
Esse exercício é o que enseja responder aos encaminhamentos feitos pelas mais diversas instituições, e manter um debate clínico com a psiquiatria pela prática da Apresentação de Pacientes desenvolvida no âmbito de um hospital público.

Analista Membro de Escola – AME. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).
Entrevistas do momento atual in Correios, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n° 61 e n° 62, março de 2009.
LACAN, J. A Direção do tratamento e os princípios de seu poder, in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, p. 591.
Idem, p. 593.
CERVELATTI, C.S. O significante mais aniquilador possível de toda significação, in Carta de São Paulo Ano 6, n° 7, outubro de 1999.
LAURENT, E. El psicoanalista, el ámbito de las Instituciones de Salud Mental y sus reglas, in Psicoanálisis y salud mental, Buenos Aires: Editorial Tres Haches, 2000, p. 91.
LAURENT, E. Usos actuales posibles e imposibles del psicoanálises, in Psicoanálisis y salud mental,  Buenos Aires: Editorial Tres Haches, 2000, p.53.
LAURENT, E. El psicoanalista, el ámbito de las Instituciones de Salud Mental y sus reglas, in Psicoanálisis y salud mental, Buenos Aires, Editorial Tres Haches, 2000, p. 91.
LAURENT, E. Usos actuales posibles e imposibles del psicoanálises, in Psicoanálisis y salud mental, Buenos Aires, Editorial Tres Haches, 2000, p.49.
MILLER J.-A. Entrevistas do momento atual in Correios, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n° 62, março de 2009, p. 11.
Ambulatório de Psiquiatria do Hospital do Servidor  Público Estadual. Encarregado: Andres Santos Jr, médico psiquiatra e membro do Conselho Consultivo da CLIPP.


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