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A Presença Real e a Fugacidade do Corpo

por Catherine Lacaze-Paule 

Durante o isolamento, sentimos corpos ausentes, à distância. Tivemos provas de que os conceitos de proximidade, de distância e de fronteira entre mim e o outro são insuficientes para dar conta da presença. O perto, o longe, o distanciamento social, a indefinição [blurring] – um termo em inglês para designar a ausência de uma fronteira entre o pessoal e o profissional, FOMO (fear of missing out) 1, medo de estar perdendo algo nas redes sociais, ou FOGO (fear of going out), medo de pôr o pé para fora de casa, o que parece ser um tom da agorafobia, são os novos sintagmas que testemunham um novo mal-estar relacionado com a presença e os efeitos das relações com o outro, com o fora de casa, com a vizinhança, com o íntimo e com o êxtimo.

Para atenuar a ausência, o digital se impôs, se inseriu muito intensamente em nossas vidas. Em consequência, dois neologismos passaram a fazer parte da linguagem comum para circunscrever esse efeito: presencial 2 e distancial. Com a tecnologia digital, tivemos acesso à possibilidade de nos vermos, sem sermos presenciais, “nos ouvirmos”, estando conectados, nos aproximarmos, mas distanciais. Cada vez que o objeto a é tocado, “ver” se impõe em detrimento do olhar, e a imagem especular se torna o reflexo de si mesmo. A ausência do corpo não mais enganchado, não mais dando lastro ou suporte à fala, perdeu-se, esvaziou-se de sentido e gozo, e em troca, os efeitos de “cansaço”, “corpos esgotados”, até mesmo “fadiga”, por sua vez, são sentidos. Nossos encontros se digitalizam. Nossos encontros se virtualizam. Fomos afetados pela presença?

Sem a presença dos corpos, sem o embate dos corpos, a presença se torna mais enigmática, mas necessária. Será sempre assim? Quais são as condições para um encontro ser real, para uma presença ser sentida, vivida? Como ocorre a sensação da presença?

As sessões analíticas não escaparam a esse fenômeno, o que atesta o quanto a análise é indissociável de uma certa relação com os corpos em presença. O que a ausência de corpos revelou é o corpo que se esvai. Lacan evoca a fugacidade [fuyance]3 do corpo no seminário sobre a transferência. Apreendamos o equívoco da fuga [fuite], dos corpos ausentes e do corpo que foge [fuit], para questionar o que é a presença real. É aquilo que é feito “de carne e osso”?

A expressão da presença real 4 aparece pela primeira vez no seminário sobre transferência e em várias ocasiões, notadamente como título de capítulo. Frequentemente, é por meio de sua negatividade, de sua negação, que essa noção é apreendida. Aqui, é na forma de insulto. O insulto tem a presença real que Lacan localiza na clínica de uma neurose obsessiva feminina. Seu sintoma consiste em ver (sem ter a ver com fenômenos alucinatórios) os órgãos genitais masculinos no lugar da hóstia (pão da comunhão). Esse insulto à sacralidade do dogma religioso católico é um insulto à Eucaristia. Lacan o leva a evocar a noção de presença real. Segundo São Tomás de Aquino, a presença real é substância. Designa não algo visível ao olho corporal, mas a realidade inteligível de um ser. A presença real nomeia o corpo de Cristo. Não é perceptível por nenhum dos sentidos, nem pela imaginação, mesmo quando o vinho e o pão (a hóstia) dão forma imaginária para vestir essa substância. Lacan usa esse termo para dar conta da função do grande Phi, a função do falo, isso que simboliza ausência e presença e que ele designa como presença real. O grande Phi simboliza o significado e seu além, o intervalo entre dois significantes, como presença vazia, como não-relação entre dois significantes (S1 // S2). “Pois o signo a ser dado [pelo psicanalista] é o signo da falta de significante.5

Em cada intervalo, a questão do desejo do Outro se abre para o sujeito e faz um sinal de desejo, mas nada que seja significativo. É por isso que o obsessivo se dedica a evitar esse intervalo entre dois significantes cada vez que ele se apresenta a ele. Assim, no tratamento, a função que o falo simbólico ocupa em seu lugar “é que não é simplesmente um signo e um significante, mas a presença do desejo. É a presença real [do desejo].” 6

O falo, para além de sua representação do órgão, para além de qualquer representação ou significação possíveis, tem um estatuto de signo. Mas esse signo é uma presença real que o analista, em seu desejo e em seu corpo, pode encarnar em carne e osso.

