Beatriz Maia S. de Moura (CLIPP)
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Melanie Klein nasceu em Viena, em 1882, em uma família judaica, tendo sua infância marcada por perdas e dificuldades financeiras. Ao longo da vida, enfrentou episódios depressivos que a levaram ao tratamento psicanalítico. Após iniciar análise com Ferenczi, por volta de 1914, ingressa na psicanálise, apresentando seu primeiro artigo em 1919 e tornando-se membro da Sociedade Psicanalítica de Budapeste. Em 1921, muda-se para Berlim, e passa a se analisar com Karl Abraham. A partir de 1925, a convite de Ernest Jones, dá uma série de conferências em Londres, onde suas ideias encontram maior receptividade, estabelecendo-se definitivamente na cidade poucos anos depois.

No que concerne à sua prática psicanalítica, Klein se recusou a tratar crianças a partir de um discurso pedagógico, ao sustentar que era possível analisá-las e fazer interpretações, exigindo apenas modificações na técnica[1]. Para isso, ela equipara o brincar ao sonho enquanto via régia do inconsciente[2], inventando a técnica do brincar. Esse posicionamento fez com que encontrasse resistência a seu trabalho, principalmente entre o grupo de Anna Freud, para quem o trabalho com crianças ficaria num campo mais pedagógico e preventivo[3].

A partir dos atendimentos, construiu uma teoria que demonstra o desenvolvimento libidinal desde o primeiro ano de vida, tendo a relação arcaica com a mãe como principal elemento de constituição do psiquismo. Klein desenvolve o campo pré-edipiano esboçado por Freud e, assim, traz o Édipo para o primeiro ano de vida do bebê. Essa leitura é possibilitada pela compreensão mais “metafórica e simbólica”[4] do Complexo de Édipo – para a autora, quando o bebê passa a reconhecer a mãe, já se instaura uma situação triangular precoce entre ele, a mãe e esse estranho que ele não reconhece e aparece no lugar da mãe, assinalando sua ausência.

Klein revela “as fontes mais primitivas do que o melhor homem é capaz”[5] – a voracidade e o sadismo na relação do bebê com o objeto amado, o desejo de se apropriar do que há de bom no corpo materno, mordê-lo, fazê-lo em pedaços. Esse esforço levou Lacan a se referir à autora como “tripeira inspirada”[6], aquela que olhou nas entranhas da mãe e catalogou seus monstros.

Lacan destaca a importância do trabalho de Klein e sublinha que entre os objetos presentes no corpo da mãe – o seio, os irmãos, os excrementos – há o pênis do pai[7]. Aqui se destaca o “fato kleiniano de que a criança apreende desde a origem que a mãe ‘contém’ o falo”[8]. O mergulho inspirado de Klein nas entranhas do corpo materno foi “essencial na delimitação do falo como significante central para a constituição subjetiva”[9].

O caso Dick, construído por Klein e comentado mais tarde por Lacan, ilustra a clínica da psicanalista e traz elementos importantes para questões ainda atuais. Dick era um menino de quatro anos que se mostrava indiferente ao outro, mesmo os mais próximos, brincava pouco e não demonstrava afeto. A psicanalista ressalta que o menino limitava-se a juntar alguns sons de forma desconcatenada e repetia constantemente determinados ruídos. Quando falava, geralmente empregava seu paupérrimo vocabulário de forma incorreta. Não se tratava apenas de uma incapacidade de se fazer entender: na verdade, não tinha a menor vontade de fazer isso[10].

Para Klein, era claro que os sintomas apresentados eram diferentes de crianças neuróticas e teoriza que, neste caso, fracassaram etapas iniciais do desenvolvimento, dominadas pelo sadismo. A “imobilidade na formação de símbolos”[11], que causaria essa falta de relação com a realidade em Dick, ocorria devido ao medo do menino do que poderia lhe ser feito pelos objetos presentes na mãe caso penetrasse em seu corpo, especialmente pelo pênis do pai. Assim, Dick não direcionava seus impulsos sádicos para o corpo da mãe, causando uma interrupção em suas fantasias e no processo de formação de símbolos.

