Olenice Amorim Gonçalves (Clipp)
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Por qual linha se articula o Freud de Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci (FREUD, 2021 [1910]) e o não há de Lacan? Que elementos o Leonardo de Freud lega à psicanálise como possibilidade de tratamento, ainda, diante dos sintomas da atualidade, numa época em que gozar é a ordem primeira?

Há, Não há

O tema do XV Congresso da AMP, Não há relação sexual, foi bussolar aos 22 cartéis da EBP, este trabalho de escola resultou na coletânea SCILICET, com a direção e o texto de orientação lacaniana, Há, não há, de Jacques-Alain Miller (2025).

Há algo que resta ao final de uma análise e que implica uma parceria com o sintoma, na qual cada um vira-se com o que lhe é próprio do gozo e que escapa ao significante. É o que os axiomas lacanianos buscam transmitir: o grande Outro não existe, A mulher não existe, não existe relação sexual, não há relação sexual, que compõem uma série não linear, que desemboca na tradução do Il y a de l’Un em Há-Um (LACAN, 2011 [1971-1972]), um gozo. Como inserir no mundo, fazer laço social, contando com isso indica o ponto no qual as invenções inéditas de Leonardo da Vinci podem lançar alguma luz.

A psicanálise trata pela fala, numa aposta de que algo da palavra faça-se dita, que algo do dito enganche o gozo no corpo, efetuando um cessar de não se escrever com efeitos de contingência, uma experiência que afeta e amplia as possibilidades de novas leituras das inscrições. Desde Freud, há um inconsciente impossível. Já estavam lá os restos da operação do recalque primário, que lega como espólio um resquício impossível de simbolizar. Este resto impossível de se ter acesso não é sem manifestações afetadas. Isso se experimenta nos sintomas.

Miller situa a última clínica de Lacan como aquela que retorna ao primeiro Freud e afirma, “o gozo não é transgressão” (LACAN, 2011 [1971-1972], p.19). Indica na categoria falasser, diferente de sujeito, que se tem um corpo, se tem como um bem do qual se goza. E que o gozo do corpo se sustenta pela linguagem que “não é a Lei, é uma articulação”. Miller avança na perspectiva de que para fazer sinthoma, gozo, corpo e linguagem se juntam. O sinthoma, com th, foi a palavra escolhida por Lacan para qualificar a relação com o gozo bruto numa abordagem indireta, servindo-se do corpo que se tem, ou seja, que tem o falasser (LACAN, 2011 [1971-1972], p.22-23).

Miller vai do sinthoma do último Lacan ao sintoma de Freud, demonstrando a concepção substitutiva do gozo. O que se mantém de Freud, lido por Lacan, e corroborado por Miller, é que na série de gozo substitutivo que ecoa no sinthoma lacaniano, persiste o valor de substituição do sintoma freudiano e, ainda, que no sintoma o valor de substituição é da satisfação sexual que na vida do paciente encontra-se em privação. E, ao ler Freud, Miller ratifica: “A satisfação inerente ao sintoma vem substituir aquela que falta na vida. O sintoma neurótico é uma satisfação sexual substitutiva” (LACAN, 2011 [1971-1972], p.23-24).

 

O Leonardo da Vinci de Freud

Após os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), no qual Freud introduz a teoria das pulsões, ele se dividia por uma pulsão sexual regida pelo prazer e uma pulsão regida pelo princípio de realidade. Ao encaminhar sua pesquisa a um daqueles que considerou um dos grandes da humanidade, ansiava por algo valioso para o entendimento do psiquismo. Seu interesse por da Vinci deixa três contribuições indeléveis à sublimação: o apelo ao ideal; o caráter substitutivo da pulsão e, por conseguinte, do sintoma; e os destinos pulsionais.

No trabalho dedicado à da Vinci garimpou diversas fontes, acessando fatos da vida de um dos maiores expoentes da Renascença italiana, que viveu entre 1452 e 1519. As informações da infância, nas quais a hipótese de Freud se fundamentava como gérmen da vida adulta, foram parcas. Nas seis partes que compõem as suas elaborações, Freud tece acerca de Leonardo da Vinci predicados os mais elevados, considerando-o um gênio em todos os aspectos. Compôs seu trabalho dedicado à da Vinci, contando com o relato de biógrafos, com escritos, pesquisas, esboços, quadros, pinturas e desenhos, de várias áreas de interesse, e, de maneira específica, Freud esmiuçou uma lembrança da infância que ocorreu a Leonardo da Vinci, entremeada a escrita de um manuscrito científico: o abutre que bate com a cauda repetidas vezes em sua boca. Uma lembrança dos primeiros anos de vida, ainda no berço, que Freud considerou ser uma fantasia das origens da homossexualidade. Desde aí a fantasia toma valor central na psicanálise, articulada com as pulsões.