Os objetos a estão alojados no analista, ele os encarna.

Distingamos, com o ensino de Jacques-Alain Miller, o início do tratamento, o momento em que a idealização é apenas a máscara do objeto a, é a etapa da revelação, depois a etapa da repetição, é a análise que dura. E finalmente o terceiro estágio, o da estagnação, o da gaiola do sinthoma, sua inércia. Aquela de gozo muito real. De acordo com cada momento, os objetos da demanda e do desejo são enfatizados, acentuados, marcados ou, ao contrário, reduzidos a zero, subtraídos pelo analista. O manuseio do objeto é o que estabelece o furo real na linguagem, é o que o simboliza e encobre sua falta em várias formas. Quer o olhar seja apoiado ou desviado, aqui o corpo do sujeito é antes de mais nada o do narcisismo reduzido à imagem. Ou seja, na idealização da verdade, da fala e do sentido, o analista encarna o Outro como lugar dos significantes e da verdade, mas também pelo seu silêncio indica a presença do gozo. Seu silêncio, ou ruído, é o que convoca o objeto voz. A voz não é sonora, não é a voz da vocalização, mas a voz que surge cada vez que o significante interrompe o que não pode ser dito, o que é indizível. É a voz, como aquela que tomba, aquela que cai do corpo, quando o sentido se perde e foge. A palavra, por estar sem o eco produzido pelo silêncio do analista, é esvaziada de sentido e gozo.

Da mesma forma, o corpo do sujeito, como suporte da presença fálica, ou colocado no divã como uma casca, confronta o corpo vivo do analista, para além do que é, do que existe. A presença real do corpo do analista como suporte é também aquela que convoca o presente do dizer. “O dizer do presente [le dire du présent] não é o presente do dizer [le présent du dire]” 7 – Lacan faz essa distinção em seu seminário As formações do inconsciente. E especifica que não se trata de um simples jogo de palavras, mas da realidade [actualité] do presente que permite identificar a realidade do falante no nível da mensagem, enquanto o presente do dizer abre o espaço da metonímia, do que pode ser ouvido. Acrescentemos: o que se lê do que se diz, o que se goza de dizer. Quando o psicanalista é presença, ele é ao mesmo tempo suporte velado de um desejoQue vuoi? – e um suporte de gozo, por intermédio do objeto a na presença.

Pois quando o desejo do analista se torna o suporte de uma presença real como impossível, ele também pode encarnar, interpretar um acontecimento de gozo singular. Se o significante não é tudo, a presença real ligada ao desejo do analista é o índice do real do gozo do corpo. Com a presença real, Lacan nos coloca no caminho da sessão analítica como objeto topológico, um real produzido não pelo impossível, mas pelo nó, o manuseio do nó.

Traduzido por José Wilson R. Braga Jr.
Originalmente publicado em francês. Disponível no link https://www.lacan-universite.fr/wp-content/uploads/2020/09/ironik-42-Habeas-corpus.pdf
 Texto publicado em inglês na Lacanian Review Online em 11/10/2020 no link abaixo https://www.thelacanianreviews.com/the-real-presence-and-slipperiness-of-the-body/

 


1 Veja “Confinement and the FOMO, fear of missing out on social networks”, disponível online www.nova.fr .
2 Este adjetivo qualifica uma maneira de funcionar em uma situação real, na atualidade e sem intermediário ou intermediário da mídia. Ao contrário de “virtual” e “remoto”. Normalmente usado em um ambiente profissional. Online: www.linternaute.fr .
3 Lacan J., O seminário, livro 8 : a transferência, 1960-1961. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; [versão brasileira de Dulce Duque Estrada; revisão de Romildo do Rêgo Barros]. – 2.ed. -Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p.287
4 Ibid., p. 301.
5 Ibid., p. 289.
6 Ibid., p. 306.
7 Lacan J., O seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958).  Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; [tradução de Vera Ribeiro; revisão de Marcus André Vieira].- Rio de Janeiro: Zahar, 1999., p. 65. “Trata-se da oposição do que chamarei de dizer do presente [le dire du présent] ao presente do dizer [le présent du dire]. Isso tem jeito de jogo de palavras, mas não o é de modo algum.”