Débora Garcia (CLIPP)
debora_garciabr@yahoo.com.br

 

Uma edição da revista HADES dedicada às mulheres pioneiras da psicanálise é especialmente relevante no contexto atual, na medida em que não apenas resgata a memória dos primórdios e do percurso da própria psicanálise, mas também restitui a o devido lugar às mulheres que participaram ativamente de sua construção desde os seus fundamentos até a atualidade.

A psicanálise como uma prática a altura de seu tempo, contou com mulheres que contribuíram para a psicanálise, no tempo em que viveram, e Ruth Mack Brunswick foi uma delas. Brunswick era americana, estudou medicina e especializou-se em psiquiatria. Em 1922, aos 25 anos muda-se para Viena e inicia sua análise com Freud para tratar uma grave hipocondria. Além de analisante de Freud, ela fazia supervisão com ele e foi sua médica pessoal. Seu marido e cunhado também foram atendidos por Freud, com a condição colocada por Brunswick, de acompanhar o caso clínico de seu marido junto a Freud – prática bastante criticada na época. Em uma homenagem à filha Mathilde de Freud, Brunswick deu o nome a sua filha – Mathilde Juliana Brunswick, criança que Freud amava muito. Foi considerada como parte da família; estava presente na vida pessoal e intelectual de Freud. Além da hipocondria, Brunswick apresentava problemas digestivos e, para aplacar as fortes dores, tornou-se dependente de morfina e opiáceos até o final de sua vida.

A significante “preferida” se destaca nos textos que retratam sua relação com Freud, relação que ultrapassou (arrisco dizer) a transferência de trabalho. No círculo psicanalítico íntimo mantido por Freud, ela destacou-se como preferida, sendo considerada por ele como excelente e promissora psicanalista.

O nome – Ruth Mack Brunswick – é diretamente associado a segunda analista de Serguei Konstantinovitch Pankejeff, o Homem dos Lobos, caso clássico de Freud. Quando Pankejeff procura novamente Freud em 1926 (que se recusa a atendê-lo), ele o encaminha para Brunswick. A análise do Homem dos Lobos com Ruth Mack B. ocorreu de outubro de 1926 a fevereiro de 1927 (sete anos após a segunda análise com Freud).

Se com Freud, o homem dos lobos foi tratado como uma neurose infantil, uma neurose obsessiva mais especificamente; é a partir do encaminhamento a Brunswick que uma brecha diagnóstica se abre para algo, até então, que ele, Freud, não apostava: que o tratamento analítico das psicoses seria possível.

A análise do “Homem do Lobos” com Brunswick abre para algo novo na análise do “Homem dos Lobos”: o diagnóstico e o manejo da transferência tomam rumos diferentes da análise com Freud. Para ela, o resto transferencial que ocupa o centro deste trabalho é sobretudo de natureza psicótica e não neurótica, como havia sido pensado na análise conduzida por Freud. O diagnóstico de uma paranoia hipocondríaca atrelado a transferência psicótica marca um novo diagnóstico e novo manejo clínico – ela defende o estabelecimento de uma transferência de caráter psicótico, bem como seu alcance no tratamento. Brunswick foi pioneira em trazer à cena psicanalítica de sua época, a investigação na fase pré-edipiana da libido e na relação primordial da criança com a mãe. Apesar de sua obra não se encerrar na condução da análise do Homem dos Lobos, foi com esse trabalho que ela se destacou.

Da análise conduzida por ela com o “Homem dos Lobos” nasce o artigo Um suplemento à História de uma neurose infantil, de Freud (1928), que ficou bastante conhecido. Mas suas investigações não se resumem ao tratamento do “Homem dos Lobos”; além deste ela escreve outros artigos:

  • Uma nota sobre a teoria infantil do coitus a tergo (1929);
  • Análise de um caso de paranóia (delírio de ciúme) (1929);
  • A fase pré-edipiana do desenvolvimento da libido (1940);
  • A mentira aceita (1943);
  • Um sonho de um romance japonês do século XI (1927).

Sua obra centrou-se na investigação da fase pré-edipiana da libido, na relação primordial da criança com a mãe, no estudo das psicoses e da transferência psicótica na prática clínica, aprofundando a noção freudiana de narcisismo, especialmente em sua ligação com a psicose. Mostrou como certas fixações narcísicas podem dificultar a relação com o outro e a realidade, enfatizando que a transferência pode assumir formas muito intensas e primitivas.

Numa recente conversação no módulo “O Homem dos Lobos” do curso da CLIPP, pudemos, em alguma medida, dar lugar às contribuições de Brunswick na condução do tratamento das psicoses. A instigante conversação entre os alunos trouxe questões atuais e fundamentais a partir da discussão do texto sobre a análise do “Homem dos Lobos” com Brunswick. A conversação suscitou:

O que torna o Homem dos Lobos um caso inclassificável? Seria ainda um inclassificável? O diagnóstico em psicanálise, o manejo da transferência na psicose, a estabilização nos casos de psicose e a transferência na psicose foram questões levantadas na conversação, questões caras à psicanálise que há tempos se apresentam. Nos Confins do Seminário[1], Lacan reconhece que Brunswick conseguiu obter que o homem dos lobos retomasse o curso de sua vida, utilizando-se do que os chineses chamam de “doçura maleável da mulher”.

Ao analisar a contribuição de Brunswick é possível acompanhar a passagem da clínica estrutural, para a clínica das amarrações singulares – e no contexto atual da prática clínica, o diagnóstico diferencial pode ser utilizado sem perder de vista a solução singular de cada sujeito, seja nas neuroses ou nas psicoses.

A delicadeza de Ruth em não contrariar seu mestre é explícita em seus textos. De um lado suas ideias são originais e de outro, ela cuida para não se opor frontalmente à teoria de Freud. No entanto, é evidente que suas investigações apresentam nuances que se desviam de seu mestre e da abordagem clássica freudiana – Brunswick parece ter ousado ir além do pai sem prescindir dele, e assim se manteve como a preferida do pai da psicanálise.

No livro Escritos reunidos[2], organizado por Alexandre Socha, o autor afirma que Brunswick foi injustamente esquecida na psicanálise e entre seus pares, encerrando sua trajetória sem obter reconhecimento. Uma edição que lembra os nomes de mulheres psicanalistas que fizeram parte do começo da psicanálise é dar o devido lugar a elas na memória da psicanálise.

 


[1] LACAN, Jacques. Nos confins do Seminários; tradução Teresinha N. Meirelles do Prado; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. 1° ed. Rio de Janeiro: Zahar,2022.
[2] BRUNSWICK, Ruth Mack, 1897 -1946. Escritos reunidos/Ruth Mack Brunswick; organização e posfácio: Alexandre Socha; tradução Virgínia Ferreira da Costa. São Paulo: Quinoa Editora,2023.