Ao notar, em sessão, o interesse do paciente por trens e estações, a psicanalista nomeia o trem maior de “Trem-Papai” e o menor de “Trem-Dick”. O menino pega o “Trem-Dick”, o empurra até a janela e diz: “Estação”. Klein interpreta que a estação é a mãe: “Dick está entrando na mamãe”[12]. O menino, então, larga o trem, corre para a porta e pergunta: “Babá?”, ao que Klein responde: “A babá já vem”. A pergunta “A babá vem?” passa a ser repetida pelo menino nas sessões seguintes. Ele começa a demonstrar alegria ao final da sessão quando a babá chega e chora quando ela vai embora. Ao mesmo tempo, passa a demonstrar maior interesse pelos brinquedos, curiosidade pelos nomes das coisas e amplia seu vocabulário.

Lacan, ao comentar o caso, diz que “Melanie Klein enfia o simbolismo, com a maior brutalidade, no pequeno Dick”, inserindo uma interpretação do Édipo que ele chamará de revoltante – “Você é o trenzinho, você quer foder a sua mãe”[13]. Ainda assim, admite que essa intervenção produziu efeitos, levando a criança a fazer um primeiro apelo ao perguntar pela babá. Para Lacan, Dick possui alguns elementos da linguagem e a prova disso é que Klein consegue brincar com ele, ainda que com limitações. Ao falar com o menino, ela possibilita que ele passe a simbolizar a realidade a partir “dessa pequena célula palpitante de simbolismo que lhe deu Melanie Klein”[14]. A psicanalista acredita ter acessado o inconsciente da criança por meio de suas interpretações, enquanto Lacan afirma que, na verdade, ela o funda.

Em um contexto onde diagnósticos em crianças são frequentemente estabelecidos de forma cada vez mais precoce, as contribuições de Melanie Klein colocam em cena a dimensão da constituição do sujeito como algo em aberto. O caso Dick evidencia que, mesmo diante de impasses importantes na relação com a linguagem e com o outro, uma intervenção pode instaurar algo novo. Trata-se, portanto, menos de identificar precocemente uma estrutura fechada do que de sustentar uma aposta no sujeito. Neste sentido, tanto Klein quanto Lacan, apontam para os riscos de uma nomeação diagnóstica que pode cristalizar o lugar da criança, funcionando mais como destino do que como abertura.

 


[1] FIGUEIREDO, L. C.; CINTRA, E. M. de U. Melanie Klein. 2. Ed. São Paulo: Publifolha, 2013. (Folha Explica, v. 76).
[2] BUENO, D. S. Melanie Klein: uma mulher, uma psicanalista. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 7, n. 3, p. 171–175, 2004. DOI: https://doi.org/10.1590/1415-47142004003017.
[3] FIGUEIREDO, L. C.; CINTRA, E. M. de U., 2013.
[4] Ibid., p. 35.
[5] Ibid., p. 16.
[6] LACAN, J. A juventude de Gide ou a letra e o desejo. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 761.
[7] LUCERO, A.; VORCARO, A. M. R. Do objeto parcial ao significante fálico: uma leitura lacaniana de Melanie Klein. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v.24, n.3, p. 778-796, 2018. DOI: https://doi.org/10.5752/P.1678-9563.2018v24n3p797-811.
[8] LACAN, J. A significação do falo. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 700.
[9] LUCERO, A.; VORCARO, A. M. R., 2018. p. 809.
[10] LUCERO, A.; VORCARO, A. M. R. Lacan leitor de Melanie Klein: o caso Dick em questão. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 33, 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/0102.3772e3348.
[11] Ibid., p. 4.
[12] Ibid., p. 4.
[13] Ibid., p. 5.
[14] Ibid., p. 7.