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Cem anos da publicação do homem dos lobos. O que ele ainda nos ensina?

Convidada: Carmen Silvia Cervelatti

Por Vera Lúcia Dias

Após um curto período de férias, a CLIPP retomou as atividades do seu curso de psicanálise, tendo como convidada para fazer a abertura dos trabalhos do semestre, a psicanalista Carmen Silvia Cervelatti. Ela apresentou algumas de suas elaborações a partir do caso clínico freudiano “Homem dos Lobos”, uma vez que este caso servirá de ferramenta para o desenvolvimento dos trabalhos deste ano.

O Homem dos Lobos
A psicanalista convidada lembrou, muito oportunamente, do fato de terem transcorrido exatamente 100 anos desde a data da publicação do texto de Freud, efetivada em 1918 sob o título “História de uma Neurose Infantil”. Em sua exposição, explicitou as diversas contribuições teóricas que este caso conferiu à psicanálise, de modo a tornar claras as razões que justificam estudar este caso clínico, centenário, ainda nos dias de hoje.

Carmen – que, à época de seu mestrado em 2002, elaborou um precioso percurso levantando muito do que já existia em termos de publicação a respeito do Homem dos Lobos, e que, desde então, tem produzido vários textos a respeito deste caso – disse que ele é um dos casos clínicos de Freud que mais tem despertado o interesse das comunidades psicanalíticas. Segundo ela, é grande o número de autores que fundamentaram seus trabalhos tendo por base este caso. Mas, salientou também que muitos destes escritos foram elaborados não somente a partir do relato clínico apresentado por Freud, mas também pela narrativa de outros psicanalistas que, após Freud, também analisaram o paciente em questão.

Especial relevância foi dada a um artigo de autoria da psicanalista Ruth Mack Brunswick, “Suplemento à história de uma neurose infantil de Freud”. De acordo com Carmen, este seria um texto que na subsequência do relato de Freud – e à luz da psicanálise lacaniana – tornou-se fundamental para a elucidação do caso e consequentemente para os indispensáveis avanços propostos pela clínica psicanalítica.

Nessa perspectiva, a psicanalista convidada assinalou também os efetivos esforços empreendidos pela comunidade psicanalítica de orientação lacaniana, no sentido de tentar elucidar a clínica dos casos considerados raros ou inclassificáveis. Casos dos quais o Homem dos Lobos tornou-se paradigma. Tais casos, por não serem passíveis de classificação por meio dos critérios clássicos de definição do diagnóstico psicanalítico, acabaram por ser situados em campo clínico tido como indefinido ou inclassificável. Tal característica enigmática fez com que estes casos se tornassem impulsionadores dos avanços clínicos e teóricos, visto que incitavam a necessidade da obtenção de uma classificação clínica para os mesmos.

Assim, foi por esse viés que Carmen colocou em evidência alguns dos pontos marcantes da história clínica do Homem dos Lobos.

O sonho e a cena primária
Um sonho com lobos, que o paciente teve quando criança, foi citado como sendo o ponto central do caso. Freud teria construído todos os desdobramentos da denominada neurose infantil de Sergei Constantinovich Pankejeff a partir desse sonho.

Trata-se de um sonho cuja rememoração se deu na fase adulta de Serguei, aos 23 anos de idade quando procurou Freud pela primeira vez. Entretanto, Freud teria assinalado a infância como sendo a época em que o sonho ocorrera. Mais precisamente aos quatro anos. Esse aspecto se tornou relevante na medida em que colocou em evidência a direção dada por Freud à análise do caso.

Diante do aparecimento de uma fobia de lobos logo após o sonho, e do surgimento de um ritual da neurose obsessiva, que permaneceu até aproximadamente os oito anos, Freud teria privilegiado a clínica das neuroses que, neste caso, seria uma neurose manifestada precocemente. Com isso, ele teria conduzido a análise de modo a pôr a ênfase no desenvolvimento da sexualidade infantil. Assim, buscou desvendar o sentido daquele sonho por meio do levantamento de outras recordações as quais poderiam dar uma significação para a figura dos lobos presente no sonho. Foi a partir da cena onírica que Freud levantou a construção de duas outras importantes cenas ocorridas antes do surgimento do sonho: a cena primária representada pelo instante em que Sergei vê um coito a tergo, dos pais; e a cena de sedução representada pela situação onde ele haveria sofrido um abuso sexual, praticado por sua irmã mais velha. Na descrição da cena primária, Freud teria traçado uma equivalência entre essa cena e a cena onírica, estabelecendo, nessa equivalência, uma correspondência entre a figura dos lobos encontrada no sonho e a imagem do pai presente na cena primária. A posição passiva foi marcada como sendo aquela na qual se situava o Homem dos Lobos. Freud asseverava que por vezes ele tentara mudar desta posição para a ativa, porém não perseverava.

Carmen sublinhou o fato de que, mesmo no texto de Freud, já havia indícios que levavam a conjecturar a possibilidade de um diagnóstico de psicose o que, entretanto, não foi pressuposto por Freud uma vez que, em momento algum, teria se manifestado sobre um possível tratamento psiquiátrico que o paciente se submetera antes de procurá-lo. Freud, só teria considerado a possibilidade de um diagnóstico de psicose para o Homem dos Lobos tempos depois, após a análise ter sido conduzida por Ruth Mack Brunswick e ela ter detectado o fenômeno de um desencadeamento psicótico.


