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ARTIGOS

21/03/2006 
Sobre o conceito de encefalopatia 

                        Sobre o conceito de encefalopatia

 

        O presente trabalho tem por objetivo apresentar o conceito de encefalopatia, dentro da linha de trabalho adotada pelo Serviço de Psiquiatria do Hospital do Servidor Público Estadual. Este conceito, elaborado pelo Prof. Dr. Carol Sonenreich, diretor do serviço, tem um sentido muito particular, fruto de longa observação dos pacientes psiquiátricos e da escuta do relato de suas vivências. Sobretudo, logo a princípio, deve-se distanciá-lo da referência neurológica.

 

Comecemos, para calcular a distância, pelo dicionário. A palavra encefalopatia é o termo geral do nosso léxico que designa qualquer doença encefálica (Dicionário Aurélio). A literatura médica a utiliza, especialmente na Neurologia, para designar diversos sinais e sintomas relacionados ao cérebro. Causados, por exemplo, pelo alcoolismo e outras toxicofilias, por uso de anorexígenos e anabolizantes, por lesões relacionadas ao parto, distúrbios genéticos, distúrbios metabólicos, principalmente o hipotireoidismo, encefalites virais (HIV) ou não, meningites, traumatismo crânio-encefálico, epilepsia, parasitoses, disritmias, entre outros.

 

        Quando entrevistei o Professor Carol, em 9/1/2006, pude entender que, à época da formulação do conceito, houve críticas, talvez por uma inadequação na divulgação: seria um conceito organicista, mais neurológico que psiquiátrico. Este fato o levou a reduzir o uso e quase abandoná-lo. A psiquiatria existencialista não pode ser confundida com a psiquiatria biológica.

 

Os trabalhos publicados sobre o tema, indicados por ele, trazem as premissas teóricas a partir das quais o conceito foi construído. É importante enfatizar o rigor metodológico desta postura, cuja reflexão sobre as alterações mentais, baseia-se numa visão geral do homem, dos processos psíquicos, da doença e do saber científico.

 

Na formulação de um diagnóstico, o entrevistado não valoriza um sintoma psíquico isolado, nem a soma de sintomas. A preocupação está em entender os mecanismos básicos implicados nas fobias, obsessões, compulsões, delírios, conversões histéricas, e outros. Nesses mecanismos há muito daquilo que o conceito de encefalopatia quer exprimir.

 

         A tentativa de entender esses mecanismos, presentes nos mais diversos tipos de distúrbios, leva a se observar o caráter comum a todos eles: incapacidade de levar os processos psíquicos ou fisiológicos até o final, até sua solução. Portanto, incapacidade de concluir, de fazer escolhas, de se responsabilizar, de resolver problemas, de satisfazer desejos. Incapacidade de aprender com as experiências vividas. Além disso, irritabilidade excessiva, agressividade, impulsividade, viscosidade, excesso de libido ou frigidez. Pouca ou nenhuma percepção do outro.

 

O conflito psicológico é entendido diferentemente  dos conflitos entre o eu, o inconsciente e o supereu. É uma situação causada por idéias contrárias, conscientes, onde o sujeito não faz escolhas. As ações resultam de escolhas conscientes. Sem elas não há uma direção e acontecem repetições de atos ou idéias que não chegam a um fim.

 

Os indivíduos parecem não distinguir as condutas que os levam à satisfação de outras que não os levam. Fracassos nas tentativas biológicas de eliminar um mal-estar, de obter prazer, podem se tornar um modelo para tais confusões no plano psíquico (in Psiquiatria: Propostas, Notas, Comentários).

 

O mal estar num indivíduo corresponde a um estado provocado por um estímulo interno ou externo, um desequilíbrio que precisa ser eliminado. Exemplos disso são as sensações de fome, sono, frio, etc. No plano psicológico, um exemplo são os desejos. Todo estímulo provoca uma reação cuja tendência é eliminar, anular ou esgotar o estímulo. O estímulo é uma interferência numa estrutura equilibrada que está sempre buscando manter esse equilíbrio. O estímulo provoca uma reação que procura eliminar-se a si mesma. O organismo responde com mecanismos aptos a restabelecer o equilíbrio.

 

Em certos casos, o indivíduo parece perder sua aptidão para finalizar o processo iniciado. A perda da distinção entre o que é bom e o que é mau, nos parece característica de certos pacientes. E toda sua atividade sofre por falta do controle de retro-alimentação (feedback) (Distúrbios Psíquicos e Epilepsia, in Revista Temas).

O paciente não acessa em seu discurso respostas adequadas para a eliminação do estímulo que não se realiza de maneira satisfatória, e sente um mal estar constante. Ele não aprende as respostas adequadas para sentir-se satisfeito. Não escolhe os pensamentos convenientes, o que causa sua inadequação.

 

Com o fracasso nas tentativas de eliminar os estímulos que provocam mal-estares, muitos pacientes apresentam uma forte agitação;  outros caem na fórmula do “não consigo”.

 

Esta situação de não chegar até o fim torna-se um modelo de vivência, que pode estar na base de síndromes mais sérias, desde a perda da capacidade de atingir o orgasmo, até fobias, cerimoniais obsessivos, delírio (mesma referência anterior).

