Esthela Solano-Suárez
Escola da Causa Freudiana (ECF); A.M.E. Psicóloga, docente na Seção Clínica de Paris-Saint-Denis, DESS de psicologia clínica e patológica (Estrasburgo), DEA de Psicanálise (Paris 8).
O pecado original
A pergunta “Was will das Weib?”[1] – considerada por Jacques Lacan como “O que Freud deixou de lado expressamente?”[2] no campo da psicanálise – será tanto o eixo da exploração desse campo quanto a matéria do Seminário Mais, ainda[3]. Na elaboração que Lacan apresenta no curso desse seminário, ele esclarecerá a formalização do regime específico do gozo feminino como radicalmente Outro em sua diferença em relação ao gozo masculino, o que não deixa de ter consequências cruciais para a própria psicanálise. Pelo viés das mulheres e de seu gozo, Lacan desloca o eixo da psicanálise e, consequentemente, também o eixo do sintoma, em direção ao real como o fora de sentido[4]. O questionamento relativo a esse ponto, onde Freud “nos abandona”, onde ele “abandona a questão quando se aproxima do gozo feminino”[5], já havia conduzido Lacan a uma interrogação relativa ao desejo de Freud[6].
Com efeito, ao escutar a histérica, Freud encontrou o caminho para o inconsciente, e isso porque seu desejo estava ali comprometido. No curso de seu ensino, Lacan formalizará a lógica do desejo do analista e, mais tarde, operará uma cisão a fim de separar esse desejo inédito – como causa inaugural da coisa freudiana – do que Lacan chamará de “pecado original da análise”, que reside na particularidade do desejo de Freud. Ao estar enraizado no fantasma paterno, o desejo de Freud ficou retido na lógica edípica. Por isso, “a relação que a mulher mantém com o próprio desejo lhe foi opaca”[7].
Se Freud não tivesse substituído “o saber que colhe de todos esses picos de ouro, Anna, Emmie, Dora, por esse mito, o complexo de Édipo”, teria podido conduzir as histéricas para além “do que ele isola como Penisneid”[8] – ponto de detenção da análise freudiana.
Da impotência ao impossível
O desejo de Lacan será, ao contrário, extrair a psicanálise do campo do mito freudiano – Édipo e Totem e tabu – para um além do mito, abrindo o campo do gozo. Por essa via, Lacan ampliou o limite do fim da análise, subvertendo a rocha da impotência pelo viés da impossibilidade.
Recordemos que o campo do gozo implica levar em conta o corpo. Não há, portanto, outro gozo senão o do corpo vivo. O corpo vivo dos falantes, por habitar a linguagem, está incluído no laço social, no sentido do que, da linguagem, se ordena segundo a estrutura dos discursos. Por esta razão de estrutura, o gozo cairá sob o corte da castração, enquanto operação real introduzida pela incidência do significante, em relação ao sexo. Desde esta perspectiva, esclarece-se o mito freudiano como a enunciação ficcional da operação real do significante sobre o corpo.
O significante é responsável pela perda de gozo, mas também inscreve um traço de gozo sobre o corpo. A repetição do traço produz como consequência uma “perda de gozo”[9] correlativa à sua anulação. No lugar dessa perda, surge “a função do objeto perdido, o que eu chamo de objeto a”, diz Lacan[10]. O significante despedaça o gozo, recorta o corpo e, por essa operação, faz passar um órgão ao estatuto de significante – sendo o significante, e não o órgão, o que se inscreve em termos de função.
Esta função, a função do Falo, reparte os corpos sexuados – independentemente de sua anatomia – em dois modos de gozar que não são complementares, cuja relação ao sexo “não basta para torná-los parceiros”[11]. O patapum do gozo sexual encontra então sua causa na operação do significante sobre o corpo.
A economia do gozo nos seres falantes, devido ao impossível da relação sexual, terá de passar pela suplência de um símbolo que dá ao falo o estatuto de semblante. O gozo fálico se articula no símbolo, enquanto o efeito de perda será tomado na deriva metonímica que gira em torno do objeto pulsional – objeto, por excelência, “a-sexuado”[12], diz Lacan. O inconsciente testemunha isso – posto que suas formações são interpretadas – ao pôr a descoberto o gozo de que depende outra satisfação “cujo suporte é a linguagem”[13]. O gozo “se satisfaz com o blá-blá-blá”[14] e, porque dito gozo fala, “a relação sexual não existe”[15].
