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ARTIGOS

14/03/2005 
A HORA DA ANOREXIA

A hora da anorexia*

Carmen Silvia Cervelatti

 

        

Estamos na hora da anorexia como estrela, a hora da indecência de uma pele sem destaque, de um corpo que ao mostrar-se dispensa a fala, que não se conjuga nem em poesia nem em prosa. Estamos no terreno de um remanejamento do corpo e de uma intervenção profunda sobre o corpo – um estilo de vida anoréxico, disse Miller ao retomar Dominique Laurent no recente Congresso da AMP, em Comandatuba.

 

A Anorexia/Bulimia está na moda, está nas passarelas, está na TV, tem sites de bate-papo na Internet, toma os leitos dos hospitais, freqüenta os divãs dos analistas, visita as conversas das mulheres, virou até uma forma de xingar e depreciar: aquela anoréxica! Tal qual se fazia com as histéricas. Sempre existiu a anorexia, mas nunca com tanta quantidade e tão descaradamente. Ela já se fez notar entre as místicas, entre as bruxas, entre as santas - esta patologia agora se faz diamante entre as fomes da mulher, e exatamente no momento em que ela se defronta mais diretamente ao real do sexo.

 

As estatísticas do DSM IV indicam que mais de 90% dos casos de anorexia e de bulimia ocorrem em mulheres que vivem nos países industrializados  e as acometem na adolescência – a anorexia entre os 14 e 17 anos e a bulimia se estende até o início da idade adulta.  Segundo este manual, a “Anorexia Nervosa parece ter uma prevalência bem maior em sociedades industrializadas, nas quais existe abundância de alimentos e onde, especialmente no tocante às mulheres, ser atraente está ligado à magreza”. Pretendo articular estes três fatores: adolescência, mulher e o Outro.

 

         O Outro que não existe e a anorexia

 

         Na época atual, na maioria de suas organizações sociais, o Outro é constituído enquanto semblante, tudo se transforma de forma vertiginosa e tudo é sempre relativo – há um “império dos semblantes”[i], que mascara e maltrata o real por oferecer respostas que o dispensam. Conforme aumenta a oferta de objetos de consumo (quanto mais descartável melhor) mais a subjetividade se assenta no consumo frenético, desenfreado e alheio ao controle – terreno próprio à compulsão.

 

Não é sem razão que a anorexia aumentou significativamente nos últimos anos e nos países capitalistas. Praticamente não há anorexia nas culturas em que o Outro tem existência, por exemplo, aquelas em que rituais iniciáticos acontecem, principalmente na iniciação sexual. Os rituais iniciáticos, que funcionam como Outro, demonstram que o semblante tem a função de se inscrever no real. A jovem anoréxica não se queixa da perda de peso, isso não é problema, é antes solução. É uma solução que dispensa a fala – um sintoma mudo.

        

         Para Lacan, o discurso capitalista tem por característica a recusa do amor e da castração, e se neste há um Outro é aquele que trata o objeto como puro objeto de consumo e nada ou quase nada faz signo do amor porque tudo é consumível, o que obtura a divisão subjetiva.

        

         O discurso do capitalista, ao tomar a cena do discurso do mestre em curto-circuito, atravessadamente, produziu conseqüências importantes: o mais-de-gozar domina vertiginosa e fugazmente, pois há sempre algo de novo a ser consumido e sua vigência enquanto estrela tem curtíssima duração.

 

“Esse objeto – esta é nossa hipótese – impõe-se ao sujeito desbussolado, convida-o a ultrapassar as inibições”[ii]. Foi nesta conferência que Miller aproximou o discurso da civilização hipermoderna ao discurso do analista, demonstrando que nos dois discursos o objeto a e os outros elementos ocupam os mesmos lugares, porém estão desconectados no discurso da civilização contemporânea. Podemos até levantar a hipótese de que o discurso capitalista necessariamente produziu, como condição lógica, o discurso da civilização moderna aproximado ao discurso do analista, porém desarticulado. Somente na psicanálise pura S1, S2, a e $ se ordenam em discurso, enfatizou Miller. Será que o amor e a castração, que foram recusados e retirados de cena nesta civilização, poderão fazer diferença no tratamento das manifestações dos novos reais?

 

Tanto na civilização atual quanto na anorexia há falta de amarração entre o gozo e o amor, característica do pai edípico que, em sua função simbólica, encobriria o impossível da relação sexual.

 

O real do sexo e a inexistência da relação sexual está evidenciada, escancarada. Não há significante mestre que faça existir a relação sexual e o gozo não está mais recalcado. A adolescência, quando aparecem a anorexia e bulimia, é, por excelência, o momento em que acontece o encontro com o real do sexo e o adolescente se vê confrontado à falta da proteção do Outro familiar, proteção própria da infância, bem como à tarefa de construir um laço amoroso.

