Carmen Silvia Cervelatti (Clipp/EBP/AMP)
Freud escreveu, em 1908, o texto O poeta e o fantasiar (Autêntica), título também traduzido por O escritor e a fantasia (Cia das Letras) e Escritores criativos e devaneios (Imago). Há algum fio que ocupou Freud, notavelmente quando aproximamos outros textos do mesmo período: O delírio e os sonhos na Gradiva de W. Jensen (1907), As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade (1908) e O romance familiar dos neuróticos (1909).
Freud utiliza a palavra poeta – Dichter, “no seu sentido mais amplo e geral de poeta como ‘criador’, englobando o escritor, o romancista, o novelista, o contista, assim como aquele ‘que faz versos” (1908, p. 65), segundo o editor.
Neste texto pretendo aproximar poesia, fantasma e interpretação analítica, desde a perspectiva do Seminário 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aille à mourre (não publicado), o “modo borromeano de interpretar”, chamada por Lacan de “manipulação interpretativa” (MILLER, 2009, p.172) no Seminário anterior, Joyce, o sinthoma (LACAN, 2007, p.18), bem ao estilo da manipulação dos nós em seu último ensino.
Freud aproxima a atividade poética ao brincar das crianças, ambas transpõem as coisas de seu mundo, que são desprazerosas, para algo que agrada, produz prazer, mobiliza afetos – “uma nova ordem”, a realidade (Wirklichkeit) – em oposição ao sonho e à aparência. Trata-se de uma transformação, reconhecível na expressão de Miller do fantasma como “máquina de transformar gozo em prazer” (MILLER, 1988, p.143).
A poesia e a linguagem
O ponto de união entre as atividades poetar e o brincar da criança se dá pela linguagem. Freud disse: “na medida em que a disciplina do poeta, que necessita do empréstimo de objetos concretos passíveis de representação, é caracterizada como brincadeira/jogo [Spiele]: comédia [Lustspiel], tragédia [Trauerspiel] e as pessoas que representam, como atores [Schauspieler]” (FREUD, p.54). A palavra Spiele tem a dupla referência de brincadeira e jogo, presentes nos modos do fazer da criação.
O equívoco foi postulado por Lacan, em “O aturdito”, como o meio pelo qual a interpretação analítica opera, por causa da ressonância – é preciso que algo no significante ressoe – campo da linguagem. Depois, ao promover o efeito de furo em seu ensino, trouxe à baila a ressonância corporal da fala, explicitada na frase do Seminário 23: “As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer” (LACAN, 2007, p.18).
O jogo com o sentido
O sentido se localiza entre o Simbólico e o Imaginário, dando acesso ao saber, mas está fora do alcance do Real. Ainda no Seminário 23, a interpretação incide sobre o sentido, ela é mentira ao incidir sobre os semblantes e impotente sobre o real, que não tem nenhum sentido. Por isso:
Resta aberta a distância entre sentido e gozo e nada é dito sobre como um jogo sobre o sentido teria efeitos sobre o gozo. Quer dizer, em um momento se perde o que Lacan tentava dar conta com sua sigla de objeto a e a manipulação subsequente” (MILLER, 2009, p.176).
A poesia e a interpretação borromeana
Em meio a deslocamentos na concepção do inconsciente e da interpretação incidindo sobre o sentido, Lacan trouxe a referência à poesia no Seminário 24, lição de 19 de abril de 1977. A poesia produz a um só tempo efeito de sentido e efeito de furo, mas fracassa quando tem somente uma significação, quando é “puro nó de uma palavra com outra” e não ressoa no corpo. Como se dá esse esvaziamento pelo efeito de furo?
Lacan “pensa a poesia a partir de um simbólico que seria incluído no imaginário e assim: desenvolvimento sobre a violência feita ao uso da língua” (MILLER, 2009, p. 179). Desde a perspectiva do S1, o S2 porta dois sentidos – razão do equívoco. Temos assim o sentido, do imaginário, e o sentido comum sobre o qual a poesia pratica o forçamento, a violência, manejando o significante e eliminando um dos sentidos. O sentido faltante é substituído por uma significação; o poeta ao dobrar o sentido, o faz equivalente ao furo, “o furo no real que é a relação sexual, […] a significação, isso é só uma palavra vazia” (MILLER, 2009, p. 181), introduzindo o furo. Manoel de Barros nos faz sentir isso:
“Aqui o organismo do poeta adoece a Natureza. De repente um homem derruba folhas. Sapo nu tem voz de arauto. Algumas ruínas enfrutam. Passam louros crepúsculos por dentro dos caramujos. E há pregos primaveris. … Essas pré-coisas de poesia (BARROS, 2010, p.197).
Tanto a poesia, com a beleza que lhe é peculiar, quanto o fantasma, com o que ele porta de monotonia, são barreiras ao insuportável do Real em si, pela via do ficcional, do Simbólico e não sem o Imaginário. O fantasma é uma significação, talvez plena, por isso difere da poesia, por portar uma significação vazia. Por isso se enlaça à psicanálise, desde que a interpretação toque o vazio pulsional, fazendo o dizer, via transferência, ressoar no corpo.
“A interpretação seria aqui um forçamento, como diz Lacan – por onde um psicanalista pode vir fazer soar outra coisa que o sentido” (MILLER, 2009, p.183). Um significante que não teria nenhuma espécie de sentido produz a ressonância do efeito de furo, uma significação vazia, mais afeita à ausência da relação sexual.
Há que se consagrar isso, adverte Miller. Lacan queria que os analistas percebessem que são poetas ( LACAN, p.54), por poder fazer ressoar no corpo o dizer. Simbólico, Imaginário e Real perfazem o enlaçamento borromeano com a interpretação no ultimíssimo ensino de Lacan.