 

No caso da histeria o paciente usa a doença para demonstrar sua impotência. A conversão é um sofrimento para ele e o efeito produzido é um substituto do desejado. O histérico solicita amor e consegue piedade, na melhor das hipóteses. Ele não percebe que seus sintomas não são aptos para trazer-lhe satisfação. Não procura novos instrumentos, reforça os já experimentados, apesar da insuficiência provada... Não consegue eliminar os estímulos, chegar à satisfação das suas necessidades(Considerações sobre a Frigidez, in Revista Temas).

O fóbico e o obsessivo vivem em constante atividade mental. Seus pensamentos são incessantes, ineficientes, giram em torno de um mesmo assunto sem nunca resolver.  Esta atividade não satisfaz os desejos, não resolve problemas. Sabem que seus pensamentos são anormais e lutam para se livrar deles. Porém, nem cedendo às suas compulsões sentem alívio.

 

Os pacientes que não podem distinguir as ações que proporcionam satisfação daquelas inadequadas para eliminar seu mal-estar, podem abandonar o pensamento lógico, uma vez que este não serve para os objetivos em função dos quais foi elaborado (Distúrbios Psíquicos e Epilepsia, in Revista Temas).  Desta maneira pode-se explicar a aparição de desagregação e delírio em pacientes que, por causa de disfunções cerebrais, perdem a distinção entre mais e menos, bom e mau.

 

A repetição compulsiva de uma conduta inadequada pode produzir estafa. Preconceitos e ausência de crítica ao assumir certas idéias conduzem a condutas insatisfatórias. O indivíduo não analisa seus conflitos, não se pergunta sobre seus fracassos e atribui seus males a agentes externos, ou a um bode expiatório qualquer. Estas mesmas condutas inadequadas podem promover atividades neurais desequilibradas, que, por sua vez, resultam em astenia (fraqueza).

 

A astenia, enquanto fórmula de organização, pode ser definida como falta de correspondência entre a energia investida na realização de uma ação e a que seria necessária para obter o resultado desejado (Psiquiatria: Propostas, Notas e Comentários).

 A insuficiência do investimento pode advir de um cálculo equivocado, de uma mobilização insuficiente de recursos, da ausência de disponibilidade, ou da falta de motivação. Um cérebro astenisado não produz respostas compatíveis aos estímulos.

   

Os sistemas sensoriais receptores entram em atividade indagando sobre a natureza dos estímulos; procuram identificá-la usando mais informações memorizadas, em parte, nas redes ativadas em experiências passadas. Recebidos os estímulos, entram em atividade redes geradoras de ação, aptas também a receber retro-informações (feedback) do efeito que nossas ações exercem sobre o objetivo proposto. A retro-informação orienta e adapta nossa ação a seu objetivo. Nos cérebros astenisados, a rede ativada pode não transmitir um estímulo em nível bastante alto para acionar outras redes,  com as quais já funcionaram em conjunto. Nesse caso faltariam elementos no processamento global, o que pode fazer com que a situação seja vivida diferentemente de como foi em outras ocasiões. Os eventos, seus elementos, podem ser reconhecidos como em experiências anteriores, mas não totalmente iguais, não exatamente a mesma coisa. Sei que se trata de mim, de minha experiência, mas é como se fosse diferente. Vivências atenuadas, incompletas, por causa do tônus diminuído das atividades, incompleto (mesma referência anterior).

 

Tendo em vista que a noção de eu e de suas relações com o mundo partem de estímulos internos e externos, no astênico a captação da realidade ou de si mesmo é reduzida.

 

A ansiedade se caracteriza por situações onde ocorre  aceleração dos processos psíquicos em um campo vivencial estreitado. A astenia é a expressão do estreitamento e também o favorece. Impede a mobilização de informações, exclui redes neurais do processo. As atividades se realizam com um tônus bastante enfraquecido.

 

Com relação aos mecanismos cerebrais descritos acima, o Dr. Carol Sonenreich admite uma aproximação com os comportamentalistas. Contudo, os elementos reflexológicos e comportamentais são apenas uma parte do problema. Os comportamentos não são meros reflexos, dependem do ambiente e das vivências, para dizer o mínimo. O que o seu trabalho procura é uma correspondência entre o plano psicológico e o fisiológico, uma integração entre nossos conceitos sobre os processos mentais e os processos cerebrais.

 

Concordamos com Brain  quando propõe ‘procurar na fisiologia o desenvolvimento de uma linguagem que possa unir o espaço entre cérebro e psiquismo’ (Considerações sobre a Frigidez, in Revista Temas).

 

 

 

Bibliografia

 

-Sonenreich C., Estevão G., Altenfelder Silva Fo. L. M. – Psiquiatria: Propostas, Notas e Comentários.Fobias Obsessões, Compulsões. São Paulo: Lemos, 1999

-Sonenreich C., Moreno M. A. A – Considerações sobre a Frigidez. Rev. Temas n. 02, dez. 71

-Sonenreich C., Estevão G. – Distúrbios Psíquicos e Epilepsia. Rev.  Temas n. 21, dez 81

-Dicionário Aurélio Século XXI – Ed. Nova Fronteira, 1999

 

 

 

Eliana Carpinelli                          Clipp - São Paulo, 17/3/2006.

 

 

Orientação: M.Carmo Dias Batista (texto com revisão do entrevistado). 


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