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Sobre a XI Jornada da Clipp – Psicose Ordinária

5 e 6 de dezembro de 2008

A Clipp nos dias 5 e 6 de dezembro de 2008 realizou sua XI Jornada, que teve como tema a Psicose Ordinária.

A Jornada aconteceu em dois tempos: o primeiro, no dia 5, com uma Conversação entre os participantes da Seção Clínica da Clipp, alunos do Curso de Psicanálise, que é ministrado pela Clipp, bem como pelos integrantes dos Núcleos de Pesquisa- em Psicanálise e Medicina e em Clínica Psicanalítica.

Foram discutidos três casos, apresentados por Perpetua Medrado Gonçalves, Kátia Ribeiro e Edson Gusella Jr., que utilizaram o conceito de Psicose Ordinária para fazer o diagnóstico. Dois casos foram diagnosticados como Psicose Ordinária e o terceiro como Psicose Extraordinária. A debatedora convidada foi Maria do Carmo Dias Batista.

No dia 6 houve uma mesa redonda, aberta ao público em geral, com o tema: “Psicoses Ordinárias – uma hipótese em debate”, com psicanalistas de diversas orientações teóricas. Debatedores convidados:Alejandro Viviani, Cristina Ocariz, do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Durval Mazzei Nogueira, do Departamento de Psiquiatria do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e Sandra Grostein, da CLIPP, EBP e AMP, moderadora do debate.

O tema Psicose Ordinária tem sido discutido há tempos no campo Freudiano. A proposição desse conceito foi em 1998, na Convenção de Antibes, que assim como o Conciliábulo de Angers (1996) e aConversação de Arcachon (1997) puseram em discussão a prática clínica em relação às psicoses, que se desenvolvia nas Seções Clínicas da França e da Bélgica. Em Angers foram privilegiados os casos que apresentavam efeitos de surpresa, em Arcachon os casos raros, inclassificáveis e, em Antibes, os casos freqüentes, que foram publicados com o título de Psicose Ordinária.
A diretora geral da Clipp, Perpétua Medrado Gonçalves, ao fazer a apresentação do tema da Jornada, salientou que o conceito não está ainda devidamente estabelecido e que não existe um consenso em relação a ele; isto nos provoca para debatê-lo e não apenas com psicanalistas de orientação lacaniana.

Para fornecer subsídios ao debate foram apresentadas três novas propostas de conceitos, que fazem parte do que é chamado de Psicose Ordinária. Assim, o tema o Neodesencadeamento ficou a cargo de Sandra Grostein, a Neoconversão foi explanada por Carmen Silvia Cervelatti, e a Neotransferência foi desenvolvida por Maria do Carmo Dias Batista.

Na ocasião da XI Jornada, e para incrementar nossa pesquisa e o debate sobre Psicose Ordinária, solicitamos a alguns colegas da Escola Brasileira de Psicanálise que respondessem às seguintes questões:

1. Em sua prática clínica você usa o conceito de Psicose Ordinária?

2. Este conceito facilita/ajuda no diagnóstico e na condução do tratamento?

3. Que importância atribui a essa nova possibilidade de conceituação?

Transcrevemos as respostas recebidas e, com isso, esperamos deixar aberto o debate sobre esse tema complexo e tão atual.

Antonio Beneti
, EBP-MG, AMP:

“Três perguntas e três respostas:

1-      Sim.

2-      Pode facilitar, ajudar e atrapalhar.

3-      Não existe possibilidade de clínica psicanalítica contemporânea sem esse conceito.

Desenvolverei as respostas.

 

AS PSICOSES ORDINÁRIAS NA CLÍNICA CONTEMPORANEA
Antonio Beneti
02 de dezembro de 2008

O conceito da hora, no Campo freudiano, na Orientação lacaniana de Psicoses ordinárias é fundamental para a clínica psicanalítica contemporânea. Ele é produto do último ensino de Lacan, sustentado por 2 pilares: 1) todo mundo é louco, isto é , delirante e, 2) sinthome . Como proposições fundamentais para um exercício ético da psicanálise, na clinica, hoje.
Assim, mais além da clínica psicanalítica estruturalista lacaniana de ontem, descontinuísta,muito bem estabelecida em termos de categorias diagnósticas (Neurose/Psicose/Perversão) centrada no Nome-do-pai temos hoje uma clinica continuísta. centrada nos enlaces e desenlaces do Nó Borromeano. Lacan, em seu Seminário 23, nos diz: ”O de que se trata em psicanálise é de amarrações e desamarrações, enlaces e desenlaces.”

