Kátia Ribeiro Nadeau (CLIPP)
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Se a psicose ordinária, aberta à investigação por Jacques Alain Miller, iluminou essa zona sombria dos casos inclassificáveis pela clínica estrutural, seus efeitos e consequências deslocaram a transferência e a posição do analista para o centro da direção do tratamento.

Psicose ordinária não é uma nova categoria clínica, mas uma fineza epistêmica que, por não apresentar desencadeamentos extraordinários, são casos que portam diferenças e sutilezas no campo das psicoses.

Sejam extraordinárias ou ordinárias, há índices da foraclusão: no caso dos índices mais “comuns”, mais “ordinários” e sutis, é sob transferência que podem ser localizados com todas as nuances e gradações, permitindo encontrar os efeitos da foraclusão.

Do secretário do alienado à inclusão do analista que será convocado no lugar do sintoma[1], a transferência visa interromper a metonímia infinita, lá onde não há interpretação, construção e atravessamento do fantasma. Sob transferência é seguirmos a orientação lacaniana: tratar o gozo do ser falante pela palavra.

Trata-se de pesquisar os modos pelos quais um sujeito inventa um “nó” com o imaginário, o simbólico e o real, sem o auxílio do Nome do Pai, transitando além do Pai em suas instabilidades.

A exemplo de Freud, que se vale do tempo lógico em sua aposta na antecipação fixada do final da análise comunicada no caso do Homem dos Lobos, colocando um ponto de basta artificial ao infinito que se apresentava. A importância que Freud atribuía ao fator temporal é localizada e seguida por Lacan, ao precisar que a sessão psicanalítica se realiza essencialmente no manejo deste fator[2], que caminha lado a lado com o fator epistêmico. Ao interromper a metonímia infinita em um trabalho que tentava desconsistir o pai, o corpo entra em resposta ao que não estava simbolizado.

A transferência exige igualmente algumas precisões,  sem a opção de ocupar o  lugar do sujeito suposto saber, ou do Ideal – um lugar possível ao analista será muito mais modesto, discreto, que testemunha como um semelhante, que pode manejar e ajudar na construção de uma ficção onde o gozo em excesso encontre uma direção que permita o enodamento entre o corpo, o gozo e a linguagem. E dócil ao se fazer destinatário dos signos daquilo que é o inominável do gozo, o que excede à significação.

Manejar a transferência via lalíngua implica situar Um significante que instaure uma ordem na cadeia significante, de forma que o significante opere  como esse Um que amarra e isola o gozo de maneira a não desagregar toda a cadeia significante[3].

Cabe ao analista saber ler de outro modo, na posição de um parceiro, analista sutil, para operar na Clínica do Sinthome[4].


[1] MILLER, J-A. Efeito de retorno à psicose ordinária. In: BAPTISTA, M. C. D.; LAIA, S. (Orgs.) A psicose ordinária: a Convenção de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum, 2012, p.206.
[2] MILLER, J-A. Aposta no passe. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018, p.41.
[3] LAURENT, É. La interpretación ordinária. in: Mediodicho – Revista anual de Psicanálise da Escola de Orientação Lacaniana – Seção Córdoba, n. 35 – Año 13, Córdoba, agosto 2009, p.40.
[4] LACAN, J. O seminário livro 25, O momento de concluir – lição 10 de janeiro de 1978 – inédito.