Márcia Rosa (EBP/AMP)
marciamariarosav@gmail.com
Em seu último comentário sobre a histeria, Lacan (1978) disse não estar certo de que a neurose histérica ainda existisse, embora não tivesse dúvidas sobre uma neurose que certamente existe, a neurose obsessiva. Se, com Freud, a neurose obsessiva é apenas um dialeto da histeria, indagamos: com as mudanças ocorridas no estatuto do amor ao pai tomado como armadura e no estatuto do Outro, a partir do qual a histérica fabrica suas identificações, diríamos que a histeria sobrevive atualmente apenas enquanto dialeto?
O dialeto é uma variante de uma língua oficial própria de determinadas comunidades e que, em princípio, existe simultaneamente à língua oficial. Com o dialeto, além do universal da língua, temos o particular da comunidade, seja, por exemplo, a comunidade dos sujeitos histéricos. Em que pese isso, dois outros termos poderiam ser acrescentados a esta série – o discurso histérico, que diz de um enlaçamento social ao Outro a partir de uma posição sintomática, e a lalangue, que diz do modo absolutamente singular de cada sujeito histérico. Teríamos, portanto, a língua, o dialeto, o discurso e a lalangue histéricos.
Que a histeria possa não existir mais no estatuto universal da língua classificatória e da nosologia não deixa de nos evocar Lacan e a sua proposta de uma linguisteria, ou seja, de uma língua que, ultrapassando qualquer pretensão de cientificidade, leve em conta o sujeito em suas particularidades. Lacan, ele próprio, introduziu variações na histeria enquanto tipo clínico sem, no entanto, chegar a dissolvê-lo. Ele o fez, por exemplo, ao formular um discurso histérico. Com esse discurso temos um operador clínico importante que nos permite interrogar os significantes-mestres e as (des)identificações de nossa época. Além dele, Lacan introduziu outras variações no campo da histeria, tal como a ‘histeria rígida’, uma histérica que vai sem o Outro, bem como uma ‘histeria perfeita’, com a qual unificou o inconsciente com o consciente e transformou a histérica, a histórica, em historisteria, reduzindo o inconsciente à sua unidade mínima, une-bévue (LACAN, 1976-1977), um equívoco: uma histeria sem sintomas, salvo de vez em quando um equívoco, uma troca de gêneros, dirá ele.
Na sua Conferência em Bruxelas no ano de 1977, Lacan indagou:
Por onde andarão as histéricas de outrora, essas mulheres maravilhosas, as Anna O., as Emmy von N.? Elas representavam não apenas um certo papel, mas um papel social certo. Quando Freud se pôs a escutá-las, foram elas que permitiram o nascimento da psicanálise. Foi a partir de sua escuta que Freud inaugurou um modo inteiramente novo na relação humana. O que substitui hoje estes sintomas histéricos de outrora? (LACAN, 1977/2007, p. 17).
Frente a essa pergunta de Lacan, evoco uma figura topológica para produzir o que diria ser uma metodologia tórica, ou seja, para passar e repassar algumas vezes por alguns pontos, gerando, com isso, algumas possíveis respostas para a pergunta formulada por Lacan. Mais do que produzir as melhores respostas ou as mais corretas, sejam elas clínicas ou teóricas, ou mesmo mais do que produzir um giro completo e final sobre a questão principal, o desafio da pesquisa de pós-doutorado que deu origem ao livro cujos recortes apresento aqui, – pesquisa realizada no decorrer de 2018 na Université de Paris 8 Vincennes-Saint Dennis, sob a orientação do prof. Dr. Fabian Fajnwaks –, esteve em poder abrir e seguir alguns caminhos na produção de respostas, na maioria das vezes sem saber aonde eles nos levariam ou mesmo correndo o risco de chegar e, muitas vezes chegando, em conclusões e achados inesperados ou mesmo indesejados. Em vista disso, arriscamo-nos a querer saber não apenas por aonde andarão as histéricas de outrora, mas também por onde andaram essas histéricas e como o seu encontro com a psicanálise repercutiu no rumo que suas vidas tomaram a partir daí.
No que se segue, apresento de modo sucinto algumas das respostas encontradas.