Ou seja, não se trata mais da clínica espetacular do analista silencioso até a mortificação, das interpretações e seus efeitos, luminosa, e, sim, de uma clínica no escuro, sem a visibilidade fenomenológica estrutural, tipo “só de bater o olho damos o diagnóstico”. Não, não se trata de darmos o diagnóstico a partir da “ponta de um Iceberg”, sempre “um visível ensurdecedor”, “dsm4iano” . Não, trata-se de mergulhar no escuro do nó, ele mesmo a base submersa do Iceberg. Não se trata aí de um superficial e um profundo. E, sim , das dimensões de uma estrutura de linguagem e uma estrutura topológica. E, de uma dimensão do olhar e da escuta analítica. E, de uma clínica do transtorno, “dsmiana” a uma clínica das posições subjetivas diante do real, dos enlaçamentos e desenlaçamentos do parlêtre. Trata-se de “sacar”, escutar, o sinthome de cada um, seu mais singular, que escapa ao laço social, eternamente semblante.

Aí entram as psicoses ordinárias, onde um registro, simbólico, funciona mal, desamarradas ou mal amarradas, no sentido de uma amarração não borromeana, extremamente singulares, fora do laço social ou no laço com ruídos ou pouco sintonizadas. Nada de espetáculos delirante-alucinatórios. Mas, um comportamento camaleônico, ora surdo, desligado, ora barulhento, com passagens ao ato com relação ao corpo do outro ou contra o próprio corpo, kakonianas (ou acontecimentos de corpo que lembram a dita hipocondria), às vezes efusivo, outras vezes melancólico, numa oscilação bipolar, maníaco depressiva e outras com angústia ou ansiedade excessiva próxima do pânico. Elas geralmente desorientam o analista em suas referencias teóricas clássicas e despertam uma angústia no analista diante de seu não saber levando-o a tentar “fechar um diagnóstico ràpidamente” como sedação de sua própria angústia.

O problema é que essa fenomenologia “iceberguiana” da ponta desde que escutada na sua base (as relações do sujeito com a falta no campo do Outro – sujeito da falta-a-ser – ou do sujeito com o gozo, com o corpo – parlêtre – sinthome ) pode elucidar um diagnóstico. De tal forma que podemos ter uma construção fantasmática histérica ou obsessiva ou encontrarmos sinais de uma forclusão localizada, com alucinação verbal ou interpretações delirantes por parte do sujeito. E, no afã do diagnóstico precoce recorre-se ao abuso quanto ao conceito de psicose ordinária classificando o sujeito enquanto tal. Aumentando “o balaio da psicose ordinária” tal como os americanos da psicologia do Ego tinham “o balaio do borderline” (enquanto uma estrutura de personalidade a partir da concepção de um desenvolvimento do Ego problemático). De repente tudo pode ser psicose ordinária…

Enfim, o melhor é: não importa a moldura do quadro, o que importa é o quadro e, é nele que temos de ler a psicose ordinária com seus enlaces e desenlaces na sua inscrição ou não no laço social . Sabendo que de fato, no contemporâneo elas freqüentam de tal forma e intensidade a clínica psicanalítica que sem esse conceito ficaríamos na perdição do diagnóstico estrutural (psicanalítico) ou no diagnóstico psiquiátrico “dsmiano4”.”

Elisa Alvarenga, EBP-MG, AMP:

“Eu utilizo, sim, o conceito de psicose ordinária, embora o faça muito no sentido em que Eric Laurent o utilizou uma vez, dizendo que é um programa de investigação. Ou seja, quando se percebe que estamos diante de uma estrutura psicótica, mas que ela não se enquadra nos diagnósticos clássicos de paranóia, esquizofrenia, mania ou melancolia, podemos recorrer ao diagnóstico de psicose ordinária.

Também no sentido utilizado por Jean-Pierre Deffieux para comentar um caso clínico que ele chamou, na Conversação de Arcachon, de “um caso não tão raro”. Ou seja, são casos em que, aquém dos fenômenos de linguagem – delírios e alucinações – que temos nas psicoses ditas extraordinárias, schreberianas, temos fenômenos a nível do corpo e da pulsão: uma pregnância do imaginário e uma ancoragem simbólica frágil, uma relação de estranheza entre o eu e o corpo, ou o exercício desenfreado da pulsão, desconectado de qualquer dialética discursiva.

São casos em que vê-se claramente a ausência de significação fálica e menos claramente a forclusão do Nome-do-Pai. O fenômeno de corpo no caso de Joyce seria um exemplo disso.

É certo que esse conceito ajuda no diagnóstico e na condução do tratamento, pois é diferente conduzir um caso de neurose e um caso de psicose, mesmo “ordinária”. As intervenções serão diferentes e terão efeitos distintos.

