
Editorial Revista Hades – Vol. 6 – N. 1 – abril de 2025 – www.clipp.org.br
Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri
Neste semestre o Curso de Psicanálise da CLIPP oferece o módulo sobre “O homem dos Lobos e os Inclassificáveis”, numa atualização da teoria freudiana através dos avanços realizados por Lacan, considerando ainda sua preocupação com a adaptação da clínica psicanalítica aos novos tempos, incluindo a questão dos gozos teorizados no chamado “último Lacan”, que enfatiza haver “gozo de linguagem se o sujeito tiver um corpo”.
Casos Inclassificáveis
Niraldo de Oliveira Santos (Clipp/EBP/AMP)
Na psiquiatria contemporânea, especialmente nos manuais como o DSM-5 e a CID-11, “inclassificável” designa, de modo pragmático, casos clínicos que não satisfazem plenamente os critérios diagnósticos estabelecidos, apresentam quadros híbridos ou atípicos ou evoluem de forma instável, escapando às categorias fixas. Nessa direção, um caso inclassificável aponta para um déficit provisório da nosografia, para um limite do sistema classificatório. Em consonância com a “medicina baseada em evidências”, um caso inclassificável deve ser absorvido em uma categoria com o avanço das pesquisas. Enquanto isso não se dá, eles são provisoriamente inseridos em categorias como “transtorno não especificado”, que funcionam como zonas de acomodação do que escapa.
Loucura e Psicose
Eliane Costa Dias (Clipp/EBP/AMP)
A clínica estrutural é decorrência do primeiro ensino de Lacan, momento em que, suposta a primazia do Simbólico como registro organizador da estruturação psíquica, a condição do sujeito (neurose, psicose, perversão) dependeria primordialmente do que se passava no campo do Outro.
Acontecimento de corpo
Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (CLIPP/EBP/AMP)
Na conferência Joyce, o Sintoma, Lacan diz: “Deixemos o sintoma no que ele é: um evento corporal”. Evento corporal, acontecimento de corpo, remete ao encontro acidental entre o corpo vivo e lalíngua; o sintoma enquanto acontecimento de corpo é produto do efeito de lalíngua. Como diz Laurent, o acontecimento é o que ocorre “numa dimensão de surpresa ou contingência, antes que se possa estabelecer os sentidos desses encontros”.
Transferência na psicose ordinária
Kátia Ribeiro Nadeau (Clipp)
Se a psicose ordinária, aberta à investigação por Jacques Alain Miller, iluminou essa zona sombria dos casos inclassificáveis pela clínica estrutural, seus efeitos e consequências deslocaram a transferência e a posição do analista para o centro da direção do tratamento.
Alucinação x Delírio
Carmen Silvia Cervelatti (Clipp/EBP/AMP)
Na psicopatologia, a alucinação, um fenômeno elementar, é uma alteração na função psíquica da percepção e o delírio no pensamento. Lacan descobriu que “o fenômeno elementar está estruturado e sua estrutura é a da linguagem, tal como a do delírio”. Portanto, há entre ambos [alucinação e delírio] uma comunidade de estrutura”. No psicótico eles advêm da falta de um significante fundamental, o Nome-do-Pai, que “corta pela raiz qualquer manifestação da ordem simbólica”, favorecendo a emergência de tais fenômenos. “O que foi foracluído retorna no real” porque o que foi expulso, permanece fora da possibilidade de qualquer simbolização, manifestando-se de forma errática.
Conceito de Iteração em Jacques- Alain Miller
Leny Magalhães Mrech (Clipp/EBP/AMP)
Um dos conceitos mais intrigantes e importantes trazidos por Jacques-Alain Miller é o de iteração. Geralmente, ele se contrapõe ao conceito de repetição (Wiederholung) em Freud – este diz respeito ao automatismo da repetição nos casos de neurose, em que o Outro aparece como figura estratégica, bem como apresentando também o mecanismo de recalque.
Externalidades
Rosângela Turim (Clipp)
Giolana Nunes (Clipp)
Miller aplica à clínica o conceito da economia das externalidades como efeitos colaterais de decisões sobre terceiros, para diferenciar de que modo sujeitos neuróticos ou psicóticos ordinários, experimentam a desordem que atinge a “junção mais íntima do sentimento de vida”. Isto nos orienta a prestar atenção aos pequenos indícios trazidos pelo sujeito, organizando-os, a partir de uma tripla externalidade (social, corporal e subjetiva), nos três registros.
Trauma
Marizilda Paulino (Clipp/EBP/AMP)
Embora o trauma não seja um termo específico da psicanálise, o trauma para a psicanálise pode ser pensado como uma vivência, uma experiência muito intensa que o psiquismo humano não consegue processar; uma experiência que supõe algo que ultrapassa radicalmente as defesas do indivíduo, que o remete a uma desproteção total, como consequência de uma impossibilidade de simbolização da experiência vivida.
(Não) extração do objeto a
Rodrigo Camargo (Clipp)
Numa nota de rodapé incluída em 1966 por ocasião da publicação dos Escritos, Lacan acrescentou em seu texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1958), acerca do Esquema R, que a não-extração do objeto pequeno a seria concomitante à “emergência do tudo-saber” na psicose.
Sobre o conceito de Suplência em Lacan
Perpétua Medrado Gonçalves (Clipp/EBP/AMP)
Lacan, fala de suplência em seu texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, onde define a psicose em referência à foraclusão do significante do Nome-do-Pai. A noção de suplência, nesse momento do seu ensino, é como um compensatório: “Ele mostra que para Schreber a figura do professor Flechsig não conseguiu preencher o vazio subitamente vislumbrado da Verwerfung inaugural”.

A Revista Hades é uma publicação mensal editada
pela Clínica de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise (Clipp).
ISSN: 3085-9492
