Leny Magalhães Mrech (CLIPP/EBP/AMP)
leny.mrech@gmail.com
Um dos conceitos mais intrigantes e importantes trazidos por Jacques-Alain Miller é o de iteração. Geralmente, ele se contrapõe ao conceito de repetição (Wiederholung) em Freud – este diz respeito ao automatismo da repetição nos casos de neurose, em que o Outro aparece como figura estratégica, bem como apresentando também o mecanismo de recalque.
Para Lacan o conceito de repetição está ligado à falta, ao objeto perdido, acompanhando o pensamento de Freud. Trata-se daquele objeto que nunca é encontrado, mas reencontrado de outra forma.
No Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise[1], vemos Lacan especificar as operações de constituição do sujeito através da Tiquê como o encontro faltoso com o real e o Automaton, aquele em que a cadeia de significantes retorna. E, em ambos os casos, o objeto procurado se apresenta para sempre perdido, retornando de uma forma substitutiva.
Por sua vez, o conceito de iteração trazido por Jacques-Alain Miller é direcionado para a lalíngua e o Um sozinho. Nesse caso estamos frente a quadros de autismo e psicose, em que há algo que itera naquilo que o paciente traz. Essa iteração pode ser concebida como o retorno do mesmo. É a insistência do Um que se repete idêntico a si mesmo.
Na iteração não há a falta constitutiva, mas o Um que reitera. A diferença é que o Um está ligado ao gozo autista, a um gozo do corpo que não passa pelo Outro.
Trata-se de uma lógica específica – a lógica do Um sozinho sem o S2. Não há deslocamento para um outro significante. Há a insistência do gozo autístico do corpo, o que leva este a circuitar, se fechando em si mesmo.