Das histéricas teatrais e seu resfriamento e enxugamento
Em um comentário feito no seminário De um discurso que não fosse do semblante, ao se referir à histeria, Lacan (1971/2009, p. 144) menciona o teatro: “(…) Não falo somente da histérica. Falo de algo que se exprime, vou lhes dizer como Freud, no mal-estar do teatro. Para que ele continue de pé, é preciso haver Brecht, não é?, que compreendeu que isso não podia sustentar-se sem uma certa distância, um certo esfriamento”.
Com isso, ele nos dá a pista para lermos os efeitos da entrada do analista na encenação teatral da histérica. Essa encenação encontrará, do lado do analista, certa distância e certo esfriamento. Se lermos os casos de Estudos sobre a histeria, principalmente aqueles de Anna O. e Emmy von N., vemos que isso – aqui denominado teatro – esquenta bastante. A tese de Lacan é a de que “(…) a entrada em cena, por mais claudicante que se faça, do Discurso do Analista. Bastou isso para que a histérica (…) renunciasse à clínica luxuriante com que mobiliava a hiância da relação sexual” (1971/2009, p. 144).
Enfim, em uma primeira resposta à pergunta ‘por que não temos mais a sintomatologia histérica clássica?’, diríamos: porque existem os analistas, os psiquiatras, os psicólogos etc., que com os seus tratamentos introduzem entre o sujeito histérico e seus sintomas certa distância e certo esfriamento.
As grandes histerias (Anna O. e Emmy von N.) relocalizadas no campo da psicose
Ao nos debruçarmos sobre os casos apresentados em Estudos sobre a histeria (FREUD, 1893-1895/1974), não poucas vezes encontramos entre os seus leitores uma diferenciação entre as histéricas apresentadas por Breuer e Freud, de tal modo que Anna O. e Emmy von N. são retomadas com o diagnóstico de psicose, enquanto que para Katharina, Elizabeth von R., Lucy R. e mesmo para Dora o diagnóstico de histeria é consensual. Com isso, a pergunta formulada por Lacan em 1977, na “Conferência de Bruxelas” – “Por onde andarão as histéricas de outrora?” –, encontra mais uma resposta: algumas daquelas histéricas andam atualmente sob o diagnóstico de psicose, mais especificamente de esquizofrenia.
Em “O tratado sobre as alucinações”, publicado em 1973, Henry Ey discute a reabsorção da histeria na categoria da esquizofrenia: “não ignorando a estrutura psicoplástica da histeria, suas formas antigas não desapareceram realmente, mas elas mudaram de nome e de campo”, diz ele, para concluir que “essa massa de fatos clínicos foi reabsorvida em muitos transtornos que os clínicos superficiais denominam psicose, esquizofrenia, etc.” (EY apud MALEVAL, 1981/2005, p. 293).
Que muitas das histéricas de outrora tenham mudado de categoria diagnóstica, isso nos coloca diante de uma discussão clínica, mas também epistêmica. Qual é o estatuto das classificações diagnósticas? Se nos referenciarmos ao Lacan estruturalista, essas categorias terão uma realidade ontológica, pré-existindo ao sujeito que será classificado. No entanto, a essas classificações, entre elas as de neurose e psicose, podemos também conferir o estatuto de semblantes, ou seja, de ficções conceituais com as quais tratamos o real.
No que toca a esta questão, dois aspectos que nos interessaram foram apresentados no livro publicado em 2018, Por onde andarão as histéricas de outrora?: um estudo lacaniano sobre as histerias: a discussão do diagnóstico diferencial dos casos de Emmy von N. e de Anna O. e a indagação sobre a possibilidade de reler a histeria a partir das formulações propiciadas pelo encontro de Lacan com a psicose de James Joyce, algo a partir do qual falaríamos de uma histeria sinthomática. Ao assim fazê-lo, amarramos duas das pontas extremas da psicanálise, a saber, os estudos sobre a histeria (FREUD, 1893-1895/1974) e as formulações lacanianas sobre a psicose sinthomática de James Joyce.
As pequenas histerias (Dora) e as “novas virilidades”
Deslocando-se das assim ditas grandes histerias para a histeria contemporânea, Marie-Hélène Brousse (2013) observa que a histérica contemporânea não precisa mais passar pelo homem para interrogar a posição feminina, tal como o fez Dora. Esse homem que esteve ali como testa de ferro, apenas para dar passagem a uma posição feminina idealizada, a histérica atual muitas vezes prescinde dele e verifica os enigmas do feminino abordando diretamente outra mulher. Sem fazer da homossexualidade uma identificação, essa escolha amorosa homossexual guarda, em muitos casos, os traços de uma idealização da feminilidade, ou seja, de um fascínio por um modo enigmático com o qual a feminilidade se encarna para uma Outra, e que ela não reconhece em si própria.
