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ARTIGOS

05/09/2004 
O amor desacomoda

 

 

 

Sandra Arruda Grostein

 

 

 

 

Sei de mim, cumpro*

 

          

O episódio na vida de um analisante que o fez procurar análise foi uma crise violentíssima de ciúmes, onde a partir de uma troca de olhares entre sua namorada e futura esposa e o namorado e futuro esposo de sua irmã; ele se viu traído, e literalmente vira a mesa de um restaurante, se dirige à namorada com palavras muito ofensivas e  ao rapaz com socos e pontapés. Consenso geral, isto é um ataque de loucura, você tem que se tratar. Ele mesmo apesar da fúria, pensa que exagerou e portanto toma a iniciativa de me procurar.

        

O impasse na vida deste sujeito  se apresentava assim: ou ele perdia sua namorada e futura esposa pois demonstrava um ciúme doentio e se comportava como um louco e ela então o abandonaria por não suportar mais estas manifestações ou ele deixava de ser tão ciumento e mesmo assim perderia a namorada pois para ele não há amor sem ciúme, e então ele a abandonaria por deixar de gostar dela; como  quer ter  namorada, o pedido é de que a análise possa ajudá-lo  a sair deste impasse.

        

Num primeiro tempo ele procura atribuir à ela toda responsabilidade por sua inquietação, colocando a questão em relação a uma má escolha, poderia ter escolhido melhor, isto é uma mulher mais acomodada, quieta, calma, sem ambições profissionais, como a mãe que deixou seu trabalho de professora quando se casou com o pai. Esta hipótese  não resiste aos sonhos, lapsos e à associação decorrente que o faz retomar a questão não mais no seu empenho em  mudar, “salvar” sua mulher das tentações do mundo masculino, mas porque para ele era tão gratificante, fazia-o sentir bem e aliviado denegri-la a ponto de levá-la às lágrimas. Ele diz: “Falo tanta, mas tanta  besteira quando estou enciumado até que ela não suporta e começa a chorar, aí eu me sinto aliviado e posso parar”.O sentido dado visa recuperar o par imaginário, se ela me faz sofrer eu tenho que devolver na mesma moeda. Não convence.

        

Freud nos ensina que há “condições necessárias ao amor, cuja combinação é ininteligível, e até desconcertante”, descreve duas  onde a primeira se caracteriza por existir uma terceira pessoa prejudicada e uma segunda pré- condição que seria designada de uma maneira um tanto crua como  ele nos diz em seu texto” Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens, “amor à prostituta”.

        

Argumenta que enquanto a primeira pré condição fornece oportunidade para gratificar impulsos de rivalidade e hostilidade em direção ao homem de quem a mulher é arrebatada, a segunda que é a que nos interessa particularmente neste caso, “se relaciona à experiência do ciúme, que parece ser uma necessidade para os amantes desse tipo. Sua paixão só atinge o apogeu e a mulher só adquire pleno valor quando, apenas conseguem  sentir ciúmes e eles nunca deixam de aproveitar a ocasião que lhes permita experimentar essas emoções tão poderosas”.

        

Não resta dúvida que para este analisante o ciúme é uma condição necessária para o amor, não se pode ter um sem o outro, em sua demanda fica claro que ele quer deixar de manifestar seu ciúme “doentio” e ficar com o normal, mas o  ciúme tem que estar presente em sua relação amorosa. Ele acredita que o “doentio” esteja no exagero. Se seguimos Freud, a escolha de objeto está determinada pelo fato de que para este paciente, “a mulher casta não exerce atração de objeto amoroso, mas apenas a mulher que é de uma ou outra forma sexualmente de má reputação e cuja fidelidade e integridade estejam expostas à alguma dúvida,  e acrescenta que a realização do prazer só é possível com um objeto sexual depreciado, desprezado”. A escolha amorosa neste caso é sintomática na medida em que ele precisa inventar estórias para dar sustentação às suas suspeitas. Atendendo às  exigências do super-eu escolhe uma mulher de boa família, virgem aos vinte e dois anos, não muito atraente do ponto de vista sexual, com todas as características que a incluiriam no estereótipo da mulher feita para casar com ele, porém vai descobrir em seu olhar a malícia. Na cena do restaurante, o olhar do cunhado faz equivaler a mulher à irmã, surgindo o desejo incestuoso e a resposta violenta, um ataque de fúria o aproxima de uma identificação ao seu pai. Homem descontrolado, agressivo e violento. Na novela familiar retoma, o ciúme à irmã, um ano mais velha que era quem habitualmente provocava a fúria paterna, por ser muito rebelde, por não se acovardar, não se acomodar, como ele, diante do pai. O sentido dado às associações é de que em sua infância ele se comportava como uma menina, obediente, submissa, acomodada e sua irmã como um moleque rebelde, agressivo, violento e burro, pois quanto mais este personagem irmã-moleque não obedecia, mais apanhava.

