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ARTIGOS

01/07/2005 
Não há semblant de discurso

Não há semblant de discurso*

 

Sandra Arruda Grostein

 

 

         Nesta Carta,  a preocupação dos autores está em  aprofundar alguns temas que servirão de balizas para uma série de conferências que serão proferidas por M-H Brousse -O inconsciente é a política- o Seminário de Lacan “De um discurso que não seria do semblant”, é sugerido como bibliografia para a conferência intitulada: “ O futuro da psicanálise depende da insistência do real”.

 

         J-A Miller em seu curso do dia 15 /05/02, ao retomar a frase de Lacan que está sendo usada como título do seminário internacional, vai dizer que não se trata de definir o que é política, mas o contrário  a política é que define o que é o inconsciente.Porém, quando pensamos em política, podemos buscar algumas referências, entre outras a de Hanna Arendt: O que é a política ? Ela responde:”A política repousa sobre um fato:a pluralidade humana”.”A política trata da comunidade e da reciprocidade entre seres diferentes”.

 

         Ainda com Arendt ela relembra que Montesquieu vai dizer que a vida entre os homens é regulada pelas leis e pelos costumes: “ as leis governam as ações dos cidadãos e os costumes as ações dos homens.As leis estabelecem o domínio da vida pública e da política e os costumes a vida em sociedade.”

 

         Miller neste curso já citado ao tratar da questão da política, vai dizer que vivemos uma época de nostalgia da cidade, e conseqüentemente um  declínio da importância das leis. Poderíamos supor que vivemos mais de acordo com os costumes, regras, normas do que o respeito às leis.

 

         Em relação à questão da cidadania, das políticas publicas, das relações nacionais e internacionais,  faz diferença  estarmos ao sul do Equador?Vejamos: “O Brasil urbanizou-se, industrializou-se, viveu surtos autoritários, mas democratizou-se, diversificou sua pauta de exportações, ampliou seu acervo de relações diplomáticas.Em síntese, modernizou-se e melhorou seu lócus standi internacional,sem no entanto, ter equacionado uma das falhas de sua formação, que é o problema da exclusão social.”

 

         Ainda, “ o nacionalismo não é imposição de nossas peculiaridades, nem simples expressão de características nacionais.É, ao contrário, um meio para atingir um fim: o desenvolvimento”(Celso Lafer)

 

         Se tomarmos mais precisamente no plano político, no Brasil” transitamos do Estado oligárquico ao Estado democrático; no administrativo, do Estado patrimonial ao Estado gerencial; no plano social, da sociedade senhorial para a sociedade pós-industrial.O Estado autoritário-modernizador, o Estado burocrático e a sociedade capitalista, que nesses três planos tiveram longa vida na Europa, foram aqui transições rápidas, próprias de um país que salta etapas, mas permanece sub-desenvolvido;que moderniza, mas permanece atrasado porque dual e injusto”(Luis Carlos Bresser Pereira.)

 

         O atraso  tão amplamente difundido em nossa cultura, está necessariamente relacionado a um ideal de desenvolvimento como Renato Ortiz destaca: “ Quando nossos modernistas diziam” para sermos modernos, é preciso sermos nacionais”, deslocam a modernidade idealizada para um tempo futuro.Pode-se dizer o mesmo dos desenvolvimentistas nas décadas de 50 e 60 .O lema “ não há desenvolvimento sem uma ideologia do desenvolvimento”afirmava o primado das idéias sobre a realidade.A ideologia tinha necessariamente de vir antes de sua realização;somente assim o “atraso” poderia ser superado num tempo futuro.(Renato Ortiz) . Os significantes que nos particularizavam enquanto identidade nacional, eram resultantes de uma relação de comparação entre modelos de desenvolvimento de diferentes nações.Ao comparar temos a interpretação do sub-desenvolvimento, do atraso e o sentido da política é o de diminuir o déficit.Isto é compatível com as leis do desejo, buscar o que não se tem em comparação com o ideal. “O desejo do homem é o desejo do Outro”.

 

         Numa época onde “a aceleração do tempo e o encurtamento dos espaços vem diluindo a distinção entre o interno e o externo, por obra do ímpeto centrípeto da globalização”( Celso Lafer).Mais do que o atraso nosso principal problema pode ser entendido como o da exclusão social. Isola-se, segrega-se e apresentam-se “soluções brasileiras para problemas brasileiros” que satisfaçam  a “exterioridade enganosa”*.” Nossa infância pobre não pode continuar sendo tratada como um caso de policia ou como um desvio da norma, como fala a linguagem jurídica pomposa como se eles fossem cidadãos que escolheram o pecado, o crime. Não eles não são cidadãos pois só são tratados assim na hora do julgamento; são pobres animais feridos e loucos, são aberrações que nós criamos, são nossos filhos com o demônio, nossos dejetos que criamos por 400 anos.”(4)

 

         A conseqüência da “nostalgia da cidade” como realidade ou ideologia, efeito de uma época onde o Outro não existe, exige da psicanálise uma “subversão do inconsciente freudiano”nos diz Miller , onde o recalque era associado à interdição, à lei - temos com Lacan o recalque articulado à linguagem.

 

         E de que linguagem se trata? Retomemos os discursos. O inconsciente é o discurso do Outro.

 

         Lacan propõe que  o discurso é o laço social, e se não há discurso que não seja do semblant, o laço social é uma exterioridade enganosa que  a pluralidade humana de tempos em tempos tropeça tanto com a exterioridade quanto com o engano.. Aproveitando a lúcida  afirmação de  Jabor : “ A verdade é que estamos impotentes diante dos fatos, não só no crime como na política, pois as coisas passaram a mandar nos homens e os governos ficaram ficcionais”, provocando “buracos no semblant”  que Lacan chama de real.

 

         Se o passado da psicanálise está associado à lei do desejo, à transgressão possível, o futuro está nas mãos do gozo.Os regimes políticos visam organizar a impossível reciprocidade entre os diferentes, a modalidade de gozo de cada um está submetida a um significante, cuja única função, é a de balizador. O S1 só quer ser o mestre diz Lacan, ele não pede um S2.

 

         Procura-se antes, uma mudança de regime de gozo do que um desenvolvimento. Como não há semblant de discurso, o futuro da psicanálise depende da insistência da diferença radical que cada um possa sustentar em seu modo de gozo.

 

 

    * Segundo o dicionário Houaiss, semblant quer dizer exterioridade enganosa.

Referências Bibliográficas

1-    Lacan Jacques, De um discurso que não seria do semblant ( inédito)

2-    Miller , J-A, Curso 2001-2002 Inédito

3-    Arendt Hanna- Qu’ est-ce que la politique?

4-    Pinheiro, Paulo Sérgio; Wilheim Jorge; Sachs Ygnacy- Brasil um século de transformações- Companhia das Letras

5-    Jabor Arnaldo, Estado de São Paulo, dia 29/10/2002

 

 

 

* Texto publicado na Carta de São Paulo em novembro de 2002 por ocasião do Seminário Internacional “O inconsciente é político”, ministrado por Marie-Hélène Brousse, na Escola Brasileira de Psicanálise – São Paulo 


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