Sonia Perazzolo (Clipp)
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A rega do jogo (Jean Renoir, 1939) – IMDb
Ano de 1939. No cenário geopolítico, o totalitarismo avança pela Europa. Em setembro desse ano eclode a segunda guerra. No cinema, os filmes E o vento levou e Mágico de Oz estreiam, causando enorme repercussão mundo afora, inclusive com relatos de que estes serviriam como recreação para as tropas.
Enquanto a Europa mergulhava no caos, apenas dois meses antes das Declarações de Guerra, um cineasta francês lançou ao público o filme A regra do Jogo (La Règle du Jeu). O filme dirigido por Jean Renoir, consistia numa crítica, uma sátira sobre a aristocracia e a burguesia francesa. Quando o filme foi lançado, a alta sociedade se revoltou, a ponto de o governo francês banir o filme. A proibição foi mantida e os originais foram destruídos nos bombardeios. Em 1950, os cinéfilos conseguiram restaurá-lo através de pedaços espalhados pelo país.
O filme retrata o colapso da sociedade, numa estrutura social que tentava manter “as regras do jogo” baseado na hipocrisia, enquanto se divertiam. Brincavam de caçar coelhos e faisões nos campos e com jogos amorosos de sedução e traições dentro do palácio. Todos traiam a todos, mas respeitavam a “regra” social.
Jacques Lacan, utilizou este filme como ilustração de alguns dos seus conceitos no Seminário 6 – O desejo e sua interpretação[1] – ele cita pela primeira vez a cena em que o Marquês de la Chesnaye recebe com tranquilidade a notícia de que sua esposa tem um amante (o aviador André Jurieu), mas fica desesperado com um parafuso que cai de sua máquina de música. Essa cena é introduzida no discurso para tratar do objeto a e o fantasma.
No Seminário 8 – A transferência [2], Lacan pontua:
Lembrem-se de que, para lhes definir o objeto a da fantasia, tomei o exemplo, em La Règle du Jeu, de Renoir, de Dalio mostrando seu pequeno autômato, e desse rubor feminino com o qual se afasta, após ter dirigido seu fenômeno. É na mesma dimensão que se desenrola essa confissão pública, conotada por não-sei-que vergonha da qual o próprio Alcibíades tem tanta consciência que a desenvolve ao falar[3].
Com essa citação, podemos entender que a máquina, esse complexo que toca músicas autonomamente, serve de tela protetora, permitindo ao sujeito se proteger através da ficção da “regra do jogo” social. O fantasma/fantasia organiza o mundo para que o desejo pareça sob controle. Porém, o objeto a é a mágica do movimento da máquina, a fascinação, aquilo que causa a atração capturada pelo olhar do outro.
Em relação ao rubor feminino, Lacan diz que lê o corar de um homem tão poderoso como o Marquês, como um afeto feminino de vergonha ao expor seu objeto de gozo. O personagem se afasta da cena correndo quando a engenhoca funciona. Com o exemplo do Marquês, Lacan vai compará-lo à confissão pública de Alcibíades, que, ao dizer que dormiu com Sócrates mas nada aconteceu, foi rejeitado, o que o deixou envergonhado. Dessa forma, para Lacan, o Marquês da cena e Alcebíades, fazem o mesmo gesto: exibem o desejo que os causa. Mostram seu fantasma, e desaparecem como sujeito.
O fantasma no filme é retratado pela festa, a música, o palco e pelo Marquês, enquanto anfitrião perfeito. Para a psicanálise lacaniana essa é uma moldura que sustenta e protege o sujeito frente ao grande Outro. O objeto a é a máquina autônoma articulada que ganha vida e expõe a intimidade do fascínio do Marquês. Isso demonstra a causa do desejo desnudada, isto é, o atravessamento do véu fantasmático.
Podemos concluir que o fantasma é uma ficção e, portanto, uma estrutura frágil, que tenta manter o gozo sob controle. E que o objeto a é o resto, o Real inassimilável, aquele que irrompe quando a regra falha.
