Eliane Costa Dias (CLIPP / EBP / AMP)[1]
eliane4041@gmail.com

 

Em 17 de novembro último, encerramos o semestre do Curso de Psicanálise da CLIPP dedicado ao Caso Schreber e à clínica das psicoses. Partindo do aforisma lacaniano “Todo mundo é louco, ou seja, delirante” (2010 [1978], p.31-32), e contando com a intervenção de Maria do Carmo Dias Batista[2], professora convidada, retomando com precisão os conceitos de foraclusão do NP e de foraclusão generalizada, realizamos uma conversação sobre o tema em torno de um produto da cultura – a obra literária A vegetariana. Um exercício de psicanálise aplicada ancorado na aposta de Lacan de que a arte precede à psicanálise na apreensão do falasser.

O livro A vegetariana (2018) da escritora sul coreana Han Kang, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2024, é o testemunho, em três atos, da irrupção do desencadeamento de uma psicose e do desenvolvimento de um delírio. O romance narra a drástica transformação de Yeonghye, uma dona de casa discreta e submissa, que, após ter sonhos vívidos e perturbadores sobre crueldade e carne, decide abruptamente parar de consumir, cozinhar e servir produtos de origem animal. Essa decisão radical desencadeia consequências devastadoras em sua vida e na de sua família, desvendando as tensões e opressões de sua vida conjugal e social. Acompanhamos a progressiva ruptura psíquica de Yeonghye, que se aprofunda em uma busca visceral por uma existência vegetal.

Dos muitos elementos que podemos extrair do romance, destaco o papel e a posição do sonho que inaugura a narrativa do livro e da singularíssima experiência da personagem. O sonho relatado por Yeonghye pode ser tomado como um ponto de encontro com o obscuro e o inominável real do gozo, gerando uma experiência de perplexidade, que na impossibilidade de ser revestida de qualquer sentido, dá lugar uma vivência de angústia que invade e vai tomando, progressivamente, o corpo e o campo da realidade. Na perplexidade, tudo o que Yeonghye consegue dizer é: “… Eu tive um sonho” (KANG, 2018, p.13). Destaque para os três pontinhos iniciais, que remetem ao preciso título do Seminário 19 de Lacan (2012 [1971-72]).

Em meio ao relato dos efeitos que a estranheza da personagem produzem no marido, temos a voz (em itálico) da personagem, dando o testemunho dessa infamiliar experiência: o encontro com o real da carne, crua, despedaçada.

Em seu último ensino, Lacan nos diz de uma diz-mensão do inconsciente que está radicalmente fora do sentido e de qualquer possibilidade de apreensão pelo simbólico. Uma dimensão do inconsciente que ex-siste e não cessa de produzir efeitos. Uma dimensão fora do sentido, mas que, entretanto, é lógica: está ligada ao traumatismo de lalíngua e à efração de gozo no corpo.

Se o inconsciente transferencial é o inconsciente como discurso do Outro, estruturado como uma linguagem, o inconsciente real remete às marcas, aos sulcos inscritos por lalíngua no corpo vivo. Marcas-letra do acontecimento de Um-gozo no troumatisme (trauma-furo) primordial e constituinte de todo falasser – o encontro do vivo com o significante.

O trabalho de Freud e de Lacan sobre o sonho localizam seu ponto de indecifrável: o umbigo do sonho como o ponto onde o sonho mergulha para o desconhecido (Unerkannt). O umbigo do sonho como furo por onde o sentido se esvai e, ao mesmo tempo, como uma cicatriz do troumatisme, marca da inscrição de um modo singular de gozo. Há no sonho, portanto, uma dimensão que aponta para o gozo que ressoa no corpo. Na escuta em análise, sob transferência, para além da relação entre sonho e desejo é possível apreender, em alguns sonhos, algo do objeto a como causa e do circuito pulsional como força motriz, pulsante e inexorável.

Lacan destaca um segundo ponto-limite do sonho que aponta ao real: o despertar. Se para Freud o desejo no sonho visaria a preservação do sono, com Lacan, o sonho abre a via para o real como impossível de suportar e sua interrupção teria uma função de defesa. Despertamos para fazer anteparo ao real desvelado no sonho, retornando à ficção da realidade constituída e do mundo de representações. As marcas do real estariam naquilo que, no sonho, provoca o acordar. Caberia verificar, a cada vez, o que impele ao despertar.

A questão é que desse encontro com o real do sonho Yeonghye não desperta. Ela diz: “Foi tudo tão real… Era familiar e desconhecido ao mesmo tempo… Essa sensação real e esquisita, terrivelmente estranha… O reflexo dos meus olhos estava brilhando na poça de sangue no chão do celeiro” (KANG, 2018, p.13). Esse falasser se depara, no sonho, com o real de sua existência – a carne despedaçada.

