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O Tempo da Época e o Tempo de uma Análise

por Jorge Assef

Ao longo de seus seminários brasileiros publicados sob o título de “A Erótica do Tempo”, Jacques-Alain Miller, referindo-se ao ditado de La Rochefoucauld sobre a impossibilidade de encarar a morte, afirma: “Poderíamos dizer que há um Horror Temporis.” [1]

Após o declínio do Nome do Pai, e confrontado com o império do discurso capitalista e a consequente ascensão do objeto a ao zênite social, podemos ver como nossa época vive no frenesi de aproveitar ao máximo seu tempo. O empuxo ao gozo, juntamente com o imperativo de que “Tempo é dinheiro” – sendo assim não o desperdice – moldaram a versão hipermoderna do “Horror Temporis” contemporâneo, isto é, o horror de perder tempo que se traduz em um estado contínuo de urgência subjetiva.

A outra face desse fenômeno é que aqueles que não sabem como entrar nesse ritmo ficam à margem, em algum tipo de suspensão do tempo ou em um longo estado de apatia ou incerteza. Como esse fenômeno aparece na clínica hoje em dia?

Um modo típico tem a ver com ‘ter pressa’: os pacientes perguntam sobre a duração do tratamento já na sua primeira entrevista, dizem que não têm tempo para vir com frequência, ficam aborrecidos se houver atrasos na sala de espera etc. Outra modalidade é um tipo de indiferença manifestada na dúvida que alguns pacientes manifestam sobre comparecer à sessão toda semana, usando como justificativa o argumento de que não há nada tão importante acontecendo em suas vidas, que eles não saberiam sobre o que falar, por exemplo.

O que essas duas formas expressam é uma fuga daquilo que Lacan situava como o tempo lógico entre o instante de ver e o momento de concluir. Lacan chama esse espaço em branco, onde não há certezas (boas ou más), nem conclusões e nem respostas, o tempo para compreender. Tem a ver com um lapso necessário, um lapso em que algo pode vir a existir, algo pode ser afrouxado, algo pode ser construído, pode amadurecer, romper ou surgir.

Para que esse “tempo para compreender” adquira sua potência, precisamos protegê-lo contra a tirania da indiferença como tempo perdido e contra a aceleração da hiperatividade – algo que, por si só, vai na contramão da nossa época e seus imperativos. Ele instala a experiência analítica como uma pausa inédita na celeridade generalizada do nosso estilo de vida.

Há uma observação frequentemente repetida da entrevista de Lacan na rádio belga publicada como um texto chamado “Radiofonia”, onde, referindo-se a Sócrates, ele afirma: “Como nós, ele sabia que, no ente, precisa tempo para fazer-se ao ser” [2]. Lacan diz que esse tempo, que é um tempo lógico, precisa ser respeitado e apoiado não apenas pelo paciente, mas também pelo analista. É por isso que ele acrescenta: “O ‘precisa de tempo’ [faut du temps], ele – ou seja, o analista – o suporta por tempo suficiente para que não seja preciso, àquele que vem se dizer, mais do que…” [3]

E, precisamente, quando Lacan dá sua entrevista para a revista italiana Panorama, ele afirma: “Meus livros são chamados de incompreensíveis. Mas para quem? Não os escrevi para todos, pensando que qualquer um poderia entendê-los. (…) Para mim, basta ter uma audiência que leia meu trabalho. Se eles não entenderem, bem, vamos ser pacientes. (…) Também estou convencido de que dentro de dez anos, no máximo, as pessoas que leem meu trabalho o acharão totalmente transparente (…).” [4]

Ele não diz que seu trabalho se tornará transparente, como se ele fosse um homem à frente de seu tempo; ele diz que aqueles que lerem seu trabalho, dentro de um prazo máximo de dez anos, o acharão transparente, o que significa que ele também inclui o tempo no ato de ler. A formação do psicanalista, portanto, também requer tempo para a compreender.