Para localizar essas escolhas homossexuais, Brousse evoca Lacan quando diz que as mulheres homossexuais amam o Outro sexo, sendo, portanto, hetero-orientadas (LACAN, 1973/2003, p. 467). Ao tecer um laço com essa mulher suposta Outra para elas mesmas, suposta poder lhes revelar o segredo da feminilidade, elas vão em direção a esse Outro sexo que as fascina e que elas amam. A essa posição da histérica contemporânea, que se faz de homem ela própria e aborda a mulher, Brousse se refere como uma “nova virilidade”. Em função do seu amor pelo pai, elas não têm acesso ao não-toda fálica e posicionam-se como mulheres que se autorizam a serem homens como os outros, na busca de um gozo que elas não alcançam.
Comentando brevemente o Caso Dora, temos que Lacan localiza o modo de gozo de Dora como tributário da pulsão oral. Aqui interessa lembrar que ela foi uma menina que chupou dedo até os seus quatro anos, o que lhe valeu o apelido, dado por seu pai, ‘a pequena chupadora’. A satisfação oral foi marcante na sua história clínica; no caso, o objeto que divide o sujeito, inclusive enquanto homem e mulher, é o objeto oral. Lacan mostra como, apesar de rastrear a trilha dos significantes orais importantes no caso – a afonia na presença a sós com a Sra. K, a tosse como traço identificatório ao pai, o cunnilingus do pai na Sra. K, etc. –, Freud não lhes dá a devida importância.
A relação de Dora com sua mãe, à qual tanto Freud quanto Lacan não deram importância, acabou se mostrando decisiva. A mãe de Dora casara-se com um homem sifilítico e, provavelmente pelo temor de ser contaminada, desenvolvera sintomas compulsivos de limpeza. Essa mãe deixou como herança para a filha preocupações excessivas com a limpeza, as quais se manifestaram como preocupação com a limpeza corporal. A queixa sobre os catarros vaginais a levou a fazer intervenções ginecológicas para limpar os fluxos vaginais; havia uma constante preocupação com a limpeza dos intestinos, pois padecia de uma constipação intestinal tal como a mãe. Algo no campo do gozo se transmitiu de mãe para filha, mas no caso da filha mostrou-se fatal: os sintomas de um câncer intestinal, tratados pela via das limpezas domésticas, fez com que o diagnóstico chegasse tarde demais. Dora morreu aos 63 anos, em Nova Iorque, onde morava com o filho.
Dos tempos do Outro para aqueles do Um-Sozinho: histeria rígida e a historisterização
Com a concepção do inconsciente pensado com a histeria nos anos 1950, temos o inconsciente enquanto história e o trabalho analítico como um trabalho de historicização. Se nesse primeiro tempo temos uma direção de tratamento que funciona no sentido da história e do amor à verdade, no final dos anos 1960 a histeria deixa de se apresentar apenas como um tipo clínico para dar nome a um discurso, Discurso da Histérica, que é também o discurso do analisante.
Começamos constatando que a histeria e os sintomas histéricos variam de acordo com a cultura, com a moda e, em especial, com a presença da psiquiatria e da psicanálise no horizonte de cada época. Isso ocorre, em princípio, porque a histérica não vai sem o seu Outro, seja esse Outro o psiquiatra, o psicanalista, o mestre, o pai etc. Portanto, as várias formas que esse Outro (que pode ser inclusive o discurso ou o movimento feminista) toma não são sem implicações e consequências no modo como a própria histeria se apresenta.
Já nos anos 70, Lacan (1975-1976/2007) se serve de um retrato feminista de Dora, traçado por Hélène Cixous (1975, 1976), uma manifestação da histeria que vem desacompanhado de seu Outro, de seu intérprete, e que segue só com seu traço de gozo que se reitera – ou seja, que se repete sem gerar com isso uma perda, o que seria próprio da repetição. A essa manifestação da histeria ele denominou ‘histeria rígida’ (p. 101), posto que é a iteração mesma dessa letra de gozo que manterá amarrados os três registros: Real, Simbólico e Imaginário. Ao se deslocar do Outro do significante, da fala e da escuta, Lacan traz aí, nos termos de Laurent, “o mínimo mas essencial: indo do sistema falante ao sintoma como escrita” (p. 2012/2013, s.p.).
