Claudio Ivan Bezerra (Clipp)
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De repente, no último verão (Joseph L. Mankiewicz, 1959) – IMDb
No primeiro capítulo do Seminário 8 – A Transferência[1] Lacan faz referência ao filme De repente, no último verão[2], momento em que trabalha a questão da intersubjetividade na relação analítica e a posição ética na condução do manejo transferencial.
No filme, a aristocrata Violet Venable (Katherine Hepburn) paga para um renomado neurocirurgião, Dr. John Cukrowicz (Montgomery Clift), fazer uma lobotomia em sua sobrinha Catherine Holly (Elizabeth Taylor), que está acometida por algumas supostas crises – na verdade, a Sra. Venable teme que Catherine revele a homossexualidade de seu filho Sebastian, assassinado na Espanha.
O Dr. Cukrowicz percebe que Catherine não é insana, mas está profundamente traumatizada. A jovem está sob coerção da tia, que tenta a todo custo prejudicar sua cognição por meio de uma intervenção cirúrgica. Com cautela, o médico passa a interrogá-la em busca da verdade. Ela faz um apelo, pede ajuda para recuperar sua memória e, com o acolhimento, ela o beija repentinamente.
A posição do psicanalista tem uma certa correspondência com o trabalho do Dr. Cukrowicz, na medida em que ocupa a função de um decifrador de enigma. No entanto, quando se trata da questão transferencial, o que está em jogo é o amor. Portanto, a natureza da transferência vai prender o objeto que falta ao sujeito, em sua subjetividade.
O que fez aflorar o amor na jovem?
A hipótese é que Catherine tenha ficado impactada com a intensidade da cor dos olhos, um azul que toca em algo da sua subjetividade. Assim, ela recorta este objeto precioso deste corpo por meio da sua fantasia e nos mostra sua função operativa: “Está me olhando de modo tão fixo. Está fazendo uma coisa estranha com os olhos, me sinto [sic] estranha.” Em cena, é feito um manejo alegórico que libera suas lembranças de todas as resistências, resolvendo o enigma da trama.
De acordo com Lacan, o que concerne à posição do analista exige um alto grau de sublimação libidinal, ou seja, não tomar o paciente como um objeto fantasmático, já que não se trata da subjetividade do analista.
Lacan ironiza, ao questionar, o quanto o encanto seria inconveniente para o tratamento analítico, junto do despertar do desejo pela via da sedução. É uma crítica endereçada à corrente dominante da Ego Psychology, que defendia uma aliança terapêutica intersubjetiva, fundada na empatia e na identificação ao “Eu” do analista[3].
Na crítica à questão da intersubjetividade, Lacan abre seu seminário com a proposta de investigar a estrutura do amor por meio da obra “O Banquete”[4]. Recolhe o ágalma da filosofia e produz um novo conceito, o de objeto precioso, misterioso e fascinante, que o neurótico supõe existir no Outro, e que funcionará como mola do amor no trabalho de transferência analítica.
Por fim, apenas Catherine tem acesso à intensidade da cor deste olhar “os olhos dele são tão azuis”, enquanto nós, espectadores, estamos diante de um filme em P&B.