Ainda nas páginas iniciais, bem freudianamente, sua voz nos dá o resto diurno que abre o caminho inconsciente para o sonho: cortando carne, como de costume, algo manca, se atrapalha; l’une bévue irrompe na mão que segura a faca com pressa, na nuca que esquenta, e esse corpo que pulsa corta a própria carne, que sangra. A perplexidade irrompe já neste ponto.

Algumas páginas adiante, a personagem nos diz que esse ponto opaco de real já iterava em um sonho de repetição que a acompanhava há tempos: “Alguém matou uma pessoa e outro alguém escondeu o corpo, sem deixar rastros”. Ela não sabe se é quem assassina ou a vítima.

Por incontáveis vezes, alguém matou alguém. Nada é muito claro, é tudo confuso… Mas me lembro de tudo com uma palpável e estarrecedora sensação de realidade… Será que sempre estive ali e só agora me dou conta (KANG, 2018, p.31).

Por fim, seguimos Yeonghye na recordação de uma cena primária: aos nove anos, após ter a perna ferida na mordida de um cachorro, assiste, paralisada, a cena brutal em que o pai violenta e tortura o animal até reduzi-lo a um resto de carne dilacerada e sangue. “Vejo seus olhos abertos, com sangue parado neles… E não senti nada demais. Nada demais mesmo” (KANG, 2018, p.44).

A sequência dos sonhos e das reminiscências de Yeonghye nos dizem de como, na ausência da inscrição significante fundamental (NP__Φ) que permitiria produzir alguma significação possível, o inominável da existência – a pulsão de morte, só pode retornar no real, de forma abrupta, invasiva e avassaladora.

Retomo aqui alguns dos comentários formulados durante a conversação.

Por Maria Antonia Demasi[3]

No romance A vegetariana, a história de uma jovem mulher que se recusa a comer carne e deseja ser um vegetal, por si só, bastaria para escancarar um quadro psíquico cada dia mais comum. Porém, correndo junto com essa narrativa principal, temos a história do marido, da irmã e do cunhado, seres que parecem vagar por um espaço-tempo sem contorno e prestes a derreter.

Um desarranjo contemporâneo, uma crise que se baseia nas formas contemporâneas de existir, a generalização social do sofrimento. Frente a esse quadro, o quê quer e o quê pode a psicanálise?

 

Por Thiago Delfino Carbonel:[4]

A Vegetariana e o corpo fragmentado na psicose.

No primeiro capítulo, o narrador é um personagem da trama: o marido de Yeonghye, que, tendo vivido com ela por algum tempo, descreve sua transformação de mulher comum (KANG, 2018, p. 10) a uma imagem fantasmagórica: “Descalça e com a camisola fina”, com o cabelo “desarrumado”, “imóvel”, na cozinha “gelada” e escura, ao acender as luzes do banheiro, subitamente, ele a vê, “parecendo uma estátua de pedra” (p. 12). Essa imagem fantasmagórica de uma estátua, que, na fria escuridão, ao reluzir um clarão, subitamente é vista, é semelhante à de filmes de terror. Lembra as estátuas de cemitérios, que, em noites tempestivas, ao fulgor de relâmpagos e ao som de trovões e do farfalhar de árvores sob um vento forte, eliciam-nos a dúvida se nelas algum espírito habita; se nelas há alguma vida. Estátuas de pedra porosa ou de cimento poroso. A imagem de um corpo poroso é-nos apresentada no diálogo no qual Yeonghye diz a seu marido que, dos poros dele exala cheiro de carne. Ora a imagem fantasmagórica de Yeonghye é descrita como vazia. No segundo capítulo, o narrador – de tipo onisciente – conta que o cunhado de Yeonghye, um artista, procurava uma modelo para um trabalho em que pintaria “corpos nus de homens e mulheres”, “com pétalas de flores” (p. 60); que “a mulher de seus rascunhos não tinha rosto, mas era, sim, sua cunhada” (p. 61). Até para sua irmã “era sempre difícil adivinhar o que se passava no coração e na cabeça de Yeonghye, tanto que às vezes a sentia como uma estranha” (p. 123).

Depois de ter seu corpo pintado com flores, no terceiro capítulo, ao ser hospitalizada, Yeonghye está livre das tintas que recobriram seu corpo poroso e dos desenhos artísticos que davam contorno a seu corpo emagrecido e sem formas. A partir daí, Yeonghye é descrita como “só ossos”; “sofre de esquizofrenia e além de tudo se recusa a comer” (p. 133); “Não parece estar inconsciente, mas tampouco fala…” (p. 138). Uma estátua de pedra, por cujos poros – podemos supor – o espírito de Yeonghye parece lentamente extravasar; uma estátua, que devido à qualidade porosa de seu material, não consegue dar suporte a um espírito que a mantém viva. Entretanto, a permeabilidade resultante da porosidade de um corpo de pedra parece ser estancada quando seu cunhado pinta o corpo de Yeonghye com tinta, desenhando nele flores.