Embora o Homem dos Lobos tenha se mantido por toda sua vida sob os cuidados de psicanalistas, recebendo inclusive recursos financeiros dos mesmos, ele se reestabeleceu do episódio de ruptura. De forma tal que passou a produzir e vender suas próprias pinturas, dentre elas, a imagem descrita em seu sonho.

Além disso, escreveu o relato de sua própria história, publicado sob o título “Memórias do Homem dos Lobos”.

A Psicose Ordinária
Segundo Carmen, essas controvérsias sobre o diagnóstico do Homem dos Lobos teriam perdurado por longos anos no âmbito das comunidades psicanalíticas. Na vertente lacaniana, isso só seria esclarecido por meio do conceito de psicose ordinária elaborado por Jacques-Alain Miller. Com esse novo conceito, Miller propõe uma ampliação da clínica diferencial das psicoses incluindo, nesta, as características apresentadas pelos casos que, antes, eram considerados como inclassificáveis.

Ampliando um pouco mais a discussão, Carmen fez um paralelo entre os critérios estabelecidos por Freud para caracterizar as neuroses e os que, na atualidade, foram – sob a égide do ensino de Lacan – propostos por Miller no texto “Efeito de retorno à psicose ordinária”. Do texto de Freud foram extraídas as seguintes características: existência de um conflito; desvio do interesse e das incumbências do cotidiano; existência de fantasias como satisfações substitutivas das ações que não são realizadas; tendência regressiva. Do texto de Miller, os índices destacados foram: uma relação com o Nome-do-Pai e não  com um Nome do Pai; provas da existência do menos phi (-φ), da relação com a castração, com a impotência e a impossibilidade; diferenciação nítida entre o Eu e o Isso, entre os significantes e as pulsões; um supereu claramente traçado. Assim fica marcado que ao não se encontrar indicativos das neuroses, considerar-se-ia estar no campo das psicoses.

Várias elaborações foram apresentadas a partir deste paralelo ficando demonstrado que havia, sim, no texto de Freud, índices importantes que apontavam para uma psicose. Entretanto, eram índices que se situavam mais no nível da estrutura, enquanto que, no nível dos fenômenos, estes se mantinham mais ligados às neuroses. Lembrando que durante o período da análise com Freud não foi registrado nenhum episódio de desencadeamento.
Chama a atenção o modo como foi abordado, por Freud, o mecanismo do recalque. Na elaboração de uma diferenciação entre o mecanismo do recalque e o da rejeição, ele teria afirmado que ao mesmo tempo em que o Homem dos Lobos aceitava a castração, ele também a rejeitava; e que havia ainda uma terceira via, considerada como mais antiga e mais profunda: a de que nem sequer teria levantado a realidade da castração. Freud teria indicado uma indefinição clínica e com isso deixado em aberto a possibilidade de um diagnóstico de psicose. Seria, certamente, uma psicose com características diferenciadas daquelas até então conhecidas.

Muito das elaborações que Lacan fez no texto “De uma questão preliminar a todo tratamento possível das psicoses”, bem como das formulações que Miller desenvolveu em seu seminário “A clínica diferencial das psicoses”, também foram articuladas por Carmen. Outros trabalhos elaborados a partir do seminário apresentado por Miller também foram mencionados, entre eles o da psicanalista Agnès Aflalo, “Reavaliação do caso do Homem dos Lobos”.

Assim, tivemos a oportunidade de perceber, nesta abertura dos trabalhos do segundo semestre de 2018, do Curso de Psicanálise da CLIPP, que muitos foram e continuam sendo os esforços feitos pelos psicanalistas no sentido de tentar manter a psicanálise atualizada. Fica inclusive registrado, aqui, que, o mais recente texto elaborado por Carmen Silvia Cervellati a respeito deste caso clínico, encontra-se publicado na última edição da Carta de São Paulo sob o título de “Da transferência fez-se um nome”.

Bibliografia
AFLALO, A. “Reavaliação do caso do homem dos lobos”. In: Entrevários: Revista de psicanálise, São Paulo: Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade, 2010; nº 5.
BRUNSWICK, R. M. “Suplemento a la “Historia de una neurosis infantil” de Freud (1928). In: GARDINER, M. El hombre de los lobos por el hombre de los lobos. Buenos Aires: Nueva Vision, 2002.
CERVELATTI, C. S. “Um percurso nas publicações do homem dos lobos”. Mestrado em comunicação e semiótica, Biblioteca PUC, São Paulo, 2002.
CERVELATTI, C. S. “Da transferência fez-se um nome” In: Carta de São Paulo. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise. Ano 25, nº 1, Junho, 2018.
FREUD, S. História de uma neurose infantil (1918 [1914]), In: História de uma neurose infantil: (“O homem dos lobos”) (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, J (1998a). “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”.In: Lacan J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
MILLER, J. A. (1988). “O homem dos lobos”(1ª. Parte).In Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise (n. 56/57, pp. 9-54) 2010, São Paulo: Eolia.
MILLER, J.A. (1988). “O homem dos lobos (2ª. Parte). In Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise (n. 59, pp 9-63). 2011, São Paulo: Eolia.
MILLER, J. A. “Efeito do retorno à psicose ordinária”. In: A psicose ordinária: a convenção de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.


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