 

Adolescência - o encontro mal sucedido com o real do sexo

 

O desencontro entre os sexos na adolescência é patente: quando pretensamente haveria um organismo aparelhado para o ato sexual, quando a relação sexual poderia se tornar possível, ela se revela impossível, faz furo no real. De “O despertar da primavera”, de Wedekind, Lacan frisou que os meninos só pensam em fazer amor com as mocinhas por haver um despertar de seus sonhos (infantis, edípicos). Desse despertar não se sai ileso, há um para-todos que se traduz  necessariamente em algo mal sucedido. “Que o que Freud demarcou daquilo a que chama sexualidade faça um furo no real, eis o que se percebe pelo fato de que, como ninguém escapa ileso, as pessoas não se preocupem com o assunto”.[iii]

 

Em “Os complexos familiares”[iv] (1938), Lacan situa na adolescência a emergência dos ideais, viril no rapaz e de virgindade nas moças, ideais que quando aproximados mostram-se totalmente desencontrados, perturbadores do encontro harmonioso com o parceiro sexual.

 

Na contemporaneidade não se trata mais de um desencontro causado pelos ideais próprios a cada um dos sexos. Podemos dizer que a carência de ideais, até mesmo a falência de algo que possa funcionar como significante-mestre para fazer existir a relação sexual, acrescida da inexistência de uma demanda ao Outro são fatores que impulsionam e evidenciam a impossibilidade da relação sexual na atualidade e comandam os “um-sozinhos”, reino do gozo do Um.

 

A anorexia é feminina

 

A partir de 1931, em Sexualidade feminina[v], Freud postulou que a menina jamais sai do Complexo de Édipo, para ela o fim é problemático e institui uma curva assintótica – algo que tende, mas nunca chega ao seu limite – na relação da mulher com a castração. “Considera que o complexo de Édipo na menina é antes defensivo, um meio que ela acha de escapar da colagem com a mãe.”[vi]

 

A adolescência é um momento de emergência, de confrontação com um novo gozo - o gozo de um Outro corpo, diferentemente sexuado -  que ultrapassa a identificação ao ideal parental, que protegia o sujeito pois estava amparado pelo Outro. Para Freud, a menina aí encontraria especial dificuldade pois a identificação fálica da infância a resguardava até então das fantasias orais. Confronta-se novamente com a falta do Outro – o significante do Outro barrado -, razão do não-todo feminino. Ela revive as fantasias de devoração em relação à mãe, que adquire maior relevo pois a relação a um possível parceiro masculino está desenlaçada do amor. O laço amoroso é fundamental para que a mulher consinta em colocar-se como objeto causa do desejo de um homem, portanto precisa do Outro para fazer-se parceira.

 

Encontram-se comumente nos casos de anorexia/bulimia um fator desencadeante. Uma frase proferida, um gesto ou um olhar, geralmente por um homem, dirigido ao novo corpo da púbere, valorizando despudoradamente o gozo das carnes sem intermediação de metáforas ou seduções e desnudando grosseiramente seu corpo como objeto. Na seqüência, a adolescente anoréxica obstinadamente fará desaparecer toda carne, todas as formas femininas que desabrocham em seu corpo que provocariam a cobiça e o gozo masculino.

 

Aproximando a adolescência ao feminino, percebemos que está em jogo uma separação do sujeito em relação à demanda do Outro e na anorexia encontramos uma falta de dialetização nessa separação, que se mostra absoluta nos casos graves - ela vive um gozo transgressor, mais afeito ao horror e marcado pela possibilidade iminente da morte.      

 

A anorexia entre a histeria e a psicose

 

Enquanto fenômeno anoréxico, ele é evidente e genérico – um corpo esquelético que dispensa qualquer fala que dê lugar ao sofrimento. “Devemos extrair do monocromatismo do fenômeno típico (amenorréia, perda ponderal, hiperatividade, recusa ao alimento, empuxo ao emagrecimento, etc.) o traço cromático específico da estrutura subjetiva.”[vii]

 

Mais afeito ao modo histérico de gozar, o comer nada, que não é uma negação da atividade (não comer), como ressalta Lacan, pode tomar a seguinte conformação: “Esta ausência saboreada como tal, ela a emprega diante daquilo que tem à sua frente, a saber, a mãe de quem depende. Graças a este nada, ela faz a mãe depender dela”.[viii] Desta maneira, o Outro não está excluído nem foracluído, como nos casos mais graves de anorexia. Está em jogo uma recusa que funciona como um apelo ao Outro, ou seja, é negando que a anoréxica histérica tece sua demanda de amor (traduzida emcomer nada!) e preserva o desejo de ser absorvido na demanda. Um desejo infinitamente insatisfeito, como é da estratégia histérica tornar cada objeto sempre inadequado.