O vocabulário e a sintaxe coloquiais, junto com os personagens medianos, fazem com que o tema trágico e sublime da transformação e do corpo semi-habitado, dos casos em que o espírito humano vai paulatinamente deixando de habitar um corpo, é aproximado de nós, por meio também de um tema que une o trágico e o prosaico: a doença mental. Em termos psicanalíticos podemos pensar que a tinta e as pinturas fazem com que o corpo poroso ou fragmentado de Yeonghye novamente se torne suficientemente íntegro; que a tinta reúne ou sutura esse corpo fragmentado, como uma camada extra de pele ou ligamentos que mantém unidas as partes desse corpo que ora é descrito como só ossos. Além disso, pensamos também que a pintura artística dá contorno a seu corpo já sem formas, possibilitando-lhe assim uma vida. Ambos, tinta e pintura artística funcionam como um elemento que teria mantido unido – mesmo que por pouco tempo, como acontece no romance – o corpo fragmentado de um sujeito psicótico; funcionam como um quarto nó que mantém os registros do Real, do Simbólico e do Imaginário unidos.

 

Por Silvia Lourenço[5]

Faltou amor?

Enquanto por aqui o pai virou vapor, para os sul coreanos, a cultura ainda ecoa ressonâncias do patriarcado de forma maciça. Yeonghye, protagonista do romance A Vegetariana, da ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura – Han Kang, é narrada a partir do que diz o marido, depois do que desenha o cunhado e finalmente, do que apela a irmã, mas sua voz pouco aparece. O silêncio de Yeonghye se rompe apenas quando ela narra sua produção onírica. Os sonhos surgem como um poderoso instrumento de subjetivação da personagem. A partir deles, Yeonghye cria para si o vegetarianismo como tentativa de barrar o gozo do Outro opressor e invasivo. Seja do marido abusivo, do sadismo violento do pai, ou da obsessão desvairada do cunhado. No fim das contas, tornar-se vegetariana foi a invenção que lhe coube. Desfazer-se de sua parte demasiadamente humana, foi o que a conduziu ao delírio tão mortífero, quanto apaziguador: tornar-se planta.

Mas o que pode a psicanálise diante da pulsão de morte desenfreada? Quando o pai ataca a personagem na tentativa de obrigá-la a ingerir carne, a passagem ao ato torna-se a única forma de resistência contra a violência que a cerca desde a infância. Cortar os pulsos diante de todos, é o ato inaugural de uma escalada mortífera que a acompanhará dali em diante. E me pergunto: haveria manejo transferencial capaz de furar o silêncio intransponível de Yeonghye? Ou de ao menos convencê-la a voltar a se alimentar? Ao abordar o problema da transferência na psicose, Jacques Borie conclui de forma brilhante:

A prática com os psicóticos, mais que nenhuma outra experiência, implica que o amor esteja do lado do analista. Em vez de tratar a psicose de modo deficitário, a transferência com os psicóticos é uma forma de amor enraizada na falta de saber, que nos concerne. Ela exige procurar os menores sinais do saber singular do sujeito, e atribuir valor de ensino a seu testemunho (BORIE, 2023, p.44).

 

Sem ter a quem endereçar sua angústia e suas invenções, Yeonghye se deixa tragar pelo real. O delírio de tornar-se planta consome seu corpo e psiquismo até que ela se torne um resto não simbolizável de si. Diante do corpo despedaçado, faltou amor.


[1] Psicanalista da EBP/AMP e +1 do Cartel de Ensino responsável pela coordenação do Curso de Psicanálise da CLIPP, 2°sem/2025.
[2] Psicanalista AME da EBP/AMP, professora convidada.
[3] Aluna do Curso de Psicanálise da CLIPP – tonhademasi@gmail.com
[4] Aluno do Curso de Psicanálise da CLIPP – thiagocarbonel@usp.br
[5] Aluna do Curso de Psicanálise da CLIPP – silouren@gmail.com

Referências bibliográficas:
BORIE, Jacques. (2023) A transferência como problema. In: O Psicótico e o Psicanalista. Belo Horizonte: Relicário Edições, p. 44.
KANG, H. (2018) A vegetariana. São Paulo: Todavia.
LACAN, J. … oi pior. (2012 [1971-72]). Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, J. (2010 [1978]) Transferência para Saint Dennis? Lacan a favor de Vincennes. Correio, n° 65, p-31-32.