Considero essa nova possibilidade de conceituação um avanço, mas não dispensa de maneira alguma a conceituação estrutural, a inclui. Já aconteceu de darmos um diagnóstico de psicose ordinária e, investigando melhor, chegarmos ao diagnóstico de paranóia ou de esquizofrenia, que não era claro numa abordagem inicial.

Bem, desejo a vocês uma boa jornada.

Cordialmente,
Elisa”

Gloria Maron, EBP-RJ, AMP:
“Agradeço o convite de participar, através dessa modalidade de intervenção, da XI Jornada da CLIPP.
Segue minha resposta que espero poder assim contribuir um pouco para uma discussão que considero muito relevante para o nosso Campo.
Gostaria de ter acesso aos resultados da pesquisa que está em curso.

Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar que o uso desse conceito no debate clínico com psicanalistas de outras orientações, psiquiatras e psis de um modo mais amplo requer de nossa parte um posicionamento cuidadoso e rigoroso. O binário psicose ordinária X psicose extraordinária está referida a psicose clássica, desencadeada, como convencionamos adotar desde as Conversações Clínicas no Campo Freudiano. Faço esta consideração porque quando dou aula para residentes do Programa de Residência Integrada  e semanalmente dou supervisão para uma equipe da saúde mental, verifico que para o senso comum ou para aqueles do campo da saúde mental a psicose desencadeada e sua fenomenologia exuberante é a mais corriqueira e conseqüentemente não está associada ao “extraordinário”. Os significantes ordinário e extraordinário podem dar margem a mal entendido assim como outras categorias clínicas das classificações atuais referentes aos manuais psiquiátricos (CID ou DSM) podem gerar. Suponho que o mal entendido é antes de tudo efeito do real da clínica. Estamos sempre lidando com algo da ordem do inclassificável.

Tem sido então um desafio debater no campo da saúde mental o conceito de psicose ordinária, não desencadeada e demonstrar que muitos dos casos clínicos contemporâneos de difícil diagnóstico e que na psiquiatria é muitas vezes tomado como “borderline” e outras vezes, como “transtorno de personalidade” é para nós assimilada como psicose. Ou seja, é cotidiana e sofre as incidências das mutações na civilização contemporânea; é ordinária, não desencadeada, caracterizada por uma fenomenologia do gozo ou dos desligamentos sucessivos do laço social, enfim, dos desenganches ou desamarrações sintomáticas. A meu ver, não devemos recuar frente a esse debate.

Na minha prática clínica me apoio no conceito de psicose ordinária para auxiliar a investigar na clínica, como já me referi acima, modalidades de amarração sintomática que não se apóiam no discurso estabelecido e no senso comum, sintomas em que há prevalência do agir sobre o simbólico e casos clínicos em que prevalecem desligamentos sucessivos do Outro, manifestando precariedade de inventar modos de laço social.  Atribuo uma grande importância à referência às psicoses ordinárias como um meio de manter vivo na prática clínica o bom exercício do debate diagnóstico e a não acomodação às categorias pré-estabelecidas. A perspectiva psicanalítica de orientação lacaniana nos adverte quanto à relevância do detalhe particular do caso seja na neurose ou psicose e a psicose ordinária tem ajudado a implementar o exercício rigoroso da clínica. Em suma, para concluir, sustento que a arte do diagnóstico é sempre um eixo crucial que nos ajuda na condução do tratamento.

Glória Maron”

Marcelo Veras, EBP-BA, AMP:
“Obrigado pelas perguntas. Tentarei responder de modo simples, pois poderia dar um seminário sobre cada um dos itens e não chegar à conclusão definitiva.

1 – Sim, uso o conceito de psicose ordinária. Uso inclusive, talvez erroneamente, em duas acepções:

a)Psicoses não desencadeadas cujo diagnóstico foi feito após ficar evidente que não deveria conduzir um tratamento pela vertente do Nome-do-Pai, ou seja, de algum símbolo do universal

b)Em casos de psicoses que escaparam às malhas da Saúde Mental e ingressam no laço social sem grandes entraves. Tenho um exemplo de uma dona de casa que delirava que era…uma dona de casa. Passou anos em seu pequeno delírio sem q ninguém desconfiasse, apenas quando as filhas, muitos anos depois quiseram contratar uma empregada para dividir com ela o trabalho doméstico a psicose desencadeou.

2 – Para mim afeta, sobretudo, no que se refere à interpretação. Ele somente é viável após todos os desenvolvimentos sobre a clínica do sinthoma de Lacan.

