FEMININO: OBJETO DE ESTUDO E AUTORIA TEÓRICA

Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (EBP/AMP/Clipp)
m_bernadettep@yahoo.com.br

 

Observa-se que a história da psicanálise foi contada como um campo dominado por homens, mas a Revista HADES busca arrancar do esquecimento, da invisibilidade, algumas das mulheres que praticaram e teorizaram, intelectuais que não apenas aplicaram, mas contestaram e até expandiram a teoria freudiana, trazendo contribuições que, para além da figura de Freud, facilitaram repensar a visão do feminino. Esta edição não se pretende um ato de reparação histórica identitária, mas busca sim, atender a uma exigência ética e clínica. Ignorar a genealogia feminina na psicanálise arrisca repetir, em suas instituições, o ponto cego do que Freud chamou de “continente negro” da feminilidade.

Embora a criação de Freud tenha emergido com a escuta das mulheres, operou-se uma resistência quando essas mesmas mulheres transitaram da posição de objetos de estudo para a de sujeitos do discurso. Reduzidas com frequência ao estatuto de “musa”, “paciente” ou “coadjuvante passional” na vida dos pioneiros homens, intelectuais como Sabina Spielrein, Melanie Klein, Karen Horney, Lou Andreas-Salomé, Anna Freud, Françoise Dolto, Helene Deutsch, Emma Eckstein, Hermine Hug-Hellmuth, Barbara Low, Maud Mannoni, Joan Riviere, Margarete Hilferding, além de brasileiras como Virgínia Bicudo: Adelheid Koch: Marialzira Perestrello – longa lista que não se esgota aqui.

Débora Garcia escreve sobre “Ruth Mack Brunswick: a preferida de Freud”, psicanalista que trabalhou ao lado de Freud e considerada sua discípula preferida, mais conhecida pela segunda análise de Sergei Pankejeff, o “Homem dos Lobos”.

Olenice Amorim Gonçalves escreve sobre “Karen Horney e Joan Rivière: contribuições à psicanálise do século XXI” – psicanalistas da primeira cepa, questionaram o falocentrismo e “inveja do pênis”.

Fernanda de França Lorenção traz “As contribuições de Anna Freud para a Psicanálise” – filha de Freud, fundamental para o desenvolvimento da psicanálise infantil, além da teorização sobre os mecanismos de defesa do ego, tese criticada duramente por Lacan.

Beatriz Maia S. de Moura fala sobre “Melanie Klein: a tripeira inspirada”, analista que revolucionou a clínica infantil criando a técnica da análise por meio da brincadeira.

Juliana Gayoso Franco de Toledo apresenta “Uma Psicanalista presente, Helene Deutsch”, polonesa-americana, aluna e analisada por Freud, primeira a se especializar nas mulheres e na maternidade.

Noemi Araújo evoca “Ressonância das contribuições de Lou Salomé na psicanálise contemporânea”, cujo brilho intelectual foi, muitas vezes, reduzido a “enredos passionais” com Freud.

João Paulo Desconci apresenta “Ella Sharpe O espírito da letra”, figura de destaque no desenvolvimento inicial da psicanálise na Grã-Bretanha.

Leitores, espero que relembrem e aproveitem!