Andres Santos Jr. (Psiquiatra, Psicanalista)

andressjr@gmail.com

 

Sob o olhar psiquiátrico

Se considerarmos Alonso Quijano como um personagem “real”, observamos um delírio sistematizado, coerente, expansivo e crônico; sustentado por ideias delirantes de grandeza (acredita ser cavaleiro investido de missão divina); interpretação delirante da realidade (moinhos como gigantes, estalagens como castelos, camponesas como damas nobres); e preservação da lucidez fora do sistema delirante (raciocínio lógico quando não se trata de cavaleirismo).

Clinicamente, isso se aproxima de um transtorno delirante persistente (CID-10: F22), tipo megalomaníaco, ou do que os clássicos chamariam de parafrenia — um delírio de estrutura coerente, sem deterioração intelectual ou afetiva grave, com alta capacidade de simbolização. Não há sinais de demência, confusão mental ou dissociação psicótica franca.

É um delírio intelectualizado, imaginativo e afetivamente colorido, o que o distingue das esquizofrenias (onde o pensamento perde coesão) e o aproxima do delírio crônico interpretativo.

 Sob o olhar psicológico e psicanalítico

  1. O delírio como defesa contra o desamparo

Freud escreveu que o delírio é uma reconstrução do mundo após seu colapso: “O delírio é o remendo com que o eu tenta refazer a realidade desfeita” (FREUD, 2011 [1924]).

Quixote, ao delirar, não foge do real por fraqueza, mas o reconstrói para suportar a perda do sentido. Ele vive num mundo que perdeu os valores heróicos — a Espanha barroca, em decadência.

O delírio é a poetização do vazio, a tentativa de salvar o ideal em um mundo sem ideais. Seu “delirar” é, portanto, ato criativo: uma produção simbólica que responde ao desamparo [Hilflosigkeit]. Ele não rompe com a razão, mas a expande poeticamente — substitui o real por um real mais elevado.

  1. A função simbólica e poética

Quixote é um poeta delirante, não um alienado destrutivo. Ele cria metáforas vivas — vê o invisível sob a aparência do banal. Quando vê gigantes onde há moinhos, não é um erro perceptivo, mas uma metamorfose simbólica: o mundo ordinário torna-se palco de significação. Esse movimento é o que Bachelard chamaria de imaginação criadora — o poder do sujeito de transfigurar o real. No delírio poético, o sujeito não perde o sentido do símbolo; no delírio clínico, o símbolo se torna literal. Quixote oscila entre ambos, tornando-se a fronteira viva entre arte e loucura.

  1.  O conflito entre ideal e realidade

O eixo psicológico central do romance é o conflito entre o Ideal e o Real, ou entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade. Quixote representa o ideal do eu, elevado, heroico, espiritual; Sancho Pança, o ego pragmático, material e corporal. A dinâmica entre ambos é a própria estrutura psíquica humana: o ideal que sonha (Quixote); o corpo que puxa ao chão (Sancho); e a tensão que cria a consciência. O delírio poético é a recusa do princípio de realidade em nome da fidelidade ao desejo.

 

Aspecto Delírio clínico Delírio poético
Estrutura Fechado, literal e impermeável à dúvida Aberto, simbólico, consciente de sua criação
Relação com a realidade Ruptura, negação do mundo compartilhado Transfiguração, reinvenção simbólica do mundo
Função psíquica Defesa contra angústia intolerável Expressão criadora e elaboração do vazio
Afetividade   Angústia, perseguição, isolamento Encantamento, esperança, sentido
Linguagem Concretização delirante, tomada ao pé da letra Metáfora, poesia, jogo com o real
Resultado Enclausuramento do eu Expansão da imaginação

Fonte: do autor.

 

O delírio clínico é uma prisão — o sujeito está capturado por uma crença inabalável, que o isola. O delírio poético é uma travessia — o sujeito sabe, ainda que confusamente, que sonha, e esse sonho o alimenta. Quixote vive na fronteira: o seu delírio é poético enquanto simboliza, e clínico quando se cristaliza. Por isso Cervantes o faz oscilar entre lucidez e alucinação, razão e sonho.

Dimensão existencial

A “cura” de Dom Quixote ao final — seu retorno à lucidez e à morte — é simbólica: ao abandonar o delírio, ele perde o sentido. A loucura era sua forma de existir poeticamente, sua defesa contra o niilismo. Sua morte “sã” é, portanto, mais trágica que sua vida “louca”. Ele morre curado — mas despoetizado. Cervantes sugere que talvez o mundo seja o verdadeiro delírio: um mundo sem imaginação, sem fé, sem ideal.

Conclusão

Psicologicamente, Dom Quixote é o retrato da mente que, ao não suportar a banalidade, cria um universo de significações grandiosas. Psiquiatricamente, ele encena uma forma branda e lírica de delírio crônico, sem deterioração, um estado “parafrênico poético”. Poeticamente, ele é o protótipo do homem moderno: entre a loucura da coerência absoluta e a razão da imaginação. O delírio de Quixote é a tentativa do homem de permanecer humano num mundo que perdeu a poesia. Sua loucura é a saúde do sujeito em um tempo adoecido de realismo.

Dom Quixote é o espelho da subjetividade moderna: um homem que, ao perder o Pai – A Espanha depauperada (a Lei, o Sentido), inventa o mundo pela palavra e pela fé no símbolo. Ele delira poeticamente para não enlouquecer clinicamente. Sua loucura é, paradoxalmente, a mais alta forma de razão simbólica –

a afirmação de que o homem só vive quando cria o sentido que o mundo já não oferece!

* A Clipp, para comemorar o encerramento do semestre, reuniu-se na Sala Beatriz Segall do PSICADEIRO, onde se apresentou o comovente, íntimo e exclusivo para a Clipp espetáculo – QUIXOTE: A VOZ DO SONHO. Com a presença marcante do barítono Johnny França e do pianista Leandro Roverso que, juntos, fizeram o acompanhamento à narração de Andres Santos Jr. Idealizado por Andres Santos Jr. e José Paulo Fiks, psiquiatras, psicanalistas, pesquisadores em Neuroestética, ativos no ensino em Psiquiatria e promoção de eventos culturais com tema em saúde mental pelo Depto. de Psiquiatria da EPM/UNIFESP, fundadores do PSICADEIRO.
Referências bibliográficas:
FREUD, S. (2011 [1924]). Neurose e psicose. In: Obras Completas, volume 16: O Eu e o Id, “Autobiografia”e outros textos (1923-1925). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.