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ARTIGOS

20/02/2017 

O JOGO TRANSFERENCIAL NO CARTEL
Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri

Lacan propõe, no “Ato de Fundação” que o ingresso à Escola seja feito via cartel e na “Proposição de 9 de outubro de 1967” afirma que “no começo da psicanálise está a transferência”. Se no começo está a transferência e a entrada na escola passa pelo cartel, é necessário examinar a questão da transferência relacionada aos cartéis.

O cartel permite, a partir da questão de cada um, uma “elaboração provocada”. Mas isso não é tudo, e é inegável que as relações transferenciais pululam em um cartel: são quatro (ou três ou cinco, ou mais) que se juntam – primeiro nível transferencial – em torno de uma questão psicanalítica – segundo nível transferencial – e buscam um mais-um, que se junta ao cartel para descompletá-lo, o que faz com que seja menos-um – terceiro nível transferencial.

Ao permanecer no primeiro nível transferencial, apenas buscando por um “mais-um”, os postulantes de um cartel podem provocar um curto-circuito no segundo nível, o que acarretará os efeitos de grupo, trabalhados por Freud em Psicologia de Grupo e a Análise do Eu (1921).

A questão psicanalítica a juntar os quatro passa necessariamente a ser uma questão de trabalho, mas como observa Miller , o fato de haver provocação ao trabalho mostra que não há vocação para este . Como estimular o trabalho para além da necessidade de ganhar o “pão de cada dia”, como passar da necessidade ao desejo? O segundo nível transferencial, que se dá em torno da questão de cada um, precisa de estímulos que afastem os efeitos de grupo e faça cada um trabalhar. Fundamental o segundo nível, onipresente para os cartelizantes e, principalmente, para o “mais-um”.

Na busca do “mais-um” que provocará o trabalho, emerge o terceiro nível transferencial, que necessariamente deverá ser mediado pelo segundo. Mas quem é o “mais-um’? Como diz Lacan, “embora possa ser qualquer um, deve ser alguém”, alguém que, além de incumbir-se da direção a ser dada ao trabalho, deve ele próprio trabalhar, pois também é membro do cartel, trabalhando uma questão própria. Ou seja, o “mais-um” presentifica o próprio paradoxo de Husserl: está dentro e fora ao mesmo tempo.
O fato de o “mais-um” sustentar uma questão favorece a possibilidade de passar de um trabalho de transferência, característico da análise, para uma transferência de trabalho, característica do cartel. Dar o justo lugar ao objeto no cartel exige que o “mais-um” não se aproprie dos efeitos transferenciais, mas que o remeta a outro lugar, que seja um agente provocador a partir de onde há ensino, a partir da escola de Lacan.
Miller propõe para o cartel a estrutura do discurso da histeria (que Lacan dizia ser quase a mesma do discurso da ciência), e que, se fosse preciso escolher um modelo de “mais-um” escolheria Sócrates, lembrado pelos séculos posteriores pelas provocações a seus interlocutores, como vemos nos diálogos de Platão . O “mais-um” deve colocar pontos de interrogação, o que supõe a recusa em vir a ser um senhor que faça o outro trabalhar, que se recusa a ser aquele que sabe, que se recusa a ser analista do cartel e no cartel.

Cinco reunidos propuseram um tema: estudar o Seminário 16 -De um Outro ao outro, de Lacan, numa leitura linear e colocando e debatendo as questões que surgiam. Proposta feita e aceita pelo “mais-um”, trabalho iniciado: semanalmente, duas horas de leitura e discussões. As questões e as buscas de solução foram surgindo, a ponto de os membros resolverem criar um site que abrigasse aquelas que restavam das duas horas semanais, embora as pesquisas e elaborações dos cartelizantes fossem lidas e discutidas nas reuniões. Trabalhos foram apresentados nas Jornadas de Cartéis da Seção São Paulo.

Passados dois anos dissolvido o Cartel sob protestos dos participantes que desejavam continuar. Como resto, parece haver permanecido o desejo de continuar a estudar a psicanálise em direção à escola.

Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri
Mais-um do Cartel: Seminário 16, De um Outro ao outro
São Paulo, 12 de julho de 2011.


Jacques, Lacan. Ato de Fundação. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

Jacques, Lacan. Proposição de 9 de outubro de 1967. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

  Jimenez, S. (org.), O Cartel: conceito e funcionamento na escola de Lacan. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1994.

 Um castigo terrível dado ao homem pela desobediência no Paraíso foi justamente o de “ganhar o pão com o suor de seu rosto”.

  Outros dos tantos efeitos provocados por Sócrates.

Carlos Eduardo de Almeida Leite, Maria Marta Rodrigues Ferreira, Lucimara Borghi A. Agamme, Priscilla Cheli Mendes, Anna Cláudia C. Fontes.

 

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