João Paulo Desconci (Clipp)

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Esta bela edição da Hades evidencia a exuberância do texto freudiano em relação à arte. Em O Moisés de Michelangelo de 1914, por exemplo, apesar de se apresentar como leigo no assunto, Freud conta que as obras de arte exerciam um forte efeito sobre ele, especialmente as obras literárias e as esculturas. No entanto, acrescenta que não se trata apenas de uma apreensão puramente intelectual, mas produzida a disposição afetiva, esse efeito se remeteria à constelação psíquica que gerou no artista o impulso para a criação.

Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (CLIPP/EBP/AMP) – com A “Gradiva” de Jensen de Freud, de 1915, discorre sobre a criação a partir do aproveitamento das pulsões desviadas para fins civilizatórios, mais além da utilidade exigida pelo processo da sublimação. O romance conta a história de um jovem arqueólogo alemão, Norbert Hanhold, que fica fascinado pela imagem de uma jovem mulher esculpida – o que desencadeia um sonho angustiante, e através de um longo e complexo processo, a ligação entre a Gradiva e um amor de sua infância se revela.

Assim, esse primeiro artigo já anuncia o seguinte, escrito por Carmen Silvia Cervelatti (CLIPP/EBP/AMP) sobre o texto freudiano O escritor e a fantasia, de 1908. Bernadette, ao aprofundar sua leitura, retoma o que Jensen chama delírio – referido ao estado de Norbert (personagem principal), e o que Freud propõe como traços de um delírio, na diferença com outros distúrbios. Aproveito para indicar  aqui que, mais adiante, Andres Santos Jr. nos esclarecerá a diferença entre o delírio clínico e o poético, com seu texto sobre o Quixote.

Carmen vai em direção à poesia. Ao retomar a expressão de Miller sobre o fantasma como “máquina de transformar gozo em prazer”, aproxima-se da interpretação à la Borromeu, retomando o que Lacan chamou de manipulação interpretativa, em seu último ensino – outra coisa que o efeito de sentido, portanto. A autora insiste: “como se dá esse esvaziamento pelo efeito de furo?” E quem nos responde é Lacan: “As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer” (LACAN, 2007, p.18). Então Manoel de Barros é invocado a nos ensinar sobre essas pré-coisas de poesia.

Olenice Amorim Gonçalves (Clipp), ao tratar do Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci de Freud, 1910, nos ajuda a explorar o mistério da criação – a partir da oscilação extrema na relação de da Vinci com a arte. Este é um artigo que evidencia a genialidade de Leonardo, bem como a de Freud, que tece acerca de Leonardo predicados os mais elevados – considerando-o um gênio em todos os aspectos. Destarte, Freud compôs esse trabalho, contando com o relato de biógrafos, com escritos, pesquisas, esboços, quadros, pinturas e desenhos, de várias áreas de interesse. Em especial, Freud esmiuçou uma lembrança dos primeiros anos de vida do inventor, que considerou ser uma fantasia das origens da homossexualidade. Desde aí foi que a fantasia tomou valor central na psicanálise, articulada com as pulsões.

Por fim, Andres Santos Jr. (Psiquiatra, Psicanalista) nos apresenta Quixote: O delírio poético X o delírio clínico, aula apresentada em nossa confraternização – especialmente escolhida para nos deliciarmos com arte, conversa e boa comida! A Clipp, para comemorar o encerramento do semestre, reuniu-se na Sala Beatriz Segall do PSICADEIRO, onde se apresentou o comovente, íntimo (e exclusivo para a Clipp) espetáculo – QUIXOTE: A VOZ DO SONHO, com a presença marcante do barítono Johnny França e do pianista Leandro Roverso que, juntos, fizeram o acompanhamento à narração de Andres.

Espero com isso despertar o desejo de leitura, uma vez que este número está sensacional! Aproveitem.

 

Referências bibliográficas:
LACAN, J. (2007) O Seminário, livro 23, o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.