Fernanda de França Lorenção (CLIPP)
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Um recorte sobre sua formação pessoal

Nascida em 1895, em Viena, e a caçula de seis filhos de Martha Bernays e Sigmund Freud, Anna Freud foi a única filha a seguir os passos do pai ao se interessar pela psicanálise desde muito jovem. Sua constituição pessoal e profissional passou por caminhos singulares, possibilitando uma trajetória que resultou em uma obra que, até hoje, ocupa um lugar de destaque na história da psicanálise.

A começar por seu nascimento que ocorre no mesmo período em que Freud inicia, a partir de seus trabalhos com as histéricas, o desenvolvimento dos conceitos, da estrutura e do funcionamento do inconsciente. O berço de Anna situa-se, portanto, no momento em que seu pai se afirma como fundador da psicanálise e em que as produções psicanalíticas vienenses começam a emergir.

Forma-se professora em Viena e atua no ensino primário. Paralelamente às suas experiências com crianças no contexto educacional, por já ter contato com as produções psicanalíticas, especialmente as de seu pai, desenvolve um interesse claro pelo desenvolvimento psíquico infantil. Então, sua formação psicanalítica ocorre, naturalmente, no círculo social de Freud, passando a integrar a Sociedade Psicanalítica de Viena, como membro, em 1922. Período mais intenso de produção de sua trajetória[1].

Outro fator decisivo em sua trajetória foi a ascensão do nazismo e a anexação da Áustria pelo Anschluss, que colocou sua família em risco direto. Visto que, Anna chegou inclusive, a ser interrogada pela Gestapo, levando Freud a decidir pelo exílio familiar em Londres.

Com sua chegada à Inglaterra em 1938, em um contexto dramático, agravado pela grave doença de seu pai, que viria a falecer em 1939, Anna acaba por redirecionar significativamente seu foco, dado que passou a ter contato com crianças afetadas pela guerra, e ao mesmo tempo, assumiu uma posição ainda mais central como guardiã do legado de Freud[2]. Esses fatos levaram à uma expansão clínica e institucional e uma consolidação internacional de sua obra.

 

Um recorte sobre sua produção profissional

A obra de Anna Freud ocupa um lugar de relevância considerável na história da psicanálise, pois, ao mesmo tempo em que dá continuidade ao legado de Sigmund Freud, promove um deslocamento teórico de grande repercussão no campo, que estimulará e ampliará o debate psicanalítico mundial.

Suas produções foram intensamente contrariadas pelas escolas inglesa e francesa de psicanálise, fazendo com que Anna Freud talvez seja uma das psicanalistas pós-freudianas mais contestadas até os dias atuais, tendo Melanie Klein e Jacques Lacan como importantes nomes, que farão uso de sua produção para construir uma crítica contundente aos seus principais objetos de estudo. Ainda assim, sua contribuição é amplamente aceita, em especial, pela psicanálise americana que através dos estudos do Eu e seus estudos sobre desenvolvimento psíquico infantil, influenciou sua atuação até os dias atuais.

Em uma de suas principais obras, O Ego e os Mecanismos de Defesa (1936)[3], Anna Freud evidencia sua produção autoral a partir da reorientação da teoria freudiana ao atribuir ao Eu um papel central na organização dos mecanismos de defesa, concebendo-o como uma instância capaz de estruturar formas próprias de regulação psíquica (mecanismos de defesa) diante de exigências pulsionais e conflitos insuportáveis, o que lhe confere certa autonomia. Essa proposição reorganiza a ênfase freudiana, tradicionalmente centrada na dinâmica do inconsciente, ao deslocar o foco para o funcionamento do ego, ainda que sem abandonar sua centralidade teórica.

É justamente esse deslocamento que será alvo da crítica de Jacques Lacan, especialmente em seus seminários iniciais, como o Seminário II — O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise[4], no qual o autor posiciona o Eu como uma construção imaginária, em oposição à ideia de uma instância racional e autônoma.

Outro ponto sensível, mas central em sua obra, é a clínica com crianças, que trouxe divergências importantes para a psicanálise inglesa. Anna Freud propõe uma nova leitura do tratamento psicanalítico infantil ao considerar que o Eu da criança ainda está em desenvolvimento, diferentemente do Eu adulto. A partir dessa constatação, ela introduz adaptações técnicas à prática analítica, valorizando a observação direta do comportamento e o olhar para o ambiente familiar. Diferentemente do modelo clássico baseado na associação livre, a análise infantil exige, portanto, uma escuta que leve em conta as condições concretas de constituição da criança[5].

Essa perspectiva inaugura uma tradição clínica que se mantém viva, ainda que profundamente reformulada. Melanie Klein por exemplo, contesta a noção de desenvolvimento infantil do Eu, aponta para a associação livre como possível no atendimento clínico a partir do brincar e questiona o peso dado por Anna para a realidade externa na constituição psíquica da criança, já na orientação lacaniana, a ênfase também recai menos sobre o desenvolvimento do eu e mais sobre a posição da criança no campo do desejo do Outro; ainda assim, o olhar clínico introduzido por Anna Freud sobre como escutar e tratar uma criança, permanece.

Considerando 1922, ano de sua entrada na Sociedade Psicanalítica de Viena, como o início de sua vida profissional, e 1982, ano de sua morte, como seu término, Anna Freud contribuiu por cerca de 60 anos para a psicanálise. Trata-se, de uma trajetória marcada por efeitos inegáveis na difusão, no pensar e no fazer psicanalítico, que permanecem até a atualidade.

 


[1] YOUNG-BRUEHL, Elisabeth. Anna Freud: A Biography. New Haven: Yale University Press, 1988.
[2] Ibid.
[3] FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Tradução de B. C. Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
[4] LACAN, J. O Seminário. Livro II: O eu na teoria de Freud e na técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 4ª. ed., 1954-55/1985.
[5] FONTONI, Marcos Roberto; FULGENCIO, Leopoldo. Anna Freud: uma desenvolvimentista quase esquecida. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte, n. 53, p. 129–142, 2020. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/ep/n53/n53a15.pdf. Acesso em: 30 abr. 2026.