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Sérgio de Campos na CLIPP

Marizilda Paulino
EBP-SP/AMP

Nos dias 10 e 11 de março de 2017 tivemos o prazer de receber na CLIPP nosso colega da EBP/AMP, de Belo Horizonte, que nos apresentou suas investigações sobre Neurose Obsessiva e Obesidade, ambas transformadas em livros, Supereu-Uerepusdas origens aos seus destinos e Obesidade em jovens – A lógica psicanalítica do ganho de peso, publicados pela Escola Brasileira de Psicanálise, em 2015 e 2016, respectivamente.

Foram dois dias de intenso e produtivo aprendizado. Com seu jeito mineiro de ser, grande clareza e didática, Sérgio nos fez percorrer o caminho de seus estudos, nos fez pensar e, com isso, possibilitou um avanço nos temas abordados.

O livro “Supereu-Uerepus” será adotado pela CLIPP em seu curso de psicanálise, que neste semestre estuda o “O homem dos ratos”.  Basta percorrer o sumário do livro para termos uma ideia da contribuição ao estudo da neurose obsessiva e do supereu, sua origem em Freud, o supereu precoce de Melanie Klein, o  supereu em Lacan, o supereu feminino e, ainda, uma originalidade ao pedir para alguns AE contarem a respeito do destino do supereu no final de análise.

Ao falar sobre a neurose obsessiva, retomou detalhadamente a biografia do Homem dos ratos, cuja identidade foi trazida a público em 1986, após uma exaustiva pesquisa de Patrick Mahony. Ernest Lanzer (1878-1914) foi o segundo cliente de Freud a se submeter a um tratamento psicanalítico; teve início em outubro de 1907, sendo concluído em julho de 1909. Freud fez um relato pormenorizado de um caso de neurose obsessiva e da eficácia da psicanálise como método de tratamento, afirmando que “O tratamento que durou cerca de um ano, acarretou o restabelecimento completo da personalidade do paciente, bem como a extinção de suas inibições” (FREUD, [1909] 1990, p.159).

Na conferência sobre o Supereu e a Neurose Obsessiva, Atividade de Abertura da CLIPP deste semestre, logo de início Sérgio esboça sua tese de que “já naquela época, Freud tinha elementos suficientes no caso “O homem dos ratos”, para inferir a existência de uma instância que, somente em 1923, ele identificou e denominou de supereu.”

Sérgio assinala uma passagem que ilustra a sua afirmação: “o sujeito teme que seus pais conheçam seus pensamentos, porque, de acordo com Freud, “[...] ele os expressa em voz alta, sem, no entanto, escutar a si próprio fazê-lo” (FREUD, [1909] 1990, p.168).” Isso denota, afirma Sérgio, que houve a introjeção da autoridade paterna como supereu na medida em que o sujeito tinha a impressão de que seus pais escutavam seus pensamentos. Freud soube detectar as impressões vocais como condição para a presença do supereu, foi muito perspicaz e atento em sua escuta ao assinalar que “algo mais está presente”. A introjeção da autoridade paterna exerce o ato de censura e de repressão sob a modalidade do supereu.

Vemos, portanto, que a questão do pai é a pedra de toque na neurose obsessiva: o parricídio, o sentimento de culpa, a impossibilidade de ocupar o lugar do pai, o desejo como impossível de realizar.

No Curso Breve sobre a Obesidade, sábado pela manhã, Sérgio nos apresentou diversas passagens do livro originado na tese de doutorado em Medicina. A partir de sua experiência clínica com pacientes com sintomas de obesidade, realizou uma pesquisa em relação à aplicação terapêutica da psicanálise em casos de obesidade que, em sua maioria, são considerados como intratáveis, como bem assinala Jésus Santiago na Apresentação do livro.

Sérgio parte da pergunta: por que a Medicina falha em tratar a obesidade?
E responde que ela falha porque não leva em conta a subjetividade e a singularidade do ser falante. Sua investigação procura localizar os efeitos de linguagem, sob o viés significante, que possam intervir no corpo, acarretando modos de gozo que induzam a fixação da satisfação.

Sua proposta é a de que a psicanálise possa ser utilizada como um tratamento efetivo da obesidade, alertando, porém, que ela sozinha não será capaz de solucionar o problema. “É preciso que os médicos se familiarizem com esse procedimento para que a medicina e a psicanálise se tornem parceiras, e constituam propostas de compreensão do fenômeno e de terapêuticas viáveis para esses enfermos”.

Retomo, resumidamente, alguns aspectos do que concluiu em sua tese e que nos explicou detalhadamente no curso ministrado.

1. A alimentação é um tema complexo, diverso e que abrange aspectos culturais, econômicos, sociais, possui saberes religiosos, médicos, nutricionais e psicanalíticos, que se aplicam de maneira universal, particular, singular, necessário e contingente.
2. A psicanálise oferece um saber sobre as pulsões e os afetos que pode esclarecer os mecanismos da gula, apanágios da fixação oral como único e exclusivo modo de gozo, gozo autoerótico, que não compartilha o objeto com o Outro. A obesidade surge também como defesa da pulsão sexual, em virtude da fixação da pulsão oral.
3. Para Lacan, o falasser veio tomar o lugar do inconsciente freudiano, articulando de maneira indissociável o inconsciente e o corpo, mediante uma substância gozante. Na segunda clínica de Lacan, o inconsciente é o corpo e a clínica da obesidade demonstra isso. Temos a obesidade como um acontecimento de corpo, que se instala em curto espaço de tempo, depois de um episódio supostamente traumático, desprovido de sentido, mas que se revela a partir da construção da narrativa e da interpretação.
4. Pode-se constatar a presença de uma tétrade fundamental: frustração – angústia – gula – culpa e, novamente, frustração, fechando o circuito. Esse círculo vicioso constitui o mecanismo central da gênese da obesidade nos casos em que os impasses subjetivos constituem o cerne da questão.
5. A escuta analítica permite detectar: a) a angústia como objeto do vazio da existência, expressão de gozo no real do corpo, acarreta a perda da subjetividade; b) a reificação do alimento, pois a comida adquire propriedades terapêuticas de sanar, temporariamente, a angústia e a ansiedade; c) a obesidade como sintoma do romance familiar, a gula e os caprichos de sua demanda, a interferência impositiva do Outro materno e a presença da comida como objeto do real, que vem substituir a falta do Dom do amor; d) a ausência do dom do amor apaga a mãe simbólica e faz retornar a mãe real; e) o orgânico oferece a medida de quantidade em detrimento da operação simbólica do Nome do Pai, além do sentimento de que o corpo obeso é alheio ao sujeito, implicando-lhe certo desleixo; f) dificuldade de consentir com a perda e elaborar o luto. O falasser , evocando a angústia do ressecamento do seio, experimenta a angústia de separação com o receio de que a comida vá faltar; g) a forclusão transitória e localizada nos atos de gula; h) a obesidade como expressão do psíquico [...].


1- CAMPOS, S. Supereu-Uerepus: das origens aos seus destinos. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2015, p. 32-33

2 - CAMPOS, S. Obesidade em jovens: frustração, angústia, gula e culpa: A lógica psicanalítica do ganho de peso. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, p. 29

3 - Idem, p. 370-373


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