Noemi Araujo (CLIPP)
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Conhecida pela sua beleza, elegância, vivacidade, feminilidade, mas principalmente pela sua inteligência e capacidade intelectual, Lou Salomé (1861-1937) marcou a história da filosofia, da psicanálise e a de Freud. Abandonou a literatura para dedicar-se à formação psicanalítica, a partir do seu encontro com Freud no congresso da IPA (Weimar, 1991), intermediado por Pol Bjerre. A isca foi jogada quando Bjerre pediu a Freud para iniciá-la na Psicanálise. Capturado pelos seus encantos, Freud cedeu inserindo-a nas reuniões das quartas-feiras, como membro da Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV)[1]. Instalada em Viena, aos 50 anos iniciou sua análise com Freud, seguiu simultaneamente as reuniões do círculo psicanalítico de Adler e aproximou-se de Anna Freud.
Nestas reuniões mantinha-se em silêncio e anotava compulsivamente o que era falado; tais escritos eram usados em suas construções, bravamente discutidas com Freud, bem como na sua vasta correspondência trocada com ele, sobre psicanálise, filosofia, arte e religião. Considerada como “mais que entendedora”, mas “poetisa e artista da psicanálise”[2], pela forma literária de escrever, suas observações conceituais acerca do inconsciente, do narcisismo, sublimação, erotismo, sexualidade feminina endereçadas à Freud, tiveram consequências na produção conceitual de Freud.
O verbete Andreas-Salomé, do Dicionário de Psicanálise, fala do enamoramento de Freud por ela, bem como da sua escolha de se proteger da atração sexual e do seu pensamento, ao descrever “os traços tão particulares, dessas mulheres, se assemelham a grandes animais solitários mergulhados na contemplação de si mesmos”[3].
No entanto, o filme Lou Salomé (1926) e o material disponível sobre esta escritora, filósofa, poetisa e psicanalista pouco fala desta sua influência sobre Freud que teve consequências no Ensino de Lacan. Esse material trata mais do seu percurso e produção intelectual filosófica e literária, do seu modo de vida como uma mulher atraente, instigante, ousada, livre e decidida nas suas escolhas amorosas, à época consideradas escandalosas e dos ataques às tais escolhas. Roudinesco a descreve como uma mulher que teve
um destino excepcional na história do século XX. Figura emblemática da feminilidade narcísica, concebia o amor sexual como paixão física que se esgotava logo que o desejo fosse saciado”, para quem só o amor intelectual resistia ao tempo[4].
Talvez a imagem que eternizou o instante amoroso do trio Lou, Friedrich Nietzsche e Paul Rée ilustre o que se fala dela. Lou com um chicote numa mão e, na outra, as rédeas de uma carroção puxado por eles, mas não teve consequência drásticas na vida e obra do filósofo.

1882. Lou Salomé Friedrich Nietzsche e Paul Ré
Neste filme, a psicanálise é representada por uma sequência clichê da personagem Lou no divã de Freud, lembrando uma cena infantil onde ela conversava com Deus, ali simbolizado tal como descrito, por ela em Carta aberta a Freud, como um “Gigante”[5]. No entanto, outra sequência mostra o personagem do Ernest Pfeiffer, em 1930, entrando na sua casa atabalhoado, suplicando-lhe para atender uma mulher neurastênica, num momento em que Lou já estava reclusa, apreensiva com a perseguição nazista. A personagem lhe responde com um sorriso discreto, indicando que, naquele instante, ela escutaria tal demanda do lugar de analista, fazendo-o falar dele; depois Pfeiffer tornou-se seu amigo íntimo, biógrafo e herdeiro legítimo da sua obra. Em 1938, após sua morte, sua biblioteca foi confiscada pelos nazistas e recuperada por Pfeiffer, ao final da Guerra.
A segunda “Trindade” se deu entre Lou, Freud e o psicanalista Viktor Tausk, com quem Lou começou a praticar a psicanálise visitando hospitais e se encontrando com intelectuais vienenses em 1912 – além de tê-lo como amante. Mesmo crítica, Lou não rompeu com Freud como tantos outros o fizeram: enquanto frequentadora das reuniões de Adler, ela fazia a mediação entre ele, Freud e outros dissidentes. Desolado, Freud escreveu-lhe (19.10.1912) referindo-se a isto:
Senti sua falta na conferência de ontem e fico contente em saber que sua visita ao campo do protesto masculino (…) ontem fixei meu olhar, como se estivesse enfeitiçado, no lugar que lhe havia sido reservado. senti sua falta ontem a noite na sessão[6].