Uma parte do gozo, passada ao significante, não se cala: “fala de outra coisa que faz da metáfora seu recurso” – do que resultam, segundo Lacan, “todas as insanidades míticas”[16]. Ao seguir a vertente do inconsciente, acreditamos em sua retórica, a qual recobre, por meio da significação, o real do impasse sexual.
A objeção do gozo feminino
É aqui que o gozo feminino faz objeção, escapando ao que se articula no inconsciente, enquanto gozo não-todo processado pela articulação significante. Trata-se do testemunho essencial das místicas, segundo o qual elas sentem um gozo “do qual nada se sabe”[17]. Esse gozo arrebata, embarga o corpo. O golpe de mestre de Lacan será tratar o testemunho das místicas pela via da lógica.
Submetendo a uma torção a lógica quântica aristotélica, Lacan escreveu as fórmulas da sexuação. Do lado masculino, afirma-se o universal da castração: Para todo x, phi de x. Isto se traduz por: “todo sujeito, enquanto tal, inscreve-se na função fálica para precaver-se da ausência da relação sexual”[18]. O todo se constrói a partir da exceção, sustentada pelo “ao menos um” que se inscreve negando a castração, um dizer não à castração. O um da exceção dá conta da existência de um x para o qual não phi de x[19]. Sobre essa exceção repousa, segundo Lacan, o que se chama a função do pai[20].
Encontramos aqui uma recuperação lógica da função do mito.
E, de repente, o que fica fora do campo do universal, onde o limite da exceção traça seu contorno, é um gozo que, por não ser todo fálico, não é todo simbolizável: nem todo x se inscreve na função phi de x. O gozo feminino faz valer, então, um para além do Édipo, um para além do falo e do pai, de modo que uma parte desse gozo escapa à castração. Uma parte apenas escapa, porque ele também tem que se haver, em seu gozo, com o falo, enquanto de seu gozo não-todo, o inconsciente não diz uma palavra; daí a impossibilidade de capturar esse gozo pela via da retórica do inconsciente.
Se o gozo não-todo escapa ao saber, então ele nos coloca, segundo Lacan, na via da ex-sistência[21], pois esta se refere ao significante que falta no Outro.
Os “impasses” lógicos do amor
A existência concerne ao real. Cernir o real supõe recorrer à lógica, que convoca não o significante retórico, mas o significante matemático[22], aquele que se apoia na função do escrito. Seguindo essa orientação, Lacan procederá à cisão do ser e da existência, a fim de tocar, na experiência analítica, o real do gozo que escapa ao semblante. É a via que Lacan abre a partir de considerar que o não-todo é da ordem do heteros, acrescentando: “Deve-se dar início à lógica do heteros, sendo notável que é nela onde desemboca o Parmênides a partir da incompatibilidade do Um com o Ser”[23], onde percebemos até que ponto a questão relativa ao gozo feminino levou Lacan a deslocar a psicanálise do Outro para o Um.
É na doutrina do Um, elaborada por Plotino a partir do Parmênides de Platão[24], que Lacan fundamenta a função do Um, do significante Um-sozinho, que ex-siste à linguagem. Seu “há o Um” implica que, se o Um ex-siste, o Outro não existe. O significante Um-sozinho serviu a Lacan para esvaziar o campo da experiência analítica das miragens do ser de que se nutre a ontologia.
De fato, a linguagem faz ser. Não há outro ser senão o ser dito. A função da significância cria seres, os sonhos dão prova disso, assim como as fantasias. A questão reside no saber se esses seres de linguagem têm alguma existência ou não.
Se, do lado masculino, o objeto pequeno a, segundo Lacan, vem ocupar o lugar do parceiro faltante[25], então a fantasia do homem atribui, por intermédio do objeto a, um ser à Mulher que não existe.
Lacan o expressa claramente: “Tudo quanto tenha sido suporte, suporte-substituto, substituto do Outro sob a forma de objeto de desejo, é a-sexuado”. E acrescenta: “Por isso o Outro como tal […] continua sendo, na teoria freudiana, um problema, que se expressa na pergunta que Freud repetia: o que quer a mulher”[26].
Lacan elucida de forma límpida o impasse freudiano, demonstrando que ele se sustentava na lógica do fantasma do lado masculino, cuja operação enganosa consiste em convocar o objeto a, causa de desejo, para o lugar vazio do parceiro Outro, fazendo assim consistir, pela via do fantasma, uma versão da Mulher que não existe. A histérica solidariza-se com essa posição, “fazendo-se o homem”. Por meio desse artifício, produz-se a obstrução do Outro com o objeto. Daí a importância que Lacan atribui à dissociação de a e A no discurso analítico: “o a pôde confundir-se com S(Ⱥ) […] lançando mão da função do ser. Aqui é preciso fazer uma cisão, um desprendimento. É aí que a psicanálise é algo diferente de uma psicologia, pois a psicologia é essa cisão não efetuada”[27]. Assim, Lacan resolve o impasse freudiano e retira as mulheres da cilada toda fálica.