3 – Acho fundamental os avanços sobre a Psicose Ordinária mas faço as seguintes ressalvas:

a)A primeira clínica de Lacan das psicoses não pode ser inviabilizada sobretudo pelo fato dela ser incrivelmente sólida. Ela é consistente, pragmática, minuciosa e permite dialogar com a psiquiatria oferecendo um contraponto fundamental ao entusiasmo das neurociências

b)A psicose ordinária ainda é um conceito que necessita maior consenso. Percebo que é muito tentador fazer um diagnóstico de Psicose ordinária sempre que há um impasse da cura. É preciso distinguir o que é um sujeito que não se vale do Nome-do-Pai para localização de seu gozo, criando para si uma invenção sinthomática daquele sujeito que, fruto da cultura contemporânea, faz do objeto o seu Nome-do-Pai. Confundir essas duas vertentes, a meu ver, poder ser desastroso na clínica.

Um abraço, Marcelo Veras”

Rômulo Ferreira da Silva, EBP-SP, AMP:
“Agradeço o convite para participar desta discussão. Primeiramente gostaria de dizer que esse termo, empregado por Jacques-Alain Miller na Conversação de Antibes, abriu um campo amplo de pesquisa no Campo Freudiano. Portanto, estamos todos em fase de pesquisa sobre o tema e os desdobramentos dele. Por isso mesmo é muito bem vinda essa jornada da Clipp.

O que me parece interessante marcar é que tratou-se de uma constatação, a partir das três conversações clínicas que ocorreram na França, que os casos em que há uma estrutura psicótica, porém que não se apresentam claramente assim,  são muito mais freqüentes do que pensávamos. Poder verificar na prática clínica, que sujeitos que antes ficavam no ‘limbo’ diagnóstico, ora funcionando como neuróticos, ora apresentando desligamentos de seu laço social, são psicóticos, define muitas vezes a direção do tratamento a ser seguida. Não precisamos de sinais objetivos e claros da psicose (alucinações e delírios). Trata-se de sinais ínfimos, discretos do desligamento do Outro. Em alguns casos trata-se mesmo de um nicho muito bem localizado no qual o sujeito não consegue manter sua articulação. Por exemplo, discutir a existência ou não de Deus.

Muitas vezes tive embates com colegas porque fazia diagnóstico de psicose em sujeitos nos quais esses colegas não concordavam. Cheguei mesmo a ser tachado de achar psicose em ‘todo lugar’. Você sabe que eu trabalhei durante muito tempo em instituições de saúde mental e que tenho um interesse especial por essa estrutura. Minha formação é psiquiátrica e tive bastante contato com a psicose. Havia, nesses casos de discordância, algo que era impreciso, discreto, que assumia às vezes um tom enigmático, suspeito e que os pacientes contornavam sem tocar no ponto. Quando insistia, aparecia algo mais estranho ainda, uma explosão de cólera, abandono do tratamento e mesmo o aparecimento de quadro depressivo, tipo melancolia. Meu guia neste sentido era o Seminário III, As psicoses, no qual Lacan trabalha fundamentalmente a pré-psicose, mas não apenas. Neste seminário há lições importantíssimas sobre a estrutura psicótica que não se apresenta como tal.

Hoje tenho muito mais clareza quando faço um diagnóstico de psicose sem que haja sintomas evidentes. Dizer que é uma estrutura psicótica argumentando que se trata de uma psicose ordinária, hoje,tem muito mais eco. Assim, de fato, facilitou minha vida.

Eu mantenho a idéia de que a psicose ordinária é este conjunto no qual Miller colocou toda sorte de psicose que se apresenta de forma modesta (ver pág. 201 da conversação de Antibes).

Foi isso que ele disse há mais de 10 anos e para mim faz muito sentido. Não acho que se trata simplesmente  de estabilização ou suplência. Acho que com o conceito de psicose ordinária é necessário avançarmos na pesquisa para pensarmos como, para alguns sujeitos a amarração RSI foi possível de ser feita, sem o Nome-do-Pai, de tal maneira que os efeitos da foraclusão não aparecem claramente. Quais são as condições para isso, se é que poderemos identificá-las.

Por exemplo, sabemos que a amarração RSI na neurose se dá de forma borromeana, sendo que um quarto nó é que faz essa amarração. Sabemos que esse quarto nó é o Nome-do-Pai na neurose.

Mas, se pensarmos que é possível fazer a amarração à 4, sendo o quarto nó um significante que não se trata do Nome-do-Pai, estaríamos diante de uma amarração muito parecida com a neurose, porém, continuando a ser psicose por não ter o Nome-do-Pai.

Não foi assim  que Lacan nos apresentou o caso Joyce. A amarração de Joyce leva em conta um erro no nó de três e que o quarto, o ego, vem manter os três registros juntos.

Enfim, muitas coisas por serem ainda estudas. Espero que tenham uma boa jornada e que estas mal articuladas idéias que te envio sirvam para instigar ainda mais a discussão.

Um abraço”