Portanto, nos anos 1970, vemos uma desconstrução da articulação da histeria à cadeia das gerações trazida pela leitura edipiana. Surge uma concepção de inconsciente articulado a algo do gozo que insiste, tal como Dora insiste no seu traço de gozo oral. Esse gozo pontual, este S1, não necessariamente se encadeia produzindo história e reenviando às gerações. Lacan diz, no “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11” (1977/2003, p. 568), que ele convida o sujeito à historisterização, a historisterizar-se de si mesmo, ou seja, a ir mais além dos assuntos de família e a testemunhar sobre o modo como o significante ressoou no seu corpo abrindo aí trilhas de gozo.
Da rigidez ao sinthoma: arranjos do sujeito para além do pai[2]
É oportuno trazer aqui uma hipótese postulada pela pesquisa, a qual parte da ‘histeria rígida’ para aventar a hipótese de uma’ histeria sinthomática’. Para desdobrá-la, vou trazer a seguir uma resenha do livro feita por Christiane Matosinhos.
Se as histéricas clássicas apontavam para uma sintomatologia típica da regulação da pulsão pelo Nome-do-Pai, a histeria rígida apresenta-se pela prevalência de uma fenomenologia clinica corporal que prescinde do discurso orientado pelo amor ao pai e endereçado ao grande Outro, uma amarração que se faz em cadeia, na qual há uma apreensão do gozo e do sentido que não passa pelo Nome-do-Pai, pelo amor ao pai, pela identificação ao pai. Nela não há qualquer chamado à interpretação nem a possibilidade de sustentar-se na suposição de que o Nome-do-Pai teria algo a dizer acerca do caráter traumático da não relação sexual.
A hipótese desenvolvida na pesquisa aqui mencionada é a de que a histeria rígida nos abre possibilidades do entendimento dos sintomas contemporâneos ao toma-los de modo trans-estrutural. Vejamos:
“Com a discussão do que Lacan denominou “histeria material ou rígida”, encontramos a incidência doas recursos da clínica do sinthoma, formulada por Lacan a partir da psicose de Joyce, não apenas sobre a discussão diagnóstica – histeria e/ou psicose – mas também sobre a formulação da hipótese de uma histeria sinthomática. Com isso, a histeria rígida nos conduz do sintoma falado à escritura como sintoma e, mostrando-se trans-estrutural, nos leva à discussão sobre os fins de análise nos tempos atuais, nos quais as histéricas de outrora, as histéricas do tempo do Outro, cedem lugar às histéricas do tempo do Um.” (Rosa, 2018, p. 23).
Assim, através da noção de sinthoma em Lacan, Rosa (2019) nos apresenta o fenômeno da histeria enquanto histeria sinthomática. Essa leitura se decanta em algumas possibilidades de amarração que sustentam o sujeito, a saber, (1) a histeria sinthomática enquanto armadura do amor ao pai, (2) a histeria sinthomática enquanto arranjo do sujeito com um Nome-do-Pai e (3) a histeria sinthomática enquanto acontecimento de corpo, traço residual inanalisável de um fim de análise
Para examinar a primeira manifestação de uma histeria sinthomática, a referência é o seminário 24, L’insu que sait de l’une bevue s’aile a mourre, onde o sinthoma histérico encontra-se articulado à “armadura do amor ao pai”. O uso da palavra “armadura” indica aquilo que de modo singular, através da identificação ao falo, fica subentendido no amor ao pai, dá consistência e estabilidade ao sujeito histérico e ao seu corpo. A “armadura do amor ao pai” é o próprio sinthoma, o quarto elo que amarra os registros, dando armação ao corpo, respondendo ao lapso da estrutura, à não existência da relação sexual, não mais como estrutura mítica e edípica. Essa modalidade de amarração permite à histérica sustentar um semblante, uma mascarada, como véu da castração, que lhe permite encarnar um objeto de desejo para um homem, protegendo-a, no entanto, de ficar capturada como objeto de gozo. Nesse arranjo, Laurent (2013) nos diz que, ao estruturar seu corpo, sustentada no pai como defesa frente ao real do gozo feminino, o próprio corpo estaria sempre prestes a se desfazer.
