Alessandra Cunha Andrade Fabbri (Clipp)
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La Dolce Vita (Federico Fellini, 1960) – IMDb

 

La Dolce Vita, de Federico Fellini (1960), é um clássico da cinematografia italiana que retrata a vida no pós-guerra dos anos 50, determinada pelo expansionismo econômico nas sociedades em busca de reconstrução. Viver intensamente com realização espiritual total, este era o lema da época, nesses anos dourados de excessos na busca incessante de prazer e felicidade.

O elogio à transgressão foi muito explorado na literatura e nas artes por sua marca de estranho, excêntrico, excessivo – impulsionado pelo surrealismo como forma de expressão. O filme traz, a partir de uma leitura psicanalítica, a questão do desejo e do gozo em suas variadas formas frente ao Outro.

Na inesquecível cena na Fontana de Trevi, temos situada a mulher e seus objetos, ora do lado do Outro do desejo, ora a mulher do lado da mãe nas cenas que se seguem. Isso lembra que o desejo é uma metonímia da falta a ser, cujo destino é um constante deslizar na cadeia significante, própria ao inconsciente. Na estrutura do enredo do filme, o “corte” se faz notar nas cenas, após sucessivos encontros marcados pelo excesso que ultrapassavam os limites do prazer, como fazendo um reviramento para outra coisa, gerando inquietação e angústia.

O estranho, o desconcertante, o inquietante, diria Freud, Das Unheimliche [1], é onde se pode tocar a identidade do direito e do avesso, a Outra cena – trata-se do gozo. A palavra gozo estabelecida como conceito, se deu por volta dos anos 60 no Seminário 7 – A ética da psicanálise [2], aonde Lacan traz a relação entre significante e gozo – se antes o gozo era tratado pela via do imaginário e do simbólico, ele passa a ser pensado a partir do real.  E um dos nomes do real é o sexo, a morte e a mulher, representados no filme La dolce vita.

Freud se esmera em encontrar a presença das pulsões no organismo vivo. Para Lacan, a pulsão está ligada à vida sob a forma do corpo, corpo vivo, e o gozo é sempre da pulsão, que não se esgota no circuito pulsional – o objeto da pulsão no seminário 7 é a Coisa, Das Ding, de que fala Freud no “Projeto para uma Psicologia Científica”, e que fará Lacan dizer neste mesmo seminário:

Mas, digo-lhes de passagem, é preciso ser verdadeiramente um aluno de meu seminário, quero dizer alguém especialmente atento, para chegar a encontrar alguma coisa no espetáculo da Dolce Vita[3].

A coisa no registro do real é o Outro primordial, o objeto para sempre perdido, buscado sem nunca ser encontrado. Não é o objeto imaginário, não é o semelhante, não é um outro eu, como o é o objeto do amor. E só se acessa este gozo impossível pela via da transgressão, metaforizando o que, da estrutura o símbolo representa, pois o significante é a morte da coisa.

A dimensão libidinal do além do princípio do prazer, lugar do gozo, fica fora, proibido para o ser falante, no acesso ao gozo impossível – porém, mais do que interdição, trata-se de funcionamento.

O que quer dizer Das Ding, a coisa? Que a ordem simbólica, como também a relação imaginária, formam defesas contra o gozo da pulsão, esse real de Das Ding. Foi por ter chegado ao ponto extremo da redução significante da pulsão, que Lacan no Seminário 7 afirma que o desejo e seu significante, o falo – com todos os equívocos que passeiam entre recalcamento e recalcado –, não esgotam o conceito freudiano de Libido, passando assim da defesa para o recalque. O gozo estando na origem do sujeito, anterior ao significante, é preciso o recalque para produzir uma mudança, de tal sorte que o sujeito aparece como uma modificação mesma desse gozo pela via do recalcamento.

Lacan se serve da descoberta Freudiana para construir um conceito de pulsão articulado à linguagem, cujo impulso não é energia, mas gozo. Estando a pulsão destinada a ser o que retorna sempre no mesmo lugar, qual o destino da felicidade frente a esta exigência de satisfação, no confronto com a realidade?

Uma coisa no seminário 7, faz alusão a uma possibilidade feliz de satisfação da tendência, é a noção de sublimação como a realizada pela arte. Na definição da sublimação como satisfação sem recalque, há implícito ou explícito, passagem do não saber ao saber fazer [4].

 


[1] FREUD, S. O Infamiliar. Tradução de Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.
[2] LACAN, J. O Seminário, livro 7: A ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2ª. ed., 1959-60/1988.
[3] Idem, p.306.
[4] Idem, p.351-352.