João Paulo Desconci (CLIPP)
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Reconhecida por Lacan por sua insistência nos fundamentos retóricos e fonéticos da linguagem, devido à sua formação inicial em literatura inglesa, Ella Freeman Sharpe (1875-1947) destaca-se pela aplicação da teoria freudiana à literatura, e por situar com precisão o caráter significante do falo. Seu interesse por Shakespeare se manteve até o fim e constitui um traço marcante em sua obra. Seu estudo sobre Hamlet[2], por exemplo, marca o seu retorno à literatura inglesa, depois do encontro com a psicanálise. Lacan não desconhecia esse ensaio e chegou a afirmar que Sharpe disse coisas sobre o Hamlet que não são sem interesse!

Depois de um período de angústia causado pela morte de muitos de seus alunos nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, teve como primeiro analista James Glover, em Londres. Em seguida realizou sua análise didática com Abraham, e em 1920 mudou-se para Berlim, continuando sua análise pessoal com Hanns Sachs – que também era um conhecedor de Shakespeare. Tendo se tornado membro da British Society of Psychoanalysis (BSP) em 1923, Sharpe apoiou as linhas de pesquisa de Melanie Klein em oposição às de Anna Freud, sublinhando que a análise de crianças exige certo uso dos objetos, bem como um profundo envolvimento do analista. No entanto, em 1927, durante os conflitos entre Klein e Glover, Sharpe manteve uma posição independente.

A partir de 1930 conduziu uma série de atividades destinadas aos jovens analistas no Instituto de Psicanálise, sendo uma das analistas mais ativas na formação de novos profissionais. Em seus escritos técnicos, por exemplo, insistia na posição subjetiva do iniciante, que deveria ser movido pela curiosidade científica e não pelo desejo de curar ou educar – exigindo uma vasta cultura literária. Lacan a elogia em A direção do tratamento e os princípios de seu poder, ao discutir a falta-a-ser como cerne da experiência analítica:

Basta-nos citar Ella Sharpe e seus comentários pertinentes ao acompanhar as verdadeiras preocupações do neurótico [24][3]. A força deles encontra-se numa espécie de ingenuidade que se reflete nas asperezas, justificadamente célebres, de seu estilo de terapeuta e escritora. Não é um traço corriqueiro que ela chegue até mesmo à ostentação, na exigência que impõe de uma onisciência ao analista para ler corretamente as intenções dos discursos do analisado.

Devemos reconhecer-lhe o mérito de colocar em primeiro lugar nas escolas do praticante uma cultura literária, mesmo que ela não pareça perceber que, na lista de leituras mínimas que lhes propõe, predominam as obras da imaginação em que o significante do falo desempenha um papel central, sob um véu transparente. Isso apenas prova que a escolha é tão menos guiada pela experiência quanto é feliz a indicação de princípio[4] [grifos do autor].

Em especial, seu livro Análise dos sonhos[5] foi proposto como um manual prático de decifração, reabilitando o estudo dos sonhos que estava em desuso. A partir dele, Lacan se ocupará de um sonho relatado por ela no decorrer de cinco lições do Seminário 6 – um trabalho de fôlego, designado por Miller como superinterpretação[6]. Embora homenageie Sharpe, ao se colocar na posição de um supervisor, Lacan não deixa de convocá-la à escuta do significante, nos momentos em que ela trata de modo imaginário tanto o falo quanto a relação do sujeito com o pai – propondo sua própria análise estrutural do conceito de interpretação imaginária. O foco era certamente o estilo interpretativo da analista, embora, ao introduzir Hamlet pelo viés de Sharpe, Lacan nos dá sua interpretação original de que o mais fundamental nesse ‘o que quer o sujeito?’ – isto é, o desejo –, é que o sujeito busca manter o falo da mãe, negando a castração do Outro, não quer perder sua dama, colocando-se na posição de falo idealizado.

A partir daí, no ensino de Lacan, o desejo toma outro rumo: é pela dialética do sonho com o fantasma [do pai] que o sujeito encontra resposta para a questão sobre a tragédia do desejo, em função do papel que desempenham os objetos a – ($<>a). A afânise é a resposta subjetiva ao encontro com a opacidade do desejo do Outro – que gera “abolição do sujeito e apego ao objeto imaginário” – diz Miller, o que dá à função do falo sua verdadeira posição, a saber, seu caráter significante[7]. Ser ou não ser’… o falo!

No que se refere a Ella Sharpe tudo o que, por outro lado, conheço ou podia conhecer de sua obra indica que, na sua concepção e interpretação da teoria analítica, há uma profunda valorização do caráter significante das coisas. Ela enfatizou a metáfora de uma maneira que em nada destoa do que lhes estou explicando. Ela consegue ressaltar o tempo todo nos sintomas o elemento de substituição propriamente linguístico, o que ela transpôs para suas análises de temas literários, que constituem parte importante de sua obra. Além disso, tudo o que ela fornece como regras técnicas é profundamente marcado por uma espécie de experiência, de apreensão do jogo de significantes como tal[8] [grifos do autor].

Por fim, em 1939, Sharpe retirou-se para o campo devido à guerra, mas retornou a Londres em 1940 para trabalhar em tempo integral, apesar de problemas cardíacos – nesse período, publicou seu trabalho sobre a metáfora. Em 1944, juntou-se ao comitê de formação que recusou as teses de Glover, deixando a SBP junto com Anna Freud. Ella faleceu em 1947, enquanto terminava o primeiro capítulo de um livro sobre o ensino da psicanálise e começava a escrever um romance.

 


[1] BOUQUIER, J-J; CHARRAUD, N; MOREL, G. Ella Sharpe, 1875-1947. L’Esprit de la lettre. In: ORNICAR? Revue du Champ freudien, n.38, automne 1986. Paris: Navarin.
[2] SHARPE, E. F. (1929) The Impatience of Hamlet. In: International Journal of Psycho-Analysis, 10:270-279.
[3] SHARPE, E. (1930) Technique of Psychoanalysis. Coll. Papers, Hogarth Press. Cf. p.81 (sobre a necessidade do neurótico em justificar sua existência); p.12-4 (sobre os conhecimentos e técnicas exigíveis do analista).
[4] LACAN, J. (1958/1998) A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.619-20.
[5] SHARPE, E. (1931/1971) Análise de um único sonho. In: Análise dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago Ed.
[6] MILLER, J.-A. (2013/2014) Uma introdução à leitura do Seminário 6. Opção Lacaniana, São Paulo, Edições Eolia, n. 68-69, dez, p.31.
[7] LACAN, J. (1958-59/1988) O Seminário, livro 6 – O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.232.
[8] Ibid., p.224-225.