        

A cena do pai furioso, descontrolado batendo na irmã e ele  espiando e aguardando o momento em que alguém viria para socorrê-la, culminava com o comentário: “Você ainda acaba matando esta menina”! E o que lhe parece mais contraditório é que  sempre acreditou que seu pai a preferia, gostava mais dela  do que dele. No decorrer do tratamento analítico esta cena vai se esvaziando de seu conteúdo dramático, e no seu cotidiano toma decisões importantes como por exemplo, se casar; pois se sente  bem mais calmo e seguro. Poucos meses depois, começa ter um caso com uma mulher casada e aí se depara com o que chama o “absurdo” de seu ciúme. Com a mulher mantém uma relação mais tranqüila, com o marido de sua amante nenhum problema, o “louco” segundo ele, é que sente ciúme dos colegas de trabalho, dependendo da maneira de como olham para ela.

 

Neste contexto ele considera o ciúme como um artifício necessário para poder se sentir vivo. O estar tranqüilo está  associado ao acomodado, acovardado, passivo, sem desejo, sozinho, gordo, amortecido, morto. É o amor que faz com que ele queira se mexer, emagrecer, lutar pelo que quer. É o amor que desacomoda, que o faz sentir vivo, e a marca do seu amor é o ciúme.

        

Segundo Freud, “o instintos do amor são difíceis de educar, talvez tenhamos de ser forçados a nos reconciliar com a idéia de que é absolutamente impossível harmonizar os clamores de nossa pulsão sexual com as exigências da civilização”, retorno aqui a epígrafe deste texto citando Guimarães Rosa, Sei de mim, cumpro, quanto ao desejo sexual não se sabe, obedece-se. O que não muda é a pulsão, o que a civilização pretende fazer das pulsões parece inatingível, a não ser à custa de uma ponderável perda de prazer; sob a forma de não satisfação. A face do objeto que sofre as sanções da civilização, as proibições, adquirem as marcas fantasmáticas.

        

Em que medida o caso clínico apresentado nos ajuda a pensar o amor em sua relação inconciliável com a civilização?

        

A desimaginarização da cena de ciúme, passa pelo registro de que o desejo dele pelas mulheres pode ser captado no olhar, e que este olhar lhe provoca ao mesmo tempo desejo e ciúme.

        

Com Freud poderia se pensar o necessário, da condição necessária para o amor como imprescindível, não educável, e com “Lacan a mulher para um homem é sempre objeto a”, para concluir que a direção deste tratamento visa que o impasse da demanda de análise se resolva à medida que o sujeito possa amar as mulheres com a condição de não tê-las.

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

- Freud, S. - Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia homossexualismo; umtipo especial de escolha de objeto feita pelos homens; e Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor, ESBOPC, vol. XI, Rio de Janeiro, Imago.

 

- Miller, J. A. - L'Autre qui n’existe pas et ses Comités d’Étique aula - 4/6/97; Mujeres y Semblantes - Cuadernos del Pasador; Lógicas de la Vida Amorosa, Manantial 

 

 

* Guimarães Rosa

 

 

 Texto apresentado nas Jornadas “Os destinos da pulsão: sintoma e sublimação”,  nos dias 14,15 e 16 de novembro de 1997.


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