Niraldo de Oliveira Santos (CLIPP/EBP/AMP)
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Na psiquiatria contemporânea, especialmente nos manuais como o DSM-5 e a CID-11, “inclassificável” designa, de modo pragmático, casos clínicos que não satisfazem plenamente os critérios diagnósticos estabelecidos, apresentam quadros híbridos ou atípicos ou evoluem de forma instável, escapando às categorias fixas. Nessa direção, um caso inclassificável aponta para um déficit provisório da nosografia, para um limite do sistema classificatório. Em consonância com a “medicina baseada em evidências”, um caso inclassificável deve ser absorvido em uma categoria com o avanço das pesquisas. Enquanto isso não se dá, eles são provisoriamente inseridos em categorias como “transtorno não especificado”, que funcionam como zonas de acomodação do que escapa.

Na psicanálise – sobretudo a partir de Jacques Lacan e seus comentadores, como Jacques-Alain Miller – os “casos inclassificáveis” adquirem outro estatuto. A clínica estrutural clássica organiza-se em três estruturas: neurose, psicose e perversão, levando-se em conta a presença ou ausência do Nome-do-Pai e da significação fálica. Porém, a clínica psicanalítica contemporânea tem se deparado com casos que, a princípio, parecem não se deixar situar claramente em nenhuma dessas estruturas, ou cuja posição estrutural se mostra equívoca ou opaca, sobretudo a partir do declínio do Nome-do-Pai em consequência de fatores civilizatórios.

Deste modo, entre 1996 e 1999 houve, na França, uma série de Conversações[1] promovidas pelas Seções Clínicas do Campo Freudiano objetivando discutir casos considerados raros ou inclassificáveis. Nestes eventos constatou-se que os casos, antes considerados raros e inclassificáveis, não são nada raros nos dias atuais e, em sua grande maioria, apresentam – a partir de uma clínica continuísta que leva em conta “uma desordem na junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito”[2] – indícios que admitem o diagnóstico de uma psicose discreta, sem rupturas ou desencadeamentos clássicos. Tal constatação permitiu a Jacques-Alain Miller propor a nomeação de Psicose Ordinária e a expor três externalidades[3]: social, corporal e subjetiva, como índices de verificação dessa desordem na junção mais íntima do sentimento de vida, bem como suas formas de suplência e estabilização. Esta nomeação leva em conta a singularidade dos modos de gozo e o tratamento no caso a caso, como propõe a ética da psicanálise.


[1] BATISTA, MCD; LAIA, S. (org). A psicose ordinária. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.
[2] LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1957-1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1998, p.565.
[3] MILLER, J-A. Efeito de retorno à psicose ordinária. In: BATISTA, MCD; LAIA, S. (org). A psicose ordinária. Belo Horizonte: Scriptum, 2012, pp. 399-418.