 

Na bulimia, se ela consome vorazmente o objeto alimento, se ela mastiga e quase sente seu sabor, deve depois botar tudo pra fora – ao recusar o gozo (vomitar) continua ela mesma e se defende do desejo (expresso no quase sentir o sabor). Desta maneira, o sabor tem valor fálico.

 

Na anorexia, a mostração obscena do corpo esquelético em sua feiúra, produz no Outro um buraco (para ameaçá-lo, para impulsioná-lo a dar o que não tem – um sinal de amor, sinal de quem tem falta, sinal de que é barrado), e assim se faz existir para o Outro.

 

Para fazer existir o sinal de amor, a anoréxica recusa o alimento comendo pequenas porções de nada, nadicas de nada, enquanto que na bulimia ela consome infinitamente os objetos para compensar a falta do Outro.

 

Há um outro nada na anorexia, que se aproxima clinicamente da psicose pois não conserva nenhuma relação dialética com o desejo do Outro. Não se trata de um escudo para o desejo e sim sua queda e degradação. Se o primeiro tem íntima relação ao desejo do Outro, este está relacionado a um modo de gozo que exclui o Outro, é o puro reino do gozo do Um (o gozo do idiota, como Lacan trabalha no Seminário Mais, ainda) – assexuado, que não está relacionado ao falo e à castração.

 

Aqui há um investimento no corpo (um corpo anulado e cadaverizado) em detrimento ao investimento no Outro. Há uma busca da morte, um empuxe à destruição do corpo. “Não se trata da recusa do corpo, da anestesia do corpo sensual, da sua dessexualização a que corresponde, como se pode ver, os casos de anorexia histérica, uma sexualização da pulsão oral.”[ix] Este nada tem um caráter holofrásico, imperturbável. Na holófrase há uma solidificação do par significante (S1 – S2), uma ausência de intervalo e de movimento entre os dois, tornando a dialética impossível – é apreender a cadeia significante em bloco, como acontece na psicose, no fenômeno psicossomático e na debilidade, como sublinhou Lacan.

 

Trata-se, então, de uma mumificação psicossomática e não de um sacrifício do corpo para ter do Outro o sinal de sua falta, portanto um corpo falicizado, segundo Recalcati: “o corpo se reduz a uma barreira relacionada ao risco de uma destruição percebida como real”.[x]

 

A civilização da não-existência do Outro, do empuxe à desinibição pela busca frenética de um gozo a mais, a adolescência e a recusa do feminino se enlaçam e concorrem a aparelhar a anorexia-bulimia como um sintoma da moda, um sintoma de supermercado[xi]: “do tipo ‘não é necessário criar sintomas próprios, sai caro, pensem bem’, bem diferente do sintoma analisado e decifrado por Freud.”

 

São sintomas que não se entregam à decifração, estão de relações cortadas com o amor, não amam as palavras e por não possibilitar o laço discursivo deixam o sujeito imerso no um-sozinho. A clínica aponta este trabalho de convocação de um sujeito e de uma posição subjetiva, da construção de uma verdadeira demanda de análise, de construção de um sintoma que "entre na conversa".

        

         O gozo do Um é primário, é anterior ao inconsciente enquanto saber e com o amor de transferência a psicanálise pode fazer existir o saber inconsciente. 

 

        

 

*Texto apresentado nas Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise-SP

 Inibição, desinibição, sintoma e angústia

12 de março de 2005

 

 

 



[i] MILLER, J.-A. e LAURENT, Eric. “O Outro que não existe e seus comitês de ética”, in Curinga no. 12, set 98 – A clínica psicanalítica no mundo globalizado. Escola Brasileira de Psicanálise - Belo Horizonte, pp. 4-18.

[ii] MILLER, J.A. “Uma fantasia”, in Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise no. 42, fevereiro 2005, p.8.

[iii] LACAN, Jacques. “Prefácio a O despertar da primavera”, in Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 558.

[iv] LACAN, Jacques. “Os complexos familiares na formação do indivíduo”, in Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, pp. 29-90.

[v] FREUD, Sigmund. “Sexualidade feminina”, Vol. XXI, Ed.Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980, pp. 259-282.

[vi]COTTET, Serge. “Estrutura e romance familiar na adolescência”, in Adolescência: o despertar / Kalimeros – Escola Brasileira de Psicanálise – Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1996, p. 8.

[vii] RECALCATI, Massimo. “Os dois ‘nada’ da anorexia”, in Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanáliseno.32, abr/2001, p. 27.

[viii] LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995, p. 188.

[ix] RECALCATI, Massimo. “Os dois ‘nada’ da anorexia”, in Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise no.32, abr/2001, p. 33.

[x] Idem.

[xi] Miller, J.-A. “O sintoma como aparelho”, in O sintoma-charlatão, textos reunidos pela Fundação Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 17.



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