Olenice Amorim Gonçalves (CLIPP)
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Os ternários: inveja … castração; ser/ ter o falo … o Outro não existe; mascarada … Ⱥ mulher não existe; semblante … Não há relação sexual; significante … o impossível de suportar, testemunham o que causa, o que põe um sujeito a falar (falasser). Isso que escapa à escrita, aquilo que é impossível de dizer; isso que é sem registro e sem representação no inconsciente, que aqui, escrevo por reticências, numa alusão ao título de o seminário 19 de Lacan, … ou pior[1].

Psicanálise no século XXI

Desde o início com Freud e suas histéricas foi assim: o que acontece no corpo que é sem representação? Nas teorias sexuais infantis[2], Freud apontou para algo que Lacan veio a nomear em seu ensino como falta (ausência/presença de algo). Em Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos[3], 17 anos depois, Freud empenha a inveja do pênis, que após passar pelo complexo de castração nas meninas, culminaria como ciúme. O ciúme demonstra que a falta central, fundante do sujeito, se constituiu.

Lacan, em seu ensino de A significação do falo[4], traduz da tríade pênis-falo-filho freudianos, e, ouso propor, do clitóris-vagina-útero de Karen Horney, como a função significante do falo. O falo é o significante e o significante é arbitrário (numa herança de Saussure) logo, se distingue do significado[5].

Era 02.05.2026, sábado, mais de 2000 pessoas presentes, e calor, me disseram. Viva os novos tempos: on-line, o Congresso da AMP 2026 – Não há relação sexual [6] – trazia um frescor: as boas novas da psicanálise a altura da subjetividade da época em que nem o falo, nem o pai, nem o pênis, são unânimes, caíram. A época do virtual, das múltiplas subjetividades, do plurissexual, do consumir-se. Voltemos a Paris: Elisa Alvarenga, em Índices de la no-relación en Freud, encerra com uma provocação que ecoou: “seria a castração um correlato ou equivalente do ‘não há relação sexual?” Foi o que escutei. Jacques-Alain Miller, não resistiu a que continuemos lhe pedindo que fale e, então, comenta, entre outras coisas: “(…) há castração simbólica, há castração imaginária, há castração real”.

Na plenária seguinte, Éric Laurent apresenta La no relación sexual y la función fálica, donde recorto uma correlação entre a operação castração, o não há relação sexual e a angústia: a castração é o gozo que inclui a falta. Considerando que em Lacan, na altura de seu Seminário 10, a angústia não é sem objeto, a operação castração viria incluir a falta de objeto, e por efeito, um gozo que inclui algo do não há.

O que isso quer dizer em nossos dias? Que a comunidade analítica continua às voltas com o que Freud nomeou enigma da feminilidade[7], e que Lacan irá demonstrar, a partir do início da década de 70 com sua tábua da sexuação[8], que há um gozo que escapa à inscrição, o não-todo fálico, o não-todo significantizável, este que se experimenta no corpo e impossível de dizê-lo todo.

Útero, vagina, clitóris, pênis, filho, criança: relação das palavras, função do significante, o falo – do que se faz uma análise.

Karen Horney, psicanalista alemã nascida em 1885, trabalhou nos EUA a partir de 1932 onde faleceu em 1952. Uma das primeiras mulheres que contribuiu para o avanço da psicanálise, propôs um distanciamento das premissas anatômico-biológicas, numa argumentação quanto ao complexo de castração e uma báscula nas teorias a partir das fantasias sexuais infantis. Ainda em 1926 propôs o que ficou conhecido como inveja do útero: a análise de homens nos leva a um surpreendente campo de inveja da gravidez, parto e maternidade, bem como dos seios e do ato de amamentar (p.57)[9].

Esta contraposição articulada à teoria freudiana da “inveja do pênis”4 introduz suas repercussões ulteriores apoiadas nas fantasias sexuais infantis, seguindo as trilhas de Freud, à quais faz uma contraposição. Horney[10] desloca do pênis para a vagina (e o útero) basculando uma correlata função fálica destes que, segundo ela, contribuíram para organização genital infantil das mulheres. Nesta perspectiva, a vagina, o útero e o clitóris também seriam representantes fálicos, assim como o pênis em Freud – é a leitura que empenho aqui.

O pioneirismo de Karen Horney, no que tange ao inconsciente deste primeiro quarto do século XXI, consiste em questionar a universalização do órgão pênis e incluir um ponto de inflexão, já naquele tempo, apontando para algo que se distingue da anatomia, do significado, o que Freud irá desenvolver ainda em sua obra na noção de falo: Lacan retoma em A significação do falo ao bordar a querela do falo e afirmar que o inconsciente é linguagem e a função significante é a do falo por sua inscrição. Cito Lacan:

Pois o falo é um significante, um significante cuja função, na economia intra-subjetiva da análise, levanta, quem sabe, o véu daquele que ele mantinha envolta em mistérios. Pois ele é o significante destinado a designar, em seu conjunto, os efeitos de significado, na medida em que o significante os condiciona por sua presença de significante5 (p.697).

Nem ser, nem ter; aparecer, parecer

Ainda em A significação do falo, conferência proferida na Alemanha em 1958, Lacan abordou a relação entre sujeito e o Outro, tomando o falo por sua função significante, tanto de presença, quanto de ausência, constituindo uma operação de subtração entre o amor e a necessidade, da qual, na melhor das hipóteses, resulta a castração. Nesta operação circulante, entre ter ou ser o falo opera-se uma falta, uma castração: uma articulação entre todo e não-todo fálico, alcançada nestes termos em seu ensino na altura dos anos 1971-19728, que está aí para cada sujeito.

