Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (Clipp/EBP/AMP)
… os poetas, que não sabem o que dizem, como é bem sabido, sempre dizem, no entanto, as coisas antes dos outros (LACAN, 1985 [1954-1955], p. 14).
A caracterização da vida psíquica humana é, de fato, o autêntico domínio do escritor. Ele sempre foi um precursor da ciência e, portanto, também da psicologia científica (FREUD, 2025 [1907], p. 61).
Numa teoria em que o determinismo mental aparece de modo acentuado, como falar em “criação”, no sentido do novo, do genuíno brotando no universo humano? Essa questão, na obra de Freud, surge pelo fato de ele trabalhar o psiquismo de forma finalista, considerando uma provável harmonia no desenvolvimento da sexualidade em direção à genitalidade.
“Criação”, não como inspiração advinda do além, mas como o aproveitamento das forças pulsionais, seria uma saída outra que a “sublimação”, pois esta parece aproximar-se mais de um sintoma, de uma formação reativa necessária, ao aproveitamento das pulsões desviadas para os processos civilizatórios (FREUD, 2016 p. 80.); “criação”, o novo e genuíno brotando no universo humano, parece escapar à utilidade exigida por tal processo.
O processo de criação parece atuar como um mecanismo perverso, no sentido em que não haveria por parte do criador, a recepção passiva do campo simbólico no qual se insere – campo este já constituído – havendo tanto mais criação quanto maior for sua liberdade em relação ao simbólico.
Freud, ao falar em criação, volta-se para a pessoa do criador – criação é da ordem do absoluto singular. Em obras de extensão diversa, ele analisa criadores, permitindo localizar pontos comuns: eles transformam suas fantasias em obras que impressionam e liberam os sentimentos dos demais; o material é o mesmo dos sonhos, delírios e fantasias; há uma busca de realização dos desejos insatisfeitos, que os criadores transformam tornando-os irreconhecíveis; as obras permitem a análise dos materiais utilizados e da personalidade do criador (até onde se torna possível uma análise in absentia), mas não do mistério da criação. O criador lança mão de materiais que estão no mundo exterior para suas criações, e assim, apesar dele mesmo, passa a ser fator de crescimento para a humanidade, enquanto que o sublimador é apenas fator de, digamos, estabilização.
No texto O Escritor e a Fantasia (FREUD, 2015 [1908]), enfocando a criação sem referência à sublimação, Freud coloca que, brincadeiras infantis, sonhos noturnos, sonhos diurnos ou fantasias, criação literária, são analisados do ponto de vista da realização de desejos. Os jogos ou brincadeiras infantis e as criações literárias diferenciam-se dos sonhos e fantasias, apenas por se concretizarem no mundo exterior. Ou seja, o material usado é o mesmo: desejos insatisfeitos em busca de realização.
Analisando diferentes criadores e suas obras, Freud afirma que o poeta precede o psicanalista, trabalha com suas fantasias, sonhos e delírios, ilustra seus próprios mecanismos inconscientes em seus personagens. Entre tais criadores Wilhelm Jensen (1837-1911), autor de “Gradiva”, inspirou Freud em um dos seus mais belos escritos sobre criação e criador.
No texto, Freud analisa os delírios e os sonhos do personagem principal, afirmando que os poetas apenas repetem processos que conhecem neles mesmos, os quais disfarçam e transformam em motivo de deleite para outros, expressando com suas obras, os mecanismos psíquicos que ele tenta explicar através da psicanálise. Escritores “como o nosso Wilhelm Jensen costumam abandonar-se ao impulso da própria fantasia, no singelo prazer de criar” (Freud, op. cit, p. 120)
O enredo de Gradiva – uma fantasia pompeiana (JENSEN, 1987 [1903]) gira em torno de uma viagem estimulada por um sonho, permeada por fantasias, elementos oníricos e delirantes; a presença de sonhos nas obras dos escritores confirmam que pensamentos e afetos prosseguem durante o sono, buscando “retratar os estados de alma de seus heróis mediante os sonhos que eles têm” (FREUD, 2015 [1907], p. 16).
Através do método analítico, além dos sonhos, delírios e fantasias do personagem, Freud vai além, passando pelo recalque, sexualidade, Witz, transferência, significantes. Ou seja, expõe a teoria psicanalítica desenvolvida até a data de seu escrito (1907).
O autor, Jensen, chama delírio ao estado de Norbert (personagem principal), e Freud propõe os traços de um delírio, na diferença com outros distúrbios:
Primeiro, ele pertence ao grupo de estados mórbidos em que não há efeito direto sobre o corpo, que se manifestam apenas por indícios psíquicos; segundo, é caracterizado pelo fato de que nele “fantasias” alcançaram predomínio, isto é, conquistaram a crença e adquiriram influência sobre os atos (FREUD, 2015 [1907], p. 62).
Ele afirma ainda que as fantasias são precursoras do delírio, sendo que sonho e delírio provêm da mesma fonte, do reprimido: “o sonho é, por assim dizer, o delírio fisiológico da pessoa normal” (FREUD, 2015 [1907], p. 83).
Freud observa ainda que o intelecto aceita coisas absurdas, quando impulsos emocionais encontram alguma satisfação, sendo espantoso que até mesmo pessoas muito inteligentes, acabam por reagir como “débeis mentais” (FREUD, 2015 [1907], p. 92). O que ocorre é que a crença no delírio está no fato de haver neste algo de verdadeiro, pois nos conteúdos inconscientes, o verdadeiro se acha unido ao falso – o que traz convicção.
Todos nós ligamos nossa convicção a conteúdos de pensamento em que o verdadeiro se acha unido ao falso, e fazemos com que ela se estenda daquele para esse (FREUD, 2015 [1907], p. 104).
Com a análise dessa obra, Freud afirma que o estudo feito por Jensen em seu romance, oferece um “estudo psiquiátrico” correto, o que permitiu a ele (Freud) retomar e enfatizar teorias fundamentais da psicanálise.

