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ARTIGOS

31/07/2006 
Das suplências: do sintoma ao sinthoma

Das suplências:

Do sintoma ao sinthoma[1]

 

 

Marizilda Paulino

Membro da EBP-SP

 

 

        

         O tema que apresento nesta Jornada da EBP-SP diz respeito à clínica, à prática clínica, à formalização dos achados clínicos. Neurose, perversão e psicose foram os verbetes propostos.

 

         Os textos básicos[2] estão em Scilicet dos Nomes do Pai, compilação de textos preparatórios para o Congresso de Roma, em julho de 2006. 

 

         Nomes-do-pai, seminário de uma aula só, em 20 de novembro de 1963,  anuncia a grande virada na formalização de Lacan em relação ao Nome-do-pai, considerando-se os anos 50 e 70 de seu ensino.

 

         Nos anos 50, anos da clínica edipiana e do retorno a Freud, temos a prevalência do Nome-do-pai, da metáfora paterna e, dependendo de sua operação, estaríamos diante da neurose ou da psicose. Se o significante Nome-do-pai fosse instaurado teríamos a neurose e, na foraclusão do Nome-do-pai, a psicose.

 

         Nos anos 70, com a introdução da clínica do nó borromeano, do enlaçamento peculiar dos três registros definidos por Lacan – Real, Simbólico e Imaginário -, o objetoa, a noção de gozo, temos à disposição um modo diferente de entender a clínica e de pensar a direção do tratamento. Não mais estamos diante de estruturas clínicas distintas e, sim, de diversas manifestações sintomáticas, inclusive algumas inclassificáveis. Não é mais a metáfora paterna que marca as distinções e, sim, a particularidade da amarração do nó.

 

         Passamos da época do sintoma freudiano, que seria a representação da verdade do sujeito, para o sinthoma lacaniano, um misto de sintoma e gozo.

          

         Do artigo de Luis Erneta destaco dois pontos:

                  

                   1) a chave da metáfora paterna está na mãe – na simbolização da ausência da mãe –. A inscrição do Nome-do-pai fica subordinada a essa simbolização primordial que se opera na mãe. A criança pensa que é o falo da mãe, mas vê que é o pai que a mãe deseja – porque ele tem o que ela quer: o falo; esse movimento faz do desejo da mãe um significante e o falo será o significado desse significante. Daí o significante Nome-do-pai ser o significante-mestre cujo significado é o desejo da mãe. Quando há a inscrição da significação fálica teremos a neurose; na sua falta, a psicose.

                  

                   2) com a introdução do conceito de objeto a, fazendo parte da estrutura e tomando o lugar de resto pulsional impossível de simbolizar pela operação significante, Lacan demonstra que toda metáfora paterna fracassa e a neurose pode ser apenas um remédio para essa falha, pois essa falha não tem cura.

 

         Podemos, então, pensar a neurose como uma suplência do Nome-do-pai.

 

         Vale a pena lembrar que suprir quer dizer, segundo o dicionário de Houaiss,substituir (pessoas ou coisas); refere-se, portanto, a colocar algo no lugar de, alguma falta, por exemplo. Suplência, por sua vez, é uma condição do que é suplente,  ou seja,daquele que supre uma falta ou que pode ser chamado a exercer as funções de outro, na falta deste, um substituto.

 

         Alain Merlet lembra em seu texto que Perversão e Nome-do-pai não tem nada a ver com a religião e com a infâmia.

 

         No seminário 23, O Sinthoma, Lacan inventa o termo pai-versão a partir do termo perversão. Merlet destaca três aspectos dessa questão levantada por Lacan:

 

                   1) “perversão não quer dizer versão ao pai” – o pai é um sintoma ou sinthoma;

                   2) a “pai-versão” – refere-se a Freud e à função do pai: dirigir-se ao pai, que é o encarregado da castração”.

                   3) Freud sempre concebeu a sexualidade como sendo perversa (perversa polimorfa, como diz nos Três ensaios sobre a sexualidade, de 1905).

 

         No seminário RSI, Lacan faz do nó borromeano a mostração da pluralidade dosNomes-do-pai, que são o simbólico, o imaginário e o real, que servem para nomear qualquer coisa porque se trata do gozar.

 

         Inventar com o sinthoma um tipo de sintoma que resista de tal forma que tanto do pai como da perversão se possa “prescindir à condição de se servir dele”.

 

         Lacan para destacar a dimensão real do sinthoma – o real de seu gozo – fala do inominável (o real do gozo).

 

         Recorre, então, ao Nome-do-pai nomeando-o como um furo e não uma falta. A invenção do sinthoma está em fornecer um ser ao pai – para não cair no culto do pai nem na idolatria da perversão.