Lacan, ainda em 1958, desloca a discussão do eixo inveja (autoerótica e imaginária) para o eixo do desejo. Daí decorre a função do falo como o significante circulante que estrutura o desejo.

A hiância desse enigma confirma o que a determina na fórmula mais simples para torná-la patente, qual seja, que tanto para o sujeito quanto para o Outro, no que tange a cada um dos parceiros da relação, não basta serem sujeitos da necessidade ou objetos do amor, mas têm que ocupar o lugar de causa do desejo5 (p.698).

O tema das relações, bem como o da castração a ele inerente, é abordado em diferentes momentos do ensino de Lacan. Uma antinomia se apresenta ao referir-se aos polos das relações, não por acaso, como homem/ mulher; feminino/ masculino: longe de encarnar um órgão anatômico, ou uma categoria de gênero, refere-se às posições de gozo que um sujeito assume em diferentes momentos de sua experimentação pulsional, o que nos leva a outra pioneira da práxis psicanalítica no século XX, com suas contribuições indeléveis à psicanálise do século XXI.

Joan Rivière foi analisante de Freud e uma das tradutoras de sua obra do alemão para o inglês. Contribuiu para a elaboração do glossário terminológico “Obras Completas de Freud”. Psicanalista, viveu de 1883 a 1962 na Inglaterra. Em 1929 publicou o artigo Womanliness as a masquerade no International Journal of Psychoanalysis, traduzido para o idioma português como A feminilidade como máscara. Sua proposição a partir de casos clínicos, um em particular “obcecada, com uma necessidade de reconhecimento”[11], inclui a bissexualidade freudiana como vértice de leitura já naquela época.

Tentarei mostrar que as mulheres que desejam a masculinidade podem colocar uma máscara de feminilidade para evitar a ansiedade e a vingança temida dos homens (…) um reconhecimento indireto, sob a forma de atenções sexuais por parte desses homens. De maneira ampla, a análise de seu comportamento após seu desempenho mostrava que ela tentava obter investidas sexuais daquele tipo especial de homem, por meio de flerte e de coquetismo, de forma mais ou menos velada11 (p.16).

Rivière, segue a via régia dos sonhos da paciente até as fantasias inconscientes que indicaram o termo máscara como uma defesa, um disfarce ante ao desastre.

A feminilidade, portanto, podia ser assumida e usada como uma máscara, tanto para ocultar a posse da masculinidade, como para evitar as represálias esperadas, se fosse apanhada possuindo-a11 (p.16-17).

A autora afirma não haver diferença entre a máscara e a feminilidade, operando antes como artifício de evitação ao consentimento à castração, do que como uma forma primária de prazer sexual. Lacan retoma de Rivière a feminilidade como máscara e lhe atribui o estatuto de semblante. A máscara, aparência (que ele – o falo – mantinha envolta em mistérios) de encobrimento do vazio de significante, uma espécie de véu (p. 697)[5]. Nesta exibição sedutora de encantos, a relação de objeto estaria a serviço de um jogo de semblantes. A feminilidade ou mascarada é confirmada por Lacan como uma posição subjetiva de defesa, negação e rechaço à castração, ou seja, ao gozo sem nome que persiste e se experimenta.

A feminilidade como máscara é atribuída por Rivière incluindo ainda um outro caso, desta vez de um homossexual em sua atividade masturbatória específica, a partir de elementos de identificação a uma irmã, “disfarçado de mulher”11 (p.19). Relevante este caso no qual poder-se-ia ler um deslocamento da feminilidade, confirmando sua distinção da anatomia.

Horney e Rivière contribuem assim para com um desafio clínico e epistêmico aos analistas praticantes do século XXI, após quase um século de suas elaborações: o enigma do gozo como tal, sem inscrição, fundante, que a cura psicanalítica inclui, e seu percurso à identificação ao saber fazer com tal cicatriz sinthomática que itera na materialidade do corpo.

 


[1] LACAN, Jacques [1971-2]. O seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.
[2] FREUD, Sigmund [1908]. Sobre as teorias sexuais das crianças. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[3] FREUD, Sigmund [1925]. Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p.313.
[4] LACAN, Jacques [1956-7]. O significante e o Espírito Santo. In: O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. pp. 47-48.
[5] LACAN, Jacques [1958]. A significação do falo. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. pp. 692-703.
[6] ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE PSICANÁLISE. XV Congresso da AMP – 2026: Não há relação sexual. Paris: AMP, 2026. Disponível em: https://congresamp.com/pt/congresso/programa/plenarias. Acesso em: 28.04.2026.
[7] FREUD, Sigmund [1933]. A feminilidade. In: Amor, sexualidade e feminilidade (Obras Incompletas de Sigmund Freud). Belo Horizonte: Autêntica, 2018, p. 314
[8] LACAN, Jacques [1972-3]. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, pp. 87-88.
[9] HORNEY, Karen [1926]. A fuga da feminilidade. In: Psicologia Feminina. São Paulo: Escuta, 1991.
[10] HORNEY, Karen [1922]. A inveja do útero. In: Psicologia Feminina. São Paulo: Escuta, 1991.
[11] RIVIERE, Joan. A feminilidade como máscara. Tradução de Ana Cecília Carvalho e Esther Carvalho. Psychê, São Paulo, v. 9, n. 16, pp. 13-24, jul./dez. 2005. Disponível em: site Pepsic. Acesso em: 11 mai. 2026, p.15.