Segundo Nicéas, rigoroso e ciente dos seus limites da sua experiência, Freud compartilhava com o leitor, incluindo Lou, suas perseveranças e apertos até alcançar o “coração das dificuldades”.[7] Entre tantas ideias sobre o feminino, erotismo, sublimação, amor, sexo e Deus de Lou Salomé compartilhadas com Freud, destaco as consequências da sua descoberta demolidora da ideia fechada de narcisismo como doença, por considerar que existia de algo positivo ali. Assim, é dela a descoberta de que o narcisismo não é só investimento no próprio eu, mas também um investimento para fora, no objeto. Isso possibilitou Freud a pensar o “amor como cura”. No seu conceito de narcisismo incorporou-se o “eu ideal”, por preservar parte do resto da perfeição perdida da infância, “outra parte se origina da onipotência confirmada pela experiência (do cumprimento do ideal do Eu); uma terceira, da satisfação da libido objetal.” Assim, “o enamoramento consiste num transbordar da libido do Eu para o objeto” pois “eleva o objeto sexual a ideal sexual”. (pp 48-49). A exemplo disso, na sua concepção de arte Lou diz que o “artista colhe suas sensações de impressões arcaicas, onde, para ele, o mundo e o ser humano estavam unidos para construir a realidade, e é ela que se realiza de novo na obra” [8] – depois, necessariamente a obra precisa circular no mundo exterior. Na sua especialidade a arte “não é absolutamente tão ofensiva quando ela pode parecer quando nós não a tomamos em sério” [9].
Lou Salomé é citada por Freud nas Conferências XX (1916-1917), XXXII (1933), em Transformações do instinto exemplificados no erotismo anal (1917) e em Nota do segundo ensaio de Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade (1920)[10].
Para Nicéas, Lacan antecipou o que chamamos de “retorno a Freud” em 1936, no 14o Congresso Internacional de Psicanálise em Marienbad, ao apresentar a primeira versão do Estágio do espelho, mostrando a sua resolução da
…questão deixada em aberto por Freud sobre a ‘nova ação psíquica’ que viria a dar forma ao narcisismo quando as pulsões ainda se definiam como autoeróticas[11].
Em 1949, se deu a conclusão de estágio do espelho “como formador do Eu, tal como ela nos é revelada na experiência analítica”, posteriormente publicado nos Escritos. A discussão sobre o narcisismo atravessa o primeiro Seminário de Lacan, principalmente nas aulas dedicadas à Tópica do Imaginário.
No início dos anos 50, Lacan usa politicamente a descoberta de Lou para contestar a leitura rasteira de narcisismo dos pós freudianos americanos, que ainda o concebiam como fase auto-erótica-pré-objeta. reafirmando sua concepção presente no estágio do espelho, do duplo narcisismo: amor a si e abertura ao objeto. O primeiro narcisismo situado na imagem real do seu Esquema de dois espelhos permite a organização “do conjunto da realidade num certo número de quadros pré-formados.”[12] No homem, o reflexo
no espelho manifesta uma possibilidade noética original, e introduz um segundo narcisismo. O seu pattern fundamenta e imediatamente relação com o outro[13].
Em 1962-1963, Lacan volta ao estádio do espelho na construção sobre o afeto de angústia[14], ao reintroduzir o “estatuto freudiano do corpo”, não somente ‘visual’ mas enquanto organismo, apreendido fora do espelho, o corpo de zonas de bordas” [15]. Com isso, o objeto da angústia é resgatado. Com as palavras de Nicéas, sobre suas articulações dos textos freudianos de 1914 e 1923 e o estádio do espelho que o autorizou a “dizer que nas fundações do narcisismo tece-se uma relação amorosa do sujeito com sua imagem”, podemos concluir que, as consequências da presença ativa de Lou Salomé da vida e na obra de Freud ainda ressoam na experiência psicanalítica contemporânea?[16]
No Congresso sobre a sexualidade feminina,[17] ao discorrer sobre A obscuridade no orgasmo vaginal, Lacan critica os psicanalista e a Lou Andréas-Salomé diretamente pela sua tomada de posição pessoal sobre a “dependência retal”, por se limitarem a metáforas. Para Lacan, isso no plano ideal não significa nada que mereça atenção.
Lacan cutuca todas as mulheres, em particular as psicanalistas, ao construir a tábua da sexuação, demonstrando a diferença sexual, não pela via biológica, mas através da significação fálica: homem e mulher são significantes. Na sua definição de A mulher, diz:
…esse a artigo é um significante cujo lugar do qual é próprio ser o único que não pode significar nada, e somente por fundar o estatuto da mulher no que ela não é toda” – A mulher não existe[18].
Lacan depois reclama que há tempos suplica às mulheres para lhe apresentar algo sobre um gozo da mulher, sugerindo que talvez ela própria “não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe”, mas “isso não acontece a elas todas”[19].
Do lugar de mulher não-toda, Lou Salomé voltou a cutucar a discussão psicanalítica, através dos escritos de Freud, quando Lacan se propôs a construir estas concepções de mulher e de gozo feminino? Um dos pontos em comum na vida de Lou Salomé e de Lacan, além da paixão pelo saber, pode ser a inquietação de não se curvar diante das travas impostas pelas convenções sociais. Era uma constância, na vida de Lou, mudar de cidade e país, quando sentia desejo e necessidade de avançar nas suas realizações intelectuais; Lacan, por sua vez, mudava de lugar para realizar seus Seminários quando era barrado pela instituição, por algum motivo.
A vida humana, ah!
A vida, sobretudo, é poesia.
Inconscientes, nós a vivemos, dia a dia.
Passo a passo –
mas em sua intangível plenitude
ela vive e nos traduz em poesia.
(Lou Salomé )[20]