De fato, quando um analista adquire a habilidade de lidar com o tempo na direção do tratamento (o que inclui suportar o tempo necessário para “chegar a ser”) é um efeito de sua formação, e a formação também é uma questão de tempo.

Vemos, assim, que o tempo de apoio, um tempo que não tem limites forçados, sem prazos, sem certezas, o tempo do “Tempo para Compreender“, faz parte da materialidade da sessão analítica. É por isso que Lacan diz: “(…) um discurso não é um evento punctiforme (…) Um discurso não é apenas uma matéria, uma textura, mas requer tempo, tem uma dimensão no tempo, uma espessura. Não podemos contentar-nos, em absoluto, com um presente instantâneo (…) [5]

Portanto, é graças a esse “Tempo para Compreender” que os “Instantes de Ver” podem aparecer [irrupt], como o salto do leão do qual Freud fala, bem como os “Momentos de Concluir” como precipitações que muitas vezes pegam o sujeito de surpresa.

A experiência analítica oscila entre essas duas zonas [6]:

  • A série, frequência, continuidade e regularidade: para que aqueles acontecimentos da vida que deixaram uma marca no sujeito (e que fixaram um certo modo de gozo) sejam revelados. Então os efeitos da verdade podem ser recolhidos [7] e organizados como saber.

  • O corte, pulo, surpresa, o ato, a irrupção.

É entre esses dois registros de tempo que se abre espaço para que algo aconteça que levará ao fim da análise.

Enquanto isso, nossa prática não se detém em estabelecer prazos ou metas de acordo com um cronograma, um período cronológico ou horários fixos. Não se trata de quanto tempo uma análise leva ou quanto tempo dura uma sessão, mas dos efeitos que são produzidos nela.

Diz-se que uma vez um jornalista perguntou a Jackson Pollock como ele sabia quando uma de suas pinturas por gotejamento foi concluída. Sua resposta foi: “E como você sabe quando termina de fazer amor?”.

O tempo do ato analítico é um tempo que quebra todos os relógios, porque opera no nível da experiência subjetiva do tempo. É por isso que Miller afirma: “(…)Ora, em termos precisos, considero a sessão lacaniana como um lapso de tempo com um suplemento de infinito. (…) De outra forma, o problema da duração da sessão é insolúvel: ela sempre será demasiado curta ou longa demais. (…) Ora, não fazemos sessões curtas, mas sim sessões infinitas.” [8]

Traduzido por J Wilson R. Braga Jr.

[1] Miller, J-A (2000). “A Erótica do Tempo. P. 25. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise. http://lacanempdf.blogspot.com/2017/03/a-erotica-do-tempo-jacques-alain-miller.html
[2] Lacan, J. (2001) “Radiofonia” in Outros Escritos. pg. 425. Rio de Janeiro: Zahar.
[3] Lacan, J. (2001) “Radiofonia” in Outros Escritos. pg. 426. Rio de Janeiro: Zahar.
[4] Lacan, J. (1974 [2012]) Entrevista concedida a Emilio Granzotto à Revista italiana Panorama. Publicada por Magazine Littéraire, Paris, n.428, fev/2004. Disponível em: https://subversos.com.br/textos-ensaios-e-entrevistas-entrevista-inedita-de-jacques-lacan-a-revista-italiana-panorama-1974/
[5] Lacan, J. (1957 –1958 [1999]) O seminário, livro 5: as formações do inconsciente pg. 17. Rio de Janeiro: Zahar.
[6] Brousse, M-H. (2019) Disponível em: https://www.facebook.com/watch/?v=299986064184879/
[7] Córdoba, C. (2019). Disponível em: https://www.facebook.com/CIECSeminarioInternacional/photos/a.790997284294532/2145609028833344/
[8] Miller, J-A (2000). “A Erótica do Tempo. P. 38-39. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise. http://lacanempdf.blogspot.com/2017/03/a-erotica-do-tempo-jacques-alain-miller.html
Texto publicado na Lacanian Review Online em 27/04/2019 no link abaixo
https://www.thelacanianreviews.com/the-time-of-the-era-and-the-time-of-an-analysis/