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Arte#COVID19: um elemento líquido?

por Françoise Stark-Mornington

De tirar o fôlego!

No momento do desconfinamento na França, surge a questão do lugar da arte em nossa pós-modernidade. Desde o isolamento [lockdown] sanitário, galerias, museus estão fechados, festivais e shows estão cancelados. Os artistas um-a-um são privados dos estímulos dos corpos principalmente na presença de um olhar humanizado sobre sua obra de arte.

Diante desse evento tão traumático, os profissionais do mundo da cultura [1] estão na origem de uma onda de solidariedade.
Juntos, museus e galerias oferecem passeios virtuais, competindo com inovações.

Um novo nó com o real.

O isolamento [lockdown] sanitário teve o efeito de suspender as manifestações artísticas na cidade. Todos são convidados a criar com o novo, na época do “distanciamento social”.
Como tal, o Museu Nelson-Atkins [2] convidou os pinguins de Humboldt do zoológico ao lado, para ver como eles estavam reagindo à arte.

Tate Britain [3], em parceria com o Facebook, ofereceu aos seus visitantes “The Virtual Wing” [A ala virtual], uma experiência de arte em realidade ampliada. Oito obras foram transformadas usando a plataforma de rede social Spark AR.
Essas propostas levaram o espectador para além do senso convencional sobre a fenomenologia do olhar. Em outras palavras, chamaram sua atenção tanto para o olhar do animal, ou seja, para um olhar sem intenção, como para uma imagem digital efêmera.

Do ponto de vista de Jacques-Alain Miller, [4] a máquina está invadindo o mundo e o reconfigura com seus instrumentos e tecnologia que constituem a essência do discurso da ciência. Como tal, o objeto olhar é privado de sua relação com o Outro. Inspirado no episódio da lata de sardinha brilhando ao sol relatado por Lacan, [5] eu diria que essas obras de arte parecem perguntar ao espectador: “Você vê? Bem, ele não pode te ver!”.

A introdução da tela e a digitalização do olhar são a etapa final da dissecação da visão, reduzida a uma própria imagem. [6]

Um elemento líquido
Usando o conceito de valorização do líquido [liquidity], Z. Bauman [7] explora como a arte pode se posicionar em um mundo onde o fugaz é o paradigma dominante.

Lacan lembra, no discurso de Milão, que o discurso do capitalista gera um circuito onde a ausência de limite ao gozo acentua o desaparecimento da metáfora por acentuar a metonímia. Em outras palavras, em uma sociedade cada vez menos sólida, a fluidificação do gozo privilegia o discurso metonímico. A dimensão eliminada da perda como referência simbólica gera uma relação efêmera com o objeto errático como ilusões de ótica.

A arte de “abstração ampliada” está passando por uma nova dimensão. Por exemplo, a experiência artística da The Tate Britain propõe aos espectadores, por meio de uma plataforma digital, que as obras ganhem vida no museu.
Acontece que, se o visível é ampliado, ao mesmo tempo, a ascensão do olhar é sem-véu, além disso, o dizível é confiscado. Usando os registros de Lacan – o simbólico, o imaginário e o real – o nó é real.

Em conclusão
Onde o Outro foi invadido pelo significante S1 [Covid19], a arte digital veio ocultar o furo.

A fim de manter o mercado de arte e a lógica do discurso capitalista, uma mudança ocorreu. Imagens baseadas em dados que são usadas em toda a indústria para treinar a visão de máquina que parecia um paralelo natural com os humanos; na verdade, os algoritmos são treinados para ver o mundo em nosso nome, não passando pelo Outro.

Traduzido por J. Wilson R. Braga Jr.


[1]http://tribew.fr/lesamisdesartistes
[2] https://youtu.be/C6buz-qJsNG
[3]http://www.club-innovation-culture.fr/facebook-exposition-realite-augmentee-tate-britain/
[4] Jacques Alain Miller, L’Orientation Lacanienne III [6], lesson of 2 January 2004, unpublished.
[5] Jacques Lacan, Seminar XI, the Four Fundamental Consepts of Psychoanalysis, Penguin, 1979, p. 95. [translation modified].
[6] Freud’s use: das Ding.
[7] Zygmunt Bauman, (2000) Liquid Modernity (English Edition).

Texto publicado na Lacanian Review Online em 05/06/2020 no link abaixo
https://www.thelacanianreviews.com/artcovid19-a-liquid-element/