Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (CLIPP/EBP/AMP)
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Na conferência Joyce, o Sintoma, Lacan diz: “Deixemos o sintoma no que ele é: um evento corporal”[1]. Evento corporal, acontecimento de corpo, remete ao encontro acidental entre o corpo vivo e lalíngua; o sintoma enquanto acontecimento de corpo é produto do efeito de lalíngua. Como diz Laurent, o acontecimento é o que ocorre “numa dimensão de surpresa ou contingência, antes que se possa estabelecer os sentidos desses encontros”[2].

Etimologicamente, “acontecimento” deriva do verbo “acontecer” – oriundo do latim vulgar ad-contingĕre, que significa “tocar, acontecer, ocorrer”. O sufixo “mento” indica ação ou efeito, o acontecimento é contingente, tem a dimensão do imprevisto.

A linguagem é definida por Lacan como “elucubração de saber sobre lalíngua”[3] – lalíngua inaugura o acontecimento traumático que deixa traços no corpo, traços de gozo, fora de sentido.

Com ou sem pai (como Joyce), lalíngua instala o enigma do gozo, e Joyce inventou um modo diferente, com a literatura, para estabilização dos três registros (Real. Simbólico, Imaginário), o quarto nó, a que Lacan passou a chamar Sinthoma.

O gozo opaco do Sinthoma é concebido como acontecimento de corpo – o corpo goza sozinho, diferente do sintoma de início de análise, no qual o sujeito acredita e que erige o Sujeito suposto Saber. Essa crença cai no decurso de uma análise; passa do saber que se decifra, ao saber que se goza, fora de sentido.


[1] Lacan, J. Joyce o Sintoma. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.565.
[2] Laurent, Éric. L’Envers de la Biopolitique. França: Navarin éditeur, 2016.
[3] Lacan, J. O Seminário livro 20 – Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 1985, p.190.