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O Navio e o Cisne

por Gustavo Dessal

 Freud estudou os três grandes motivos que causam mal-estar nos seres humanos: a ação da natureza, o seu próprio corpo e o relacionamento com os outros. Hoje é urgente atualizar o primeiro, porque a noção de natureza mudou substancialmente.

A natureza, como reino da vida material que vai desde a partícula subatômica mais elementar até as galáxias mais distantes, não é mais uma totalidade da qual fazemos parte, mas se tornou algo que não existe sem nós porque estamos imersos nela.

Em todos os lugares, deixamos um rastro de nossa passagem. Quer mergulhemos nas profundezas do oceano ou subamos aos picos mais altos das montanhas, estaremos lá. Não vemos mais a natureza, só podemos ver os rastros que deixamos nela. Intervimos de tal maneira que, mesmo em sua forma de nos atacar, sempre encontramos a marca humana.

O rastro humano está por toda parte na atual pandemia. Esta é talvez uma das razões pelas quais tantos delírios paranoicos sobre a fabricação intencional do vírus estão sendo disseminados.

Mas esquecemos de outras catástrofes, erroneamente chamadas de “naturais”. O equívoco do nome não é inócuo, pois condiciona nossa maneira de perceber – mal – as coisas. Não existem catástrofes naturais, da mesma forma que a natureza não existe. Isso deixa o destino em nossas mãos.

A grande farsa do negacionismo consiste em nos fazer acreditar, por exemplo, que a mudança climática é um ciclo natural, como foi a extinção dos dinossauros. A partir do momento em que o homem deixou a primeira pegada na terra – e essa pegada sempre assume a forma de dejetos, lixo, excrementos, que são nossos avatares – não podemos mais falar em ciclos naturais, causas naturais ou acontecimentos naturais. A natureza é um mito antropológico promovido pelo Romantismo para combater a expansão da racionalidade científica.

Não há retorno a uma era da natureza, porque a natureza sempre foi expulsa de si mesma pelo homem. Mesmo se existisse tal era, nenhum ser humano poderia comprová-la. Só existem catástrofes humanas, mesmo que se manifestem como tsunamis, terremotos ou furacões.

A reconstrução do que aconteceu em Louisiana com o Katrina (furacão) em 2005 mostra claramente a magnitude de uma tragédia nada natural, uma calamidade ocorrida seguindo os rumos traçados pela história, em que o papel principal desempenhado pelo legado da escravidão e do racismo pode ser visto em retrospecto.

Desastres naturais não existem. Apenas catástrofes humanas, históricas, que também ocorrem com a ajuda de água, do fogo e do tremor da terra. “Não se esqueça de cantar a maravilha, o navio e o cisne em minha baía”, escreveu Walt Whitman em “O ano dos Meteoros, 1859-60”.

O cisne não é sem o navio. Ambos vivem juntos no poema. Os destinos do cisne e do navio estão unidos. Eles não podem ser salvos separadamente.

 

Traduzido por José Wilson Ramos Braga Jr.
 
Texto publicado na Lacanian Review Online em 16/09/2020 no link abaixo
https://www.thelacanianreviews.com/the-ship-and-the-swan/