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CRACOLÂNDIA!!!!

Uma atitude conjunta da prefeitura e do governo estadual de São Paulo trouxe à pauta a discussão sobre adicção às drogas.

A adicção às drogas em uma circunstância: o abandono do sujeito a uma prática, a um ato resumido a qualquer ação que vise tão somente encontrar o artefato e viver a experiência. Experiência integral, pois inclui sensação de prazer, de horror, de linguagem não transmissível e de plenitude. De certeza de que nada mais é interessante, nada mais é necessário, nada mais é desejado. Basta o encontro e a vivência decorrente.  Esta é a condição geral do adicto. É a questão da adicção. A cena que causou discussão veio com um plus: tais sujeitos ocupavam certa área da cidade de São Paulo vivendo em condição deplorável e, segundo leituras que não escondem a inspiração higienista, carregando delitos de gravidade variável e ofendendo olhares e corações tão compassivos quanto horrorizados.  ‘Aonde pode chegar a condição humana nesta Cracolândia! Isso não é possível! Uma atitude deve ser tomada!’. Não é acaso epistêmico que abre essa semana em Kassel, Alemanha, a Documenta de arte, maior feira do planeta, apresentando obras que refletem ‘a paranoia e o medo’, segundo a manchete da ‘Folha Ilustrada’.

Enfim, uma atitude foi tomada. Bem na coalizão de três linhas lógicas: a médica, a compassiva e a policial. Ao gosto do discurso higienista: são doentes, apenas corações indiferentes não reconhecem que pedem ajuda e a força urge. A força urge por uma razão singela: ninguém abandona a experiência adicta sem a reação de um poder tão grande e poderoso quanto o poder da experiência adicta. Assim batalhões foram à ruas. Batalhões de policiais, de médicos, de políticos.
Desta atitude duas proposições surgiram.

Uma delas, a proposição que orientou a ação atual, parte de uma verdade ‘esses sujeitos não controlam seus atos’ e concluem que, dada essa condição, devem ser dominados e privados de sua liberdade de escolha. Como, a princípio, são doentes e não criminosos e, caso cometam delitos, são inimputáveis, a privação deve contar com o dispositivo médico. Em situações como tais, os médicos sugerem hospitalização. Então: hospitalizemos! Sem que o arbítrio do sujeito seja consultado dado que esse está suspenso. Se eles não escolhem nada além de drogar-se, escolheremos por eles.

A outra proposição ocupou o lugar da oposição. Se, acertadamente, criticam a sanha higienista, não deixam de obscurecer a evidência da condição monadária do sujeito abandonado à vivência adíctica. Estes propõe, então, que se no lugar do dispositivo médico e policial, a oferta for do dispositivo sociológico que o Estado não provê, isto é, trabalho, acesso ao dinheiro, à redescoberta do valor pessoal, apoio humanístico e garantir que a circunstância em que vivem seja menos miserável a desistência do fascínio adicto é um passo franqueado.

O ponto é que ambos faltam com a verdade.

Ambos estão preocupados em fazer valer suas crenças pessoais.
Seria muito injusto afirmar que não se preocupam com os seres que caminham para lá e para cá, aguardando a fissura e o encontro com o artefato.

Mas, não é injusto afirmar que os primeiros sabem muito bem que, não obstante, a profusão de métodos psicoterapêuticos estruturados e disciplinadores, a profusão de drogas que diminuem a excitabilidade neuronal, que dão um breque à ação compulsiva, que diminuem a fissura, o índice de recuperação com e sem tratamento exibe número semelhante. Sabem muito bem que grupos de mútua ajuda que não seguem os ditames da boa e atualizada ciência exibem índices razoavelmente bons de recuperação. Sabem muito bem que lapsos e recaídas são parte integrante do tratamento. Sabem muito bem que a definição atual de ‘dependência química’ parte do princípio que a condição é incurável, fundamentada em predisposição genética, e que os dependentes passarão a vida inteira acossados pela urgência a drogar-se. E, sobretudo, sabem que a anuência ao tratamento é condição necessária, se bem que distante de ser suficiente, para o sucesso do tratamento. O ‘sabem’, repetido insistentemente, não significa um saber universal com o qual todos concordam, mas significa que qualquer manual psiquiátrico, comportamental, cognitivo vai exibir com ares de ‘boa e atualizada ciência’ que é desse modo que a evolução da ‘doença’ segue o rumo. Propor hospitalização compulsória é, portanto, propor qualquer coisa menos chance de recuperação.

E também não é injusto afirmar que os opositores às medidas higienistas também sabem muito bem que a adicção às drogas não é produto da miséria social. Sabem muito bem que o cinturão de clínicas, em torno da Grande São Paulo, são suficientemente dispendiosas para serem sustentadas por miseráveis. Sabem muito bem que há um afastamento e desprezo dirigido ao Outro, ao simbólico, e um afastamento e desprezo ao outro, o semelhante opaco por não representar mais objeto contornável pela pulsão. Sabem muito bem que travesti-los de trabalhadores decididos é um semblante que nada diz do real.

Então, querido missivista, pergunta quem lê essa carta, deixe ao deus-dará?

Querido leitor: a vontade de responder ‘sim’ à sua pergunta é uma tentação. Mas, faltaria eu, dessa vez, com a verdade. A clínica da toxicomania é suficientemente múltipla para que não seja interessante uniformizar o adicto, assemelhá-los a um coletivo onde alguma singularidade não mais resista. Algo da estrutura do sujeito original ainda está lá, menos ou mais combalida. Psicótica, neurótica, perversa ou ordinária, mas está lá. Sob quilos e mais quilos de experiências integrais. Sob quilos e mais quilos de rechaço ao Outro e ao outro, mas lá está.
Assim, despido de crenças voltadas mais e mais para a demonstração de que sou o senhor da verdade, higiênica ou humanista, não recuo meu olhar e arranco meus olhos, não cedo diante do poder do adicto e recolho-me ao fracasso. Oferto. Demonstro que ali está alguém disposto a ouvi-lo, reconhece-lo e capaz de aguardar que alguma demanda, oriunda da estrutura que jaz abaixo da montanha adicta, seja pronunciada e faça-se ouvir!

Sem inventar semblantes que nada dizem sobre o real.

Durval Mazzei
Co-coordenador do Núcleo de Pesquisa ‘Toxicomania & Psicanálise’ – CLIPP, EBP-SP.

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