Quanto aos próprios feitos, Leonardo manifestava ser devedor ao ideal; sua exigência para com uma idealização se apresentava. Homem de feições belas, de força física e fino trato, e múltiplas habilidades.

Freud é fisgado por um mistério, o da oscilação ao extremo, que permaneceu na relação de da Vinci com a arte: abandonava por um tempo de maneira abrupta ou inacabadas as pinturas, postergava o feitio por anos e buscava em minúcias a perfeição idealizada para sua obra, por outra feita, havia dias que passava horas a fio sem comer ou beber diante dos quadros até que ficasse satisfeito. Para Freud, a vagareza e a lentidão de Leonardo no trabalho seriam justificadas pela inibição, seu sintoma.

Ao contrário daqueles que se dedicam à arte, o Leonardo de Freud foi considerado um exemplo de fria negação da sexualidade, casto, abstinente, estando apagados em sua obra o sexual e representações eróticas. Freud se dedicou também a um desenho anatômico realizado por da Vinci em corte sagital do ato sexual, no qual constata erros grosseiros. Da análise deste desenho emergiram as hipóteses de vergonha, recalque, desconforto e defesa do desenhista no que tange ao sexual. Para Freud, Leonardo confunde masculino e feminino, concluindo como indicação de um recalcamento quase perturbado da libido. Nenhuma notícia foi encontrada, por Freud, de qualquer contato físico entre Leonardo e alguma mulher, tendo sido denunciado por relações homossexuais proibidas, sendo provável uma relação carinhosa com os jovens. A suposição de Freud é de que à atividade sexual Leonardo não conferia grande valor.

Freud considera que talvez Leonardo desejasse que os outros se comportassem como ele mesmo em sua relação com o amor e o ódio. Seus afetos dominados pela pulsão de pesquisa eram dóceis, indagando-se de onde vinha o que devia amar ou odiar e o que isso significava. O amor e o ódio eram assim transformados em interesse de pensamento. Para Freud, Leonardo da Vinci transformou sua força pulsional, o primeiro motor das ações humanas, submetendo suas paixões ali presentes, em impulso de conhecer. Sua paixão levou-o a entregar-se a profunda pesquisa de alto nível intelectual, e, após, instaurado o conhecimento, ele permitia a irrupção e fluição livre de seus afetos contidos. A atividade contemplativa compreendia a paixão e imprimia grandeza as suas criações e invenções. A postergação do amar endereçado antes a conhecer aparece em Leonardo como um substituto: no conhecimento não se ama, nem se odeia; em vez de amar, Leonardo pesquisou-se.

Em da Vinci a dedicação a pesquisar os domínios da natureza em seu ímpeto de conhecimento exterior, lhe conferiu distância da vida psíquica. Sua única pulsão dominante, o desejo de conhecimentos, comparecia como um dos efeitos da operação de uma pulsão sexual forte na tenra infância, substituída e sublimada. Freud aposta na sublimação como tônica da vida psíquica do criador e inventor Leonardo, para dizer de outra maneira, um direcionamento das pulsões sexuais e interesses sexuais da infância a serviço da pulsão dominante orientada para vida profissional. Estaria inerente em seu psiquismo e funcionando, como motor ao desejo dos conhecimentos, a atividade sexual que fora, então, substituída pela pulsão dominante.

Há um resto que no caso de Leonardo o propulsionou, com valor de mola, em direção ao novo, ao genial. A pulsão sexual sublimada pôs-se de forma substitutiva ao empenho em conhecer, ao prazer pelo pensamento e pela inventividade.

 

Referências bibliográficas:
FREUD, S. (2021 [1910]). Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci (1910). In: Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, pp. 69-165.
MILLER, J-A. (2025). In: Scilicet: Não há relação sexual. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, pp.19-29.
LACAN, J. (2011 [1971-1972]). O Seminário, livro 19: …ou pior. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora.