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ARTIGOS

06/06/2018 

Corpo Bizarro e o Estilhaço
Eixo temático: Rumo a uma nova clínica
Sub-eixo:
Corpos alterados pelo consumo das Imagens
Katia Ribeiro Nadeau

Fonte: http://www.bbc.com/news/magazine-32625632

Este paciente chega à psicanálise quando a angústia desde sempre presente se intensifica a ponto de trazê-lo de volta da Europa para se tratar no Brasil em 2008.
Se por um lado tem a satisfação de trabalhar em qualquer lugar do mundo, web design reconhecido, seu corpo responde com “bizarrices“ quando o desenlace o isola e faz ruptura no corpo.

Tem na pornografia web acesso a um gozo promíscuo, marcado pelo apelo ao “corpo grande“, malhado, bombado, tatuado, antídoto ao seu pênis pequeno e por vezes impotente. Compulsão sexual onde Goza da situação irresistível de corpos desconhecidos, na posição ativo percorre ruas escuras, becos , saunas , apartamentos. Não há conversa, ninguém fala, há sexo mudo exceto por alguns palavrões durante o ato, sexo a dois, três, quatro, mas evidenciando o gozo do UM. O acontecimento de corpo lacaniano é mudo, fala o corpo bizarro, isso goza onde não fala, isso goza onde não faz sentido. A promiscuidade pornográfica não é capaz de eliminar os efeitos de “a relação sexual não existe“, mas é o ponto fixo do gozo que responde a ela.

Traz em sua história um sobrenome conhecido e uma mãe modelo.
As “bizarrices” do corpo são sintomas que a medicina não consegue nomear ou tratar. Corpo que treme, que pisca, fascicula, angústia, dores, dormências. São acompanhados do medo de enlouquecer e morrer, real do corpo sem amarração onde se apoia nos recursos imaginários para velar o insuportável. Faz muitas cirurgias plásticas e tatuagens. Apresenta-se quase sem roupa, de havaianas, corpo a mostra, quer ser visto, olhado, desejado sexualmente. Como dizia Lacan (Sem. 11), “o olhar é sempre algum jogo de luz com a opacidade”. Sua imagem denuncia a bizarrice e precariedade do RSI num corpo mostração que não o representa.
Faz de seu lugar profissional um ponto de valor, sempre desejado pelas grandes marcas; ganha muito dinheiro e vê na independência uma segurança onde ao não precisar do Outro, faz uso.

Ao analista que pretende analisar o parlêtre, cabe sustentar o testemunho, e reduzir a devastação do gozo, um outro corpo presente que sustentará a suposição de um saber sobre o gozo particular. Gozo que se repete na pulsão de morte onde o que não foi simbolizado retorna no real: no caso, a morte da mãe e as relações identificatórias à beleza, loucura, morte. Não é a questão do desejo que está presente no parlêtre, onde por não estar representado no discurso, não consegue transmitir o que se passa com ele, então age com o corpo, passa ao ato ao não conseguir evitar o abandono do corpo próprio ao Outro corpo.

Pedaços de real e peça solta imaginária: carro do acidente fatal materno e o corpo estilhaçado que não se incluem nem irão se incluir no simbólico, se apresentam, e esses sintomas bizarros são tentativas de amarrar os três registros, que sem articulação colocam o gozo no comando imperativo da compulsão.


Fonte: http://www.bbc.com/news/magazine-32625632

Nos momentos de aparecimento da angústia e dos sintomas, o paciente fala: “é como se o meu corpo fosse feito de vidro”; “vai estilhaçar”; “fodeu”. As sensações experimentadas no corpo são de desintegração, corpo despedaçado, morte.
Em uma de suas estadias fora do Brasil, me liga dizendo que a solidão está insuportável e o medo da morte por HIV havia tomado seu corpo; pede uma sessão por skype. Digo que sim, sem a câmera ligada, aposto na voz e não no olhar como intervenção, o que produz um efeito organizador. Pergunta-me ao final da sessão se eu iria até lá em caso de vida ou morte; respondo que sim, não questiono o sentido, não interpreto. O pedido ouvido foi suficiente.

No vidro e nos espelhos temos a fragilidade, transparência em capturar e refletir a imagem, como signo do real do corpo sem sentido, entendimento ou saber, só o medo e a angustia dão pistas do corpo fragmentado e desenlaçado.
Três laços importantes: trabalho, casamento, analista e três desenlaces: vendeu sua agência, separou-se e saiu do Brasil. O gozo de construir uma vida e destruí-la em seguida, num eterno recomeçar.

O que pode juntar tanto estilhaço? Fixar o gozo, isolar o S1 para que um sintoma opere sua função de ponto de basta ao apoiar o gozo em um significante sem significação, mas vivo.

 

Bibliografia
Lacan , J. O seminário livro 20: mais ainda, Rio de Janeiro pp.9-23 , pp.160-186 , p.201
Lacan,J.O seminário livro 23 : Joyce , o sinthoma  pp.115-138
Miller, J.A Piezas Sueltas, B.A. Paidós 2013
Miller, J.A. Perspectivas dos Escritos e outros Escritos de Lacan: Entre desejo e Gozo, p.220 a 226, a inércia do imaginário.
La Sagna, Philippe, De I’isolement à solitude, La cause Freudienne 66

 

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