Juliana Gayoso Franco de Toledo (Clipp)
julianagayoso@hotmail.com

 

Há nisso um certo paradoxo. Mas é um paradoxo

que Helene Deutsch sustenta através de

constatações da experiência, que chegam até a

preceitos técnicos. Relato-lhes aí os dados

da experiência de uma analista, que sem dúvida

alguma foram submetidos à escolha que ela fez

do material, mas nos quais, não obstante, vale a

pena nos determos[1].

 

A psicanálise tem Freud como seu fundador, criador deste método revolucionário de investigação e tratamento clínico, que permanece e resiste apesar dos acontecimentos e mutações próprias à história da humanidade, e Lacan que por sua vez, não deixou o pai morrer, e retornou à ele fazendo nova revolução a partir do que seria mais autêntico e subversivo da obra freudiana. Dois psicanalistas homens absolutamente interessados na teoria sexual, que tomaram a mulher inicialmente como enigma para ao final torná-la inexistente.

Porém é certo que as mulheres participam ativamente da construção psicanalítica desde o princípio até os dias atuais, lembrando que Freud tem na histeria um marco fundamental para o desenvolvimento da sua teoria, quando dá voz às mulheres a partir da escuta do seu sofrimento.

Estando a mulher no centro do estudo psicanalítico, ela também se tornou crucial no seu desenvolvimento, seja como paciente, analisante ou colaboradora intelectual, uma vez que Freud sempre esteve às voltas em relações profundas com as mulheres. Uma delas foi Helene Deutsch, uma psicanalista judia de origem polonesa, que segundo ela manteve com Freud uma relação complexa a partir do início de sua análise em 1918, inclusive designando-se em certo momento como sua filha e posteriormente, sua assistente, como Freud desejava.

Nessa época, Helene já era médica e psiquiatra, visto ter recebido, desde criança, educação diferenciada, o que não deixa dúvidas sobre seu pioneirismo e sendo alguém que já se destacava por ser fora do comum numa época em que as mulheres ainda eram minoria no ambiente científico.

Ela fundou junto com Freud e outros psicanalistas da época o Instituto Psicanalítico de Viena, que estava direcionado à formação e clínica, e suas contribuições foram sementes fundamentais para as investigações e pesquisas psicanalíticas sobre a feminilidade, pois tendo concentrado seu trabalho no departamento de atendimento às mulheres da Universidade de Viena, dedicou-se de forma importante ao estudo da psicologia feminina durante seu percurso.

Deutsch aprofundou seus conhecimentos psicanalíticos sempre apoiada em sua análise pessoal, e contribuiu diretamente para os avanços de Freud sobre a feminilidade. Em novas conferências introdutórias à Psicanálise é nominalmente citada:

Descobrimos algumas coisas sobre isso nos últimos tempos, devido à circunstância de várias das nossas excelentes colegas terem começado a trabalhar em torno dessa questão na análise(…) Sendo a mulher o tema, tomo a liberdade de mencionar o nome de algumas mulheres a quem essa investigação deve contribuições de relevo(…) Dra.Helene Deutsch mostrou que os atos amorosos das mulheres homossexuais reproduzem as relações mãe-filha[2].

Também no artigo com título original Über weibliche Sexualität (1931), Freud refere que as analistas mulheres, como Jeanne Lampl-de Groot e Helene Deutsch puderam perceber melhor questões relacionadas à primeira ligação com a mãe, o que para ele era difícil de apreender analiticamente, e isso se deve ao “auxílio da transferência para um substituto materno adequado”[3] nos trabalhos analíticos operados pelas mulheres. Também no estudo sobre a Sexualidade Feminina, Freud se serve do artigo Der feminine Masochismus und seine Beziehung zur Frigidität, onde Deutsch em 1930 analisa o complexo de Édipo da menina, e precisamente, a hostilidade relacionada à atividade fálica e a intensidade da ligação com a mãe, bem como a passagem para o pai pela via das tendências passivas. Em 1957-58 no Seminário 5, Lacan se pergunta “Que nos diz uma Helene Deutsch?”[4], a fim de levar em conta as formulações de uma analista experiente e “alguém que ponderava sobre seu ofício e sobre as consequências do que fazia”. E reconhece que, na leitura Deutschiana, a satisfação na mulher se apresenta de forma complexa, que vai além do pressuposto da posição masoquista constitutiva da posição feminina, e pode ser completa à partir da relação materna, incluindo todas as etapas que estabelecem a função de reprodução, tais como gestação e amamentação, sem a satisfação genital propriamente dita.

É possível concluir que Deutsch fez um percurso psicanalítico influente sobre a constituição do saber sobre o feminino. Segundo Fuentes, em seu livro As mulheres e seus nomes, Deutsch revela em sua autobiografia, Confrontations whith myself (1973), que toda sua produção psicanalítica deveria ser lida de forma autobiográfica, confessando aos 87 anos que durante toda sua produção “a psicanalista dava voz à analisante que, assim, podia falar de si mesma e prosseguir no trabalho de sua própria análise”[5]. Neste sentido, a autora refere que todo o seu esforço analítico apontou para sua própria questão subjetiva, a fim de elaborar e encontrar uma solução particular para o ser mulher.

Entre o enigma e a inexistência, Helene Deutsch, uma mulher, analista, presente!


[1] LACAN, J. O seminário, as formações do inconsciente, livro 5, Capítulo XVI, As insígnias do ideal, p.310.
[2] FREUD, S. Obras completas, volume 18, novas conferências introdutórias à psicanálise 1933, A feminilidade, pág 287, Companhia Das Letras
[3] FREUD, S. Obras completas, volume 18, Sobre a sexualidade feminina, 1931, pag 374, Companhia Das Letras.
[4] LACAN, J. O seminário, as formações do inconsciente, livro 5, Capítulo XVI, As insígnias do ideal, pág 310.
[5] Fuentes, M.J.S. As mulheres e seus nomes, Lacan e o feminino, Capítulo 6, pág 227.