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As Mãos de Freud*

por Paula Hochman

Elaboração do ensaio de Jeannne Wolff Bernstein,

A gripe espanhola, Covid-19 e Sigmund Freud –

O que podemos aprender com a história?” *

Existe o real do vírus, um elemento que é ao mesmo tempo perigoso e abstrato, sua natureza é algo desconhecido, intraduzível. Mas reconhecer isso é já ter começado a superar essa abstração. Dar um nome às coisas as organiza em uma forma reconhecível, um mundo palpável em que o sujeito é capaz de fazer cálculos.

Estes são os instrumentos sóbrios da linguagem, o suporte do sujeito: a sobriedade, a eficácia na modéstia. A destruição corporal e o desdém pela metáfora são ineficazes e grosseiros.

Por exemplo, a guerra é uma metáfora precisa que designa a incapacidade de coexistência: apenas uma ou outra pode permanecer. É o pior destino do laço social. E não há guerra entre os animais ou entre as estrelas. Se um animal devora o outro, não está no papel de guerreiro. Não há pertinência em aplicar a metáfora da guerra em relação ao vírus que se tornou uma pandemia em nossos dias.

Porque nem tudo o que ameaça nossa integridade física está “em guerra” contra nós. Um vulcão em erupção não é uma declaração de guerra por parte da natureza. Isso costumava irritar Spinoza, em sua Ética denunciando o “finalismo”. [1]

O vírus pode ser um elemento exterior ao discurso, mas a forma como respondemos à essa interferência está certamente dentro da nossa esfera de responsabilidade.

O trauma e o real são ambos definidos pela impossibilidade de tradução. Freud definiu o trauma como o excesso intraduzível e a definição de Lacan do real é baseada na “tradução impossível” – aquilo que não pode ser escrito. Estabelecer o que é impossível é sempre fundamental para o sujeito. Delinear o impossível de traduzir mobiliza os recursos da linguagem – invenção, retórica, criatividade do atalho e metáfora – dos quais o sujeito emerge como efeito.

Em ética, isso é chamado de “o reconhecimento” [acknowledgement], um significante que vem da Poética de Aristóteles: sua ἀναγνώρισιςanagnorisis – e que Freud se refere como a aceitação da tragédia. Não é um ato de submissão, pois o reconhecimento da verdade sempre cria efeitos subjetivos.

Em 25 de janeiro de 1920, a filha de Freud, a esplêndida Sophie, morreu de gripe espanhola. A dignidade de Freud ao enfrentar esse sofrimento é encorajadora, mesmo um século depois. Mas o sofrimento é admissível quando aceitamos a tragédia. É a forma como Freud formula sua ética: “a tragédia, afinal, tem que ser aceita”. Ele enfrentou uma catástrofe inesperada e encontrou sua tradução no discurso: se algo é trágico, deve ser aceito. Portanto, ele não foi destruído pela morte de sua filha da maneira que ele foi pela morte de seu neto. Parece que, para ele, sobreviver ao próprio neto não poderia ser considerado uma tragédia, mas uma atrocidade.

Freud escreveu que sobreviveu à filha. Ele se colocou no lugar do sobrevivente com toda a carga de culpa e desconforto amargo que alguém está sob aquela personagem. Mas escrevê-lo e formulá-lo no discurso não é um gesto de um sobrevivente, mas um gesto heroico.

Ao dar testemunho de sua terrível perda, sua posição muda, ele não é mais alguém que sobrevive, mas alguém que assume um compromisso trágico; não em relação à morte em si, mas em relação ao seu reconhecimento [acknowledgement]. Freud deixa isso explícito em sua ética: reconhecer a tragédia. E essa mesma aceitação é em si mesma trágica, o gesto de reconhecer a perda definitiva de um amor absoluto. Todo amor é absoluto e, portanto, todo luto é absoluto. Uma praga não substitui outra praga, como uma morte não substitui outra morte. Um novo amor segue outro amor sem substituí-lo. Todo luto é absoluto. Cada criança, cada neto/neta.

Na ética que Lacan ensina, o desejo é algo que passa pela autorização de nosso próprio sujeito e de alguns outros em nossas vidas. Quando um desses “outros” desaparece, a vida se torna mais difícil. Freud tentou lidar com a ‘sobrevivência à sua filha’, mas foi sobrepujado pelo ultrajante fato de ter que ‘sobreviver ao neto’. Ele viveu mais dezesseis anos, durante os quais sua mão continuou escrevendo, para nós, até o fim de seus dias, mas a outra não se moveu novamente, tornou-se um túmulo para sempre.

 


Traduzido por J Wilson R. Braga Jr.

* https://archiv.freud-museum.at/en/news/the-spanish-flu-covid-19-and-sigmund-freud.html

1 Ética, B.de Spinoza, Primeira Parte, Apêndice, o “preconceito transformou-se, assim, em superstição” que “a natureza nada faz em vão” e “Ao lado de tantas coisas agradáveis da natureza, devem ter encontrado não poucas que são desagradáveis, como as tempestades, os terremotos, as doenças, etc. Argumentaram, por isso, que essas coisas ocorriam por causa da cólera dos deuses diante das ofensas que lhes tinham sido feitas pelos homens, ou diante das faltas cometidas nos cultos divinos”. Acesso pelo link https://www.armazem3bruxas.com.br/images/ebooks/Etica.pdf

Texto publicado na Lacanian Review Online em 27/09/2020 no link abaixo

https://www.thelacanianreviews.com/the-hands-of-freud/