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A Fobia: uma porta à toxicomania

O objeto significante.

São dois os caminhos para elaborar a afirmação acima. O primeiro deles envolve o caráter significante do objeto causa de desejo. O segundo vincula-se à angústia.

Vamos ao primeiro deles.

Ele, o significante, pode tomar a forma de um objeto, ou de uma situação, repulsivo, aterrorizante e evitado a custos que o sujeito não mensura e não ultrapassa. Trata-se da face fóbica do objeto.

Ele, o significante, pode tomar a forma de um objeto com as marcas ao avesso do fóbico: a presença de certo traço é condição para o desfrute. É portanto, atraente, pacificador e procurado a custos que o sujeito não mensura e não tem a mínima intenção de ultrapassá-lo. Ao contrário, é buscado como algo próximo do necessário. Trata-se da face fetichista do objeto.

As duas configurações acima dividem características similares: ambos são súbitos e ambos são substituições simbólicas. São encontrados (ou reencontrados) no mundo, usualmente na adolescência, sem nenhuma história pragmática. A história desses objetos repousa no que há de inconsciente, de significante, na estúpida e inefável existência do sujeito. São objetos que ex-sistem e notavelmente singulares. O sujeito – no campo do olhar – conhece-os (ou reconhece-os) como ‘longe de mim!’ ou ‘fique comigo!’. Ferreti (1995) escreve que, desde Freud, a constituição desses objetos é simultânea e assimila o cavalo de Hans e a exuberância de sua natureza, com suas cores, ruídos e adornos como par dos objetos fetiches, sejam eles botas pretas, cabeleiras ou tatuagens ou o brilho no nariz.

Por mais que esses objetos desempenhem funções distintas na estrutura. O objeto fóbico localiza a angústia, retirando-a do resto da existência; o objeto fetichista dirige-se também à angústia, mas recusando a falta no Outro e garantindo um objeto no lugar da falta, como diz Lacan no Seminário IV.

A terceira alternativa não é súbita. Depende da pragmática, depende, então, de uma série de experiências. É um objeto que não se deduz do súbito, não  se deduz de uma marca inconsciente e não substitui outro significante. Após experiências cuidadosamente repetidas este objeto deixa a condição recreativa e passa a necessário. Mesmo quando o sujeito pode dedicar-se a brincadeiras no campo do prazer e da satisfação (sexo, esportes, artes), um objeto toma ares de um companheiro irredutível que, com o correr da história, vai cobrindo-se com um manto absoluto. Até não precisar contar mais com as brincadeiras e ocupar lugar solitário e imperioso. Trata-se da face toxicomaníaca do objeto (Nogueira Fo, 1999).

Essas configurações deduzem-se, notadamente as fóbica e fetichista, como esclarece Miller (1997), da elaboração que Lacan faz do narcisismo em Freud. Assim, a função do objeto está relacionada à pergunta que surge da teoria do narcisismo de Freud. O eu – o sujeito como eu – quer a si mesmo. Como ocorre que possa querer e desejar outro objeto que não ele mesmo? Lacan retoma este ponto nos anos 70 quando situa o dito objeto como condensador de gozo e, no período clássico, como causa do desejo. Como atraente de libido, condensador de gozo, causa de desejo, a pergunta é sempre a mesma: como ocorre que possa desejar outro objeto que não a si próprio?

A história dessa transformação é escrita desde a castração. Caso a castração não se resuma à historinha do risco que o garoto vive de ver retirado de si um pedacinho de carne bem divertido. E essa historinha, então, seja vista apenas como a versão que fascinou Freud, a versão freudiana do discurso sobre a falta. Assim, se tal trágica mutilação ocorrer, no lugar do pedacinho de carne bem divertido, haverá não mais que um furo, uma falta. Que, a partir de todas as evidências perceptivas, na verdade, já falta em outro corpo fundamental: o corpo da mãe!

Então, sacar que a castração é um jogo lógico que se passa entre a falta na mãe e o desejo de preenchimento desta falta pela mulher que pariu a criança. Obedecendo à máxima simbólica freudiana, esta criança surge como promessa: o filho, a filha, a criança substitui, em valor e sentido subjetivo, a ausência.

Portanto, entra nesse jogo uma figura imaginária: o falo. Este, por faltar à mulher e a criança descobrir que falta à mãe compõe a tríade onde o desejo é derramado. E derramado em torno da falta, do furo.  E os três termos – mãe, criança, falo – travam uma singela batalha em torno de qual termo preencherá o furo. A conclusão feliz resulta, para a criança, a concepção, então, “que pode não mais preencher de maneira nenhuma sua função, nada mais ser, não ser nada mais que este algo que parece ser alguma coisa, mais que ao mesmo tempo não é nada, e que se chama uma metonímia (Lacan, 1956/7 (1994), p. 251)”. Isto é, tornar-se um sujeito que assume um desejo.

Desta forma, a pergunta perene – por quê ir em busca de outro objeto que não si mesmo? – é respondida: o sujeito, o falesser é marcado por uma falta estrutural que a castração salienta. Não há outra saída que buscar algo para fora da mônada narcísica, fadada ao fracasso. Marca o cerne da sexualidade do sujeito falante pela falta. O objeto, desde essa perspectiva, por mais que pareça o elemento mais fundamental, decisivo e importante, é, como Freud insistiu na teorização sobre a pulsão e Lacan sublinhou, o elemento indiferente em relação à fonte, à força e ao alvo da pulsão. O objeto pode ser literalmente qualquer coisa. Do corpo do outro sexo a artefatos inanimados e Lacan nomeou-o objeto a. E ele é reconhecido como prazeroso ou aterrorizante desde a condição de significante, pois é desse modo – como significante – que o objeto entra na saga desejante. E, é dedutível de todo o arrazoado até aqui, que esse objeto vem substituir o falo, o termo lógico que completaria a tríade, vem, portanto, desempenhar uma função impossível se o esperado é a reconstituição de um estado narcísico sem falta, isto é, tornar possível o Real. Desse modo, o objeto como Real ‘não cessa de não se escrever’ arrematando o sujeito para um caminho sem fim.

Não obstante, há ainda o objeto situado como Simbólico e como Imaginário. Como Simbólico, ele conserva, como Lacan disse acima, o traço metonímico “que parece ser alguma coisa, mais que ao mesmo tempo não é nada, e que se chama uma metonímia (op cit)”. É o objeto que ‘cessa de não se escrever’.  A versão Imaginária do objeto visa, como “todos os efeitos pelos quais o organismo subsiste (Lacan, 1968/9 (2006), p. 287)”, a estabilização do objeto e, assim, ‘não cessa de se escrever’. Torna-se necessário.

Portanto, a existência do falo presentifica o complexo de castração e instaura esse núcleo fundamental que o articulará ao desejo e ao gozo fálico, portanto, à sexualidade. Em qualquer das modalidades acima: Real, Simbólica ou Imaginária.

A terceira alternativa, a face toxicomaníaca do objeto, como se relaciona à pragmática da experiência, pode vir a aninhar-se sobre qualquer uma das alternativas acima, como um plus de satisfação, competindo com os objetos fóbico e fetichista a ponto de, na sua forma completa, substitui-los como fonte exclusiva de prazer.

É desse modo que é possível concluir o que ocorre com o objeto na saída da castração. Se resta ao objeto a função de indicar a angústia e localizá-la, torna-se fóbico. Se oblitera a falta no Outro e a renega, torna-se fetichista. Se vem como um plus à satisfação, como resultado de experiências, torna-se toxicomaníaco.

A vertente da angústia.

Como está proposto no início desse escrito, são dois os modos de relacionar a fobia e a toxicomania, ou, os objetos fóbico e toxicomaníaco. O primeiro, discutido acima, relaciona-se ao significante. O segundo é a vertente da angústia. No Seminário XVI, Lacan diz: “é nele [no campo da angústia] que se revela a verdadeira função da fobia, que é substituir o objeto da angústia por um significante que causa medo, porque, frente ao enigma da angústia, a relação de perigo assinalada é tranquilizadora (Lacan, 1968/9 (2006), p. 297)”. Anos antes, no Seminário IV, Lacan formulara de modo muito similar. Diz : “objeto que é muito essencialmente constituído para manter esse medo à distância.

O objeto encerra o sujeito num certo círculo, uma fortaleza no interior da qual ele se põe ao abrigo desses medos. Está ligado à emissão de um sinal de alarme... [e corresponde a] uma sentinela avançada contra um medo instituído (Lacan 1956/7 (1994), p. 21)”. Obviamente, a proposição de Lacan implica no nexo entre o objeto e a angústia de castração. E Lacan arremata: “até então, a criança estava no interior da mãe e acaba de ser rejeitada dali, ou de se imaginar rejeitada, ela está na angústia e ei-la que, com ajuda da fobia, instaura uma nova ordem do interior e do exterior, uma série de limiares que estruturam o mundo (Lacan 1956/7 (1994), p. 252)”. Assim, deduz-se que a fobia é construída à frente do ponto de angústia.

Está aí um modo de formular a fobia como um modo mais confortável de viver o mal-estar que a vivência direta, real, sem sentido, da angústia. Nesse sentido, a fobia é a salvação da angústia avassaladora.

O mundo seria uma maravilha se, na existência singular, a fobia assegurasse, de fato, a tranquilidade. Não é exatamente desse modo que a fobia é vivida na subjetividade do sujeito. O sujeito fóbico percebe que fica atrás, pois além do objeto fóbico que o organiza, ele tem sua vida plena, se não impossível, marcada por obstáculos. Se é um jovem, inibe-se diante das garotas. Teme arriscar e seduzir. Se uma jovem inibe-se diante dos garotos. Teme a defloração, teme seduzir. As baladas são, portanto, lugares de angústia. A sala de aula, colegial ou universitária, acaba marcada também pela inibição, pela angústia e pelo olhar invejoso àqueles e àquelas que se saem bem. Que falam bem, que não tremem ao responder perguntas ou apresentar seminários. A angústia, portanto, continua escorrendo pelas beiradas do objeto ou da situação fóbica. E não podia ser de outro modo. O objeto reencontrado nunca é igual, biunívoco, ao objeto procurado. Seja no campo fóbico, seja no campo do desejo. Assim, o objeto fóbico não oblitera, não obtura, por completo o furo por onde jorra a angústia do mesmo modo que o objeto do desejo não cumpre a função esperada. Lacan diz: “este objeto é um objeto reencontrado, o objeto reencontrado do primeiro desmame, o objeto que foi o ponto de ligação das primeiras satisfações da criança... marca a redescoberta do signo de uma repetição impossível, já que este não é o mesmo objeto, não poderia sê-lo (Lacan, 1956/7 (1994), p. 13)”.
É nesse resto de angústia que o objeto toxicomaníaco entra em jogo.

Como é evidente, as drogas não fariam o sucesso que fazem se não produzissem algum bem. Alguma satisfação, algum curto-circuito na angústia, na fobia, no mal-estar. Se não desfizesse o casamento com o pipi, como Lacan expressou. Nem seria o grande antídoto ao mal-estar civilizatório, como Freud escreveu.

Se, portanto, não dessem um chega para lá no Outro e à condição metonímica do objeto. “Aí está a brisa, bateu”.

Ou, se o sujeito for o Baudelaire, “a alma aí toma um banho de preguiça, aromatizada pelo arrependimento e o desejo. É qualquer coisa de crepuscular, de azulado e de rosáceo; um sonho voluptuoso durante um eclipse. Comparada ao sonho em estado puro, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui tudo tem a clareza suficiente da harmonia e sua deliciosa obscuridade... [e] flutua nessa atmosfera onde o espírito, dormente, é embalado por sensações de estufa aquecida. Sobre o leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como veio parar aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico a instalou nesse trono de devaneio e de luxúria?

