Marizilda Paulino (CLIPP/EBP/AMP)
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Embora o trauma não seja um termo específico da psicanálise, o trauma para a psicanálise pode ser pensado como uma vivência, uma experiência muito intensa que o psiquismo humano não consegue processar; uma experiência que supõe algo que ultrapassa radicalmente as defesas do indivíduo, que o remete a uma desproteção total, como consequência de uma impossibilidade de simbolização da experiência vivida.
Já em 1893 Freud falava em neuroses traumáticas – a causa da doença não seria um dano físico, mas o afeto oriundo do susto provocaria um trauma, um trauma psíquico. Temos, então, uma contingência, um acontecimento vivido pelo sujeito ao acaso, que faz nele uma marca que, ao ser reatualizada, traz sofrimento.
Freud associou o trauma à psicogênese da neurose, apontando para uma origem sexual do trauma: que poderia ser uma sedução real sofrida por uma criança imposta por um adulto, ou uma fantasia traumática de sedução relacionada à conflitiva edípica vivida pela criança. Ao estudar as neuroses de guerra, deparou-se com sonhos traumáticos repetitivos e, a partir de 1920, com o artigo Além do princípio do prazer[1], reconhece outra força atuando no psiquismo, a qual denominou pulsão de morte.
Em 1926, com Inibição, Sintoma e Angústia[2], sugere que a concepção traumática está ligada à ameaça de castração, que reatualizaria o trauma original ligado ao nascimento, protótipo da situação de desamparo e provocadora do trauma e sua consequente angústia.
Temos que, para Freud, o trauma tem dois tempos: um evento precoce, frequentemente na infância e que não foi compreendido; e um segundo evento no presente, que ressignifica o primeiro gerando o sintoma.
É importante salientar a questão da temporalidade do trauma. Para explicar essa temporalidade, Freud introduz o termo nachträglichkeit desde 1895, que, em português, se traduz como a posteriori ou só-depois, para explicar o trauma dentro da teoria da sedução. A memória da sedução adquire valor traumático não na hora do acontecimento, mas se torna traumática posteriormente, após a chegada da sexualidade na puberdade. O momento traumático em si é silencioso e recalcado, e só adquire um sentido sexual quando outro acontecimento evoca novamente o trauma.
Em seu estudo sobre o Homem dos Lobos – História de uma neurose infantil[3], escrito em 1914 e publicado oficialmente em 1918, Freud discute exaustivamente a questão do trauma provocado pela visão da cena primordial. Nesse artigo, ele faz uma análise detalhada de como a vivência do menino que tinha um ano e seis meses (visão da cena primordial) nesse momento, foi recalcada e pôde vir à tona anos depois (aos quatro-cinco anos), com o sonho dos lobos que ele viu pela janela de seu quarto.
Lacan, em 1957, ao apontar que o sonho segue as leis do significante, aproxima o trauma sexual ao incognoscível (o recalcado originário) e reforça a ideia do trauma enquanto estrutural.
No Seminário 11[4], Lacan aproxima o trauma à ideia do Real, seguindo Aristóteles nos conceitos de tiquê (como sendo o encontro com o real contingente) e automaton (a rede de significantes por meio da qual algo se repete). Assim, o trauma para Lacan seria algo impossível de nomear e que sempre retorna.
A dependência do sujeito ao significante, sua entrada no meio significante provoca-lhe o trauma, base de sua constituição e não um mero acidente.
Lacan cria um neologismo – troumatisme – para enfatizar que um furo no saber, a impossibilidade de integrar um acontecimento traumático com um significante, com a trama significante, faz com que essa vivência fique excluída de sentido, o que remete o sujeito a um buraco (trou) aberto em sua origem de ser falante (falasser).
Em A conferência de Genebra sobre o sintoma[5], em 1975, Lacan diz que o trauma implica o encontro entre a palavra e o corpo, pois o que está em jogo é a falta radical de significantes para abordar a experiência pulsional.
Lacan, portanto, desloca o trauma da ideia freudiana de um evento trágico específico (embora estes existam) para uma estrutura universal: o ser humano é traumatizado pela linguagem e pelo Real.