Ora, do lado dela, pode acontecer que também se enrede no embaraço do homem. Tendo que passar pela via do desejo do homem para ser desejada, ela consente em ocupar o lugar de a, causa do desejo, para ter acesso ao falo, correndo o risco de cair no de-ser no instante seguinte, na medida em que a miragem se consumirá, o que, por vezes, a deixa desolada ou, mais precisamente, estragada. Mas a queda e a degradação já estão presentes no encontro, desde o momento em que ela se prepara para que “o fantasma de O homem nela encontre sua hora de verdade”[28].
Ela pode, então, acreditar que o amor a salva, onde o desejo do homem, fora do amor, a condena. O amor faz crer que dois podem fazer Um e, como tal, serve de suplência na relação entre os dois sexos, a qual não existe[29]. Mas o imaginário do Um não garante, contudo, sua ex-sistência. Ao aspirar alcançar o Outro, o amor se dirige ao semblante. Porém, se o Outro só se alcança “abraçando” o objeto causa do desejo, o amor, de repente, se dirige ao “semblante de ser” suposto ao objeto. Daí o impasse imaginário do amor, pois “Somente com a veste da imagem de si que vem envolver o objeto causa do desejo” é que atribuímos valor ao objeto de amor[30].
Lacan esclarecerá esse ponto de impasse do amor assinalando, como já expusemos aqui, que, devido à função do ser na psicanálise, “a pôde confundir-se com S(Ⱥ)”[31], conferindo então ao objeto a o estatuto do imaginário, do semblante, que vem recobrir S(Ⱥ) como furo no simbólico. Extrair o tampão do ser será, segundo Lacan, a condição para despejar, no simbólico, a dimensão da ex-sistência do dizer[32]. Assim se abre a orientação para o real, que talvez permitisse outra versão do amor, a qual Lacan concebe como consequência possível do final de uma análise: “para fazer o amor mais digno do que a profusão do palavrório que ele constitui até hoje…”[33].
A via da “ex-sistência”, rumo ao real do “sinthoma”
Pela via da ex-sistência, Lacan encontra a saída do impasse freudiano a respeito da feminilidade. Ele extrai o gozo feminino das miragens ontológicas do ser que o mantinham prisioneiro na lógica do universal.
Se Mais, ainda (Encore), segundo Lacan, é o nome da falha da qual surge o insaciável da demanda de amor, essa demanda não pode encontrar resposta satisfatória na lógica que dá conta do discurso do inconsciente, onde o ser (être) é adjacente ao significante-mestre (em francês, m’être é homófono de maître, amo). Aqui jaz o mal-entendido que enlaça o amor, na medida em que aponta para o ser, para o comando do supereu. Freud havia descoberto, não sem surpresa, “a desmedida das reivindicações de amor” que alimenta os mal-entendidos da relação da filha com a mãe[34].
Lacan aponta para essa desmedida com o termo “devastação”[35].
A análise de uma mulher, orientada para o real, pode conduzi-la até o ponto que marca para ela uma satisfação, a qual sanciona a saída da devastação. Essa solução se obtém da operação analítica que produz um corte separando o que é relativo à função da mãe daquilo que provém de lalíngua. Sendo a mãe aquela que transmite a língua, a filha atribui ingenuamente à mãe as consequências dos efeitos traçados pela língua sobre o corpo; tais efeitos, enquanto efeitos de gozo que afetam, produzem acontecimentos de corpo.
Ao proceder desta maneira, isola-se o sinthoma.
Uma mulher, cada mulher, em uma análise pode cernir, em seu termo, sua maneira sinthomática própria e absolutamente singular de fazer com o real da relação sexual que não existe, assim como de saber fazer com a singularidade que lhe é própria enquanto mulher.
O fim da análise lhe dará a possibilidade de um saber-fazer com isso (savoir y faire), com a solidão do Um[36]. Por essa via, ela pode consentir a seu gozo, que a torna radicalmente Outra, até mesmo para si própria. Também poderá consentir ao real do amor, prestando-se a ocupar o lugar de sinthoma para um homem.

