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por Maro Bellou 

“Só o amor permite o gozo condescender ao desejo.” [1] No entanto, em um universo de consumo sexual, onde o mercado do sexo é particularmente amplo e pode ser acessado de várias maneiras, o parceiro amoroso ganha um novo status. Junto com a disseminação da fantasia pronta [ready-made], a relação do sujeito com o gozo também muda. Nesse contexto, o parceiro não é mais alguém a quem confio minha miséria; ele/ela é apenas aquele que me deixa excitado.

Quando eu desejo, entrego-me a outra pessoa, mas não sei por que faço isso. O parceiro do meu desejo entra no meu mundo como um outro e esse outro é sempre na forma de uma diferença que me aproxima de mim mesmo. Por outro lado, quando me entrego ao prazer, rendo-me à excitação do meu corpo. Graças às conquistas tecnológicas da ciência, porém, sou capaz de contornar a participação de um parceiro real e experimentar o prazer corporal sozinho, apenas por estar conectado aos circuitos autísticos do gozo, ou seja, de gadgets que vão de brinquedos a próteses sexuais.

No entanto, o uso de um gadget não se limita a isso. Além de ser um acessório que é anexado ao corpo com o objetivo de dar prazer, o gadget se torna a base material para meu desligamento radical do espaço. É o meio que me permite aceder à zona de “intimidade virtual”. Na “intimidade virtual” estou presente, mas sem meu corpo estar lá; tudo o que eu preciso é estar “conectado”. Uma vantagem crucial desse tipo de contato é que sempre posso clicar em “excluir” [delete]. Nos relacionamentos virtuais, ao contrário dos reais, entrar e sair é uma coisa fácil.

Qual é o status do meu parceiro, então, quando sua presença real foi eliminada? Um caminho diferente se desdobra diante de mim, um caminho que leva ao gozo autista do Um. Mas se meu corpo não é mais o ponto de encontro com o outro, quem encontro quando estou namorando meu desejo sexual? Porque, para que o prazer sexual seja alcançado; a generosidade sensorial das fantasias é necessária.

Estamos ali, não necessariamente para conversar ou para nos conhecermos ou para nos encontrarmos, mas simplesmente para excitarmos um ao outro. A presença do meu parceiro está sendo filtrada por uma fantasia pronta [ready-made] que funciona como uma super-droga hiperestimulante. Nesse contexto, a prática erótica flerta cada vez mais com a perversão. Qualquer pessoa é adequada ou pelo menos ninguém está excluído. Assim, os outros clonados [cloned others], limitam-se a assumir a função de estimulante, enquanto eu, eu mesmo entre eles, tendo a tornar-me mais um parceiro insignificante e sem nome. O parceiro é transmutado em um gadget-parceiro. Eu me acostumo com a ideia de que essa conexão particular vem com uma data de validade e cumpre o destino de um resto.

A presença de um gadget-parceiro não se limita apenas à zona de intimidade virtual, mas se estende até o ponto em que os corpos se cruzam como meros objetos. No entanto, estimular minha imaginação para conseguir a excitação sensorial do corpo durante meu encontro com o outro é totalmente diferente de acionar uma fantasia pronta [ready-made] como pré-condição para um caso de amor. Em vez de ser pego pelo feitiço de Eros, acabei encontrando Eros-gadget.

A disseminação do Eros-gadget no mundo moderno fica evidente pela maneira como as pessoas terminam um relacionamento. Eu envio um e-mail ou uma mensagem de texto e elimino a presença do meu parceiro da minha vida simplesmente pressionando um botão. Essa exclusão evita totalmente a troca verbal. Há uma indiferença que mergulha meu parceiro em um anonimato nebuloso. É o mesmo anonimato nebuloso em que me encontro quando recebo um e-mail ou SMS que me elimina da vida do outro por meio de uma separação acelerada [fast-track]. Basta que apenas uma parte do relacionamento se torne o parceiro-gadget para transmutar o relacionamento apaixonado em Eros-gadget. Se o outro realmente existisse, por outro lado, bastaria a cada um de nós apenas falar com o outro e apenas sobre o outro, apenas isso e nada mais, impelido para além do princípio da fantasia.

 

Traduzido por José Wilson R. Braga Jr.

* Bellou, M., The gadget-Eros: Love in the time of technology. Athens, I. Sideris Pub., 2017. A palavra composta “Eros-gadget” do título contém a palavra “Eros” que em grego significa amor e também a palavra hétero(s) que nesta ocasião significa “o Outro”.
[1] Lacan, J., Seminar X, Anxiety, Polity, Cambridge, 2014, p. 179.
Texto publicado na Lacanian Review Online em 03/10/2018 no link abaixo
https://www.thelacanianreviews.com/the-gadget-eros/