        

         O sinthoma, que é do falasser, propõe uma realidade psíquica diferente da religiosa ou perversa, uma realidade que não provém nem do ideal nem da obscenidade, mas permite um gozo compatível com o vivente.

 

         A perversão estaria, então, mais ligada ao mal que a sustenta e a satisfaz.

 

         Merlet termina seu artigo dizendo que se pode resumir a literatura psicanalítica em relação à perversão dessa forma: “se um perverso vem ver um analista, é porque se enganou de porta, se ele volta é porque ele não era perverso, se ele persiste a vir é para perverter o analista”.

 

         Roger Wartel em seu artigo nos lembra que o “Nome-do-pai diz da filiação simbólica”, coloca-nos dentro do discurso, estabelece o laço social.

 

         O Nome-do-pai aparece em Freud nas funções, nas leis que ele promulga. Como o falo, o Nome-do-pai permite que se instaure a cadeia significante e seu serviço é o lugar de um Outro que dá acesso, autoriza e até mesmo impõe o jogo dos significantes.

 

         A foraclusão do Nome-do-pai está no núcleo da psicose.  A marca do Outro da linguagem não está inscrita em nenhuma parte. Esta carência do significante do Nome-do-Pai não assegura a qualidade de discurso, de laço social e “coloca em questão os próprios fundamentos da linguagem humana, os enlaçamentos ou a disjunção da palavra à coisa”, como diz Wartel.

 

         Nos anos 50, a foraclusão do Nome-do-pai marca que a estrutura neurótica  e a estrutura psicótica são completamente diferentes.

 

         O próprio conceito de foraclusão – o “não existe” – permitiu apreender o que há de primordial sob o termo de Nome-do-pai, proporcionando efeitos na prática clínica.

 

         De um lado, considerando-se o desencadeamento dos delírios, que eclodem na ocasião de um encontro, uma conjuntura, Lacan sustenta, em 1957, que o encontro será tanto mais perturbador, na medida em que “Um-pai vem a este lugar onde o sujeito não pôde chamá-lo antes.” Como conseqüência desse novo saber, aprendemos a ser mais prudentes, a não jogar com o significante com esse paciente atravessado por um gozo que ele experimenta como algo imposto ao seu corpo.

        

         Wartel pergunta: Um Nome-do-Pai de suplência poderia focalizar e temperar, num feixe suportável, esse gozo arrebatador?

 

         Por outro lado, Lacan em seu artigo “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, de 1957-58, elabora uma clínica nova, que não visa a extinguir o delírio, mas o respeita como criação de um mundo onde o sujeito possa viver, um Nome-do-pai de substituição, um significante que não obtura nem anula a foraclusão, mas que a tampona ou mascara até que uma evolução seja possível. Isso trouxe como efeito um olhar sobre a loucura por um outro ângulo, revolucionando os longos períodos de  hospitalização e a medicação usada nesses tratamentos.

 

         Wartel propõe, como uma ousadia (sic), uma fórmula: enraizar em vez de erradicar, em nome do respeito que se deve ao sintoma, do trabalho do delirante em seu delírio, de uma restituição ao paciente de sua operação vital.

 

         O sucesso da psicanálise trouxe para os consultórios dos psicanalistas um fluxo de psicóticos delirantes ou de psicóticos não-desencadeados, onde antes não eram atendidos por 10-20 anos.

 

         Lacan, em seu segundo ensino, ao apoiar-se no nó borromeano do Real, do Simbólico e do Imaginário, torna as neuroses não tão separadas das psicoses. Passamos de uma clínica estruturalista, descontinuísta, para uma clínica continuísta, onde não trabalhamos com o conceito de estrutura clínica.

 

         A psicose pode ser apreendida como a falha desse nó, a dispersão de seus anéis, seu relaxamento que deixa flutuante seu ponto virtual de imbricação, o pequeno a.

        

         O Nome-do-pai não iria desaparecer totalmente como foracluído, porque poderia haver uma suplência bem sucedida. Seria uma amarração diferente, a que seria possível para impedir a desordem e que serviria também para religar, reter os elementos em seu movimento de dispersão.

 

         A suplência aqui seria o sinthoma, como Lacan tão bem descreveu no Seminário 23, O Sinthoma, de 1976, ao falar de Joyce.

 

         Antonio Di Ciaccia, em seu artigo “Le Nom-du-Père: un trou”[3], diz que a expressão Nome-do-Pai é utilizada por Lacan sempre com a mesma significação: é a função-pivô para o ser falante.

 

         No primeiro ensino, o Nome-do-pai é a função que assegura a ligação entre o significante e o significado. É a ancoragem simbólica que permite ao sujeito o acesso à normalidade. O pivô do humano é um pivô simbólico. O Lacan pré-lacaniano dosComplexos Familiares recorre à imago paterna para sustentar a função-pivô do humano. Em seguida, ele confere ao pai a função de ser significante e, logo, propõe uma precisão: o significante paterno não é significante porque é paterno, mas é paterno porque é significante. Como nem todo gozo é significantizado pelo significante paterno, há um resto de gozo na vertente do real e, no lugar do que garantia o sistema simbólico, um buraco. No último ensino de Lacan, a definição dada ao Nome-do-pai é a de ser um buraco. Mas ainda aqui, um pivô. O pivô é um buraco, um furo.

 

 

         Para finalizar, e tomando como referência o texto de Carole Dewambrechies-La Sagna, Suplências e Nome-do-Pai, em Scilicet dos Nomes do Pai, p. 168, podemos pensar em Nomes-do-Pai e em diferentes suplências.

 

         Lacan reinterpreta a questão freudiana do pai na psicanálise através dos registros Imaginário, Simbólico e Real e, a partir disso, podemos distinguir um pai imaginário, um pai simbólico e um pai real, extraindo dessa situação uma função, a função paterna.

 

         Para todo sujeito falante, o Nome-do-pai é o significante que ordena o mundo e as questões da existência humana: as relações entre os sexos e as que dizem respeito à vida e à morte.

 

         Para o sujeito psicótico, a metáfora paterna não pôde operar e ele não dispõe doNome-do-pai para situar-se na existência, pois o Nome-do-pai está foracluído.

 

         Lacan, ao estudar o caso Schreber, dá ênfase ao que Freud falava do delírio, como uma forma de reatar a relação com o mundo. Lacan fala do trabalho do delírio – o delírio como uma metáfora delirante -, que restabelece uma certa relação com o mundo e que representa, dessa forma, uma tentativa de cura. O delírio é pensado como uma metáfora que faz suplência àquela que não se instalou. A suplência é de significantização.

        

         Mesmo na neurose, o Nome-do-pai não inclui totalmente o gozo e o sintoma neurótico desempenha também o papel de uma suplência.

 

         Suplência e Nome-do-pai, ambos ocupam o lugar de alguma coisa que está vazia. Vão tentar preencher o buraco, como falou Antonio Di Ciaccia.

 

         Se, no primeiro ensino de Lacan, o sintoma faz uma suplência ao Nome-do-pai e a metáfora delirante para o psicótico faz a suplência da significantização, no segundo ensino, na clínica borromeana, o quarto aro que faz o enlaçamento dos três aros (RSI) pode ser tomado como Nome-do-pai ou sintoma, na neurose, enquanto que – a partir do estudo de Joyce – temos um novo enlaçamento onde o Nome-do-pai é deficiente, não funcionou, fugiu da regra.

 

         Joyce encontrou outra solução: a de “se fazer um nome” a partir de uma obra que, como ele mesmo disse, os universitários estudariam durante séculos. “É de se querer um nome que Joyce fez a compensação da carência paterna.”

 

         Lacan interpretou a escrita de Joyce como “sinthomática”, um misto de sintoma e gozo, e propôs que o caso Joyce fosse considerado “como resposta a uma maneira de fazer suplência a um desenlaçamento do nó.”

 

         O trabalho efetuado por Lacan, como salienta a autora, tem como efeito uma mudança nas formas da psicose: existem os “casos Schreber” e outros semelhantes a “Joyce”.

 

         Tem-se uma clínica das suplências, sem o recurso no Nome-do-pai, onde se estuda como o sujeito pode manter juntos, Imaginário, Real e Simbólico. As suplências não são apenas reservadas ao simbólico e podem ser também da ordem do imaginário e do real.

 

         A questão das suplências diz respeito a todo ser falante.

 

         “O buraco do simbólico existe para todos: não existe no inconsciente o significante da mulher que permitiria que a relação sexual pudesse se escrever, o que Lacan resume em “não há relação sexual”. Este “não há” determina um lugar vazio que convoca sempre uma suplência.”

 

         A autora termina seu artigo dizendo que “o pai freudiano não existe mais e a ciência do real aberta por Lacan faz suplência, por sua vez, a esta versão do pai. O dizer verdadeiro, necessário na experiência analítica, tem que fazer uma articulação com esta ciência do real.”

 

        

 

 

 

 

 

 



[1] Texto elaborado para ser apresentado na Jornada da EBP-SP: Os Nomes-do-Pai – religião, cultura, literatura, clínica - em 13 de maio de 2006.

 

[2] Erneta, L., Neurose e Nome-do-Pai, Scilicet dos Nomes do Pai, p. 102

  Wartel, R., Psicose e Nome-do-Pai, Scilicet dos Nomes do Pai, p.145

  Merlet, A., Perversão e Nome-do-Pai, Silicet dos Nomes do Pai, p.134.

 

[3] Di Ciaccia, A., Le Nom-du-Père: un trou”,  La Lettre Mensuelle, n. 247, abril de 2006.


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