Mas o que importa? Está aqui e a reconheço! A que demônio bem intencionado devo essa atmosfera envolvente de mistério, de paz e de perfumes? Oh beatitude! Aquilo que costumamos chamar de vida, mesmo nos momentos mais felizes de expansão, não tem nada de comum com essa vida suprema que agora experimento e saboreio a cada minuto, a cada segundo!

Não! Que minutos, que segundos? O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade de delícias (Baudelaire, 1869 (2016), p. 21/2) Que horror! Agora lembro, lembro! Sim! Esse pardieiro, residência do tédio eterno, é bem o meu. Aí está a mobília vulgar, coberta de pó, lascada; a lareira sem chama e sem brasa, imunda de escarros: as melancólicas janelas em que a chuva cavou sulcos na poeira; os manuscritos, riscados ou incompletos; o calendário onde o lápis ressaltou as datas fatídicas. A sim! O Tempo está de volta, o Tempo reina agora soberano; e junto com o velho repugnante retornou o seu cortejo demoníaco de Lembranças, de Espasmos, de Medos, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras, de Neuroses (Baudelaire, 1869 (2016), p. 23/4) Nesse mundinho pequeno, mas farto de desgosto, só um objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano; velha e espantosa amiga; como todas as amigas, aliás! Fértil em carícias e traições (Baudelaire, 1869 (2016), p. 23)”.

Esses excertos do poema em prosa ‘O quarto duplo’ demonstram a tese exposta: o objeto droga, que se estabelece como tal em segunda ordem, isto é, após a experiência que, como a descrição do poeta francês sublinha, é vivida com todas as qualidades de uma vivência integral. E exibe esse poder sedutor derivado da possibilidade de suspender o tempo, as lembranças, os medos, as angústias e as neuroses!

Assim, nos restos da angústia que o objeto fóbico não oblitera é possível que o acaso da experiência venha introduzir em uma subjetividade singular a chance de driblar o mal-estar e abrir a porta à repetição de uma experiência que pode tornar um objeto recreativo em objeto de escravidão. Sinônimo do termo que o discurso terapêutico contemporâneo adotou: o objeto recreativo torna-se objeto de adicção! Como, aliás, não obstante a escassa importância desses dados ao discurso analítico, demonstram os estudos epidemiológicos que conectam o campo da angústia (fobias, pânico, estresse pós-traumático, ansiedade generalizada) ao campo da toxicomania.

Assim, a toxicomania, por mais que não possa ser caracterizada como uma estrutura, mas, sim, uma operação sobre a estrutura, entra no jogo entre o sujeito e o mundo por estas duas vertentes. Como um objeto que compete com os objetos fóbico e fetichista e toma, assim, uma face significante e como a promessa de uma resposta à angústia que o significante e o objeto não obliteram.

E a porta está aberta...

Bibliografia.
Baudelaire, C (1869 – 2016) O spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa. L&PM, Porto Alegre.
Ferreti, MCG (1995) O espaço imaginário da fobia. Em: “A Imagem Rainha. As formas do Imaginário nas estruturas clínicas e na prática psicanalítica”: organização Escola Brasileira de Psicanálise. Livraria Sette Letras, Rio de Janeiro.
Lacan, J (1956/7 – 1994) O Seminário, livro 4. A relação de objeto. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.
Lacan, J (1968/9 – 2006) O Seminário, livro 16. De um Outro ao outro. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.
Miller, J-A (1997) Objeto e castração. Em “Lacan Elucidado. Palestras no Brasil”. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.
Nogueira Filho, DM (1999) Toxicomanias. Editora Escuta, São Paulo.

Durval Mazzei, novembro 2017.

 

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