Uma segunda manifestação de uma histeria sinthomática é aquela que se organiza através do enodamento com um Nome-do-Pai singular. Nesse sentido temos a retomada do caso de uma paciente de Marie-Helene Brousse, cujo pai não encarna sua função de tomar uma mulher como causa de desejo, não havendo ali nenhum desejo que humaniza o objeto feminino. Sabemos com Lacan (1975-76) que no Nome-do-Pai enquanto sinthoma, o pai já não é mais instaurado a partir da mãe, mas, sim, a partir de uma mulher que, ocupando o lugar de objeto, é particularizada pelo desejo de um homem. A nomeação que se encontra no quarto nó, o sinthoma, é definida pela pérè-version onde “um pai só tem direito ao respeito e ao amor, se estiver pere-versement orientado, i.é, se tiver feito de uma mulher, objeto a causa de seu desejo. (1975-76, p. 23) Assim, a nova definição lacaniana do pai extrapola a função simbólica e aponta para o real na medida em que surge referenciada ao objeto a, particularizando o seu desejo na forma de gozar com esse objeto. É o pai real que, ao tomar uma mulher como causa de seu desejo, transmite ao sujeito o enigma do gozo feminino e sobre o desejo e a possibilidade de construir um certo savoir-y-faire com o seu gozo, para além de uma articulação entre significante.
No caso apresentado por Brousse, a impossibilidade paterna de tomar uma mulher como causa de seu desejo, barra o acesso da filha ao recobrimento de seu próprio corpo por uma significação, uma nomeação. Em vista disso, a paciente sofre os efeitos forclusivos da intervenção paterna e apresenta algumas vivências alucinatórias visuais próximas da psicose. O encontro com a escrita é o que permitirá à jovem tomar para si um corpo capaz de ser nomeado, surgindo como suplência ao Nome-do-Pai, incapaz nesse caso de transmitir a ela um desejo que localizaria o feminino como causa de um desejo.
“A escrita contrabalança as visões que mobilizam a imagem de um corpo não-todo falicizado. As visões, sintomas e escrituras, sinthoma, complementam-se umas às outras. (…) As imagens são usadas a serviço da escrita, as visões são, nesse caso, uma apresentação daquilo que, no corpo, não foi simbolizado, e a escrita é uma tentativa de elevar esse ponto de não simbolização ao lugar de um nome. (Rosa, 2019, p. 58).
Por fim, uma terceira manifestação de uma histeria sinthomática como amarração em um final de análise, na qual o sujeito encontra seu ponto sinthomático como um “acontecimento de corpo”, um efeito residual do trabalho analítico com o sintoma, efeito de deslocamento do Outro ao Um. No fim de análise, esse resíduo é nomeado, localizado, dando-se a ele um nome de gozo. Nessa modalidade sinthomática residual:
“Não se trata da escuta dos significantes no discurso, mas da leitura do modo singular do gozo na reiteração. A interpretação toma a forma de uma constatação, esse Um que reitera funciona como uma constante capaz de indicar o gozo residual do sintoma que persiste. É o sintoma que nos introduz à instância da escritura, de uma outra escritura que não é a da palavra e que se manifesta na iteração de um acontecimento de gozo inesquecível que ressoou no corpo do falasser” (Rosa, 2019, p. 139).
Histerias contemporâneas: nos tempos do Um-sozinho, o Outro é o corpo
Para Laurent, é possível articular o comentário feito por Lacan de que “o inconsciente é a política” (LACAN apud LAURENT, 2015, s. p.) à proposta lacaniana de leitura do sintoma como um acontecimento de corpo. Isso se justificaria, inclusive, pelo fato de que, no mesmo momento em que afirma que o inconsciente é a política, Lacan redefine o Outro e, por conseguinte, o inconsciente, propondo que o Outro é o corpo. Como extrair consequências disso politicamente? Em que medida um fato ou acontecimento político toca o falasser na sua existência, no seu corpo? Nesse novo contexto, ultrapassamos a afirmação de que o inconsciente é a política do discurso do Outro e encontramos a possibilidade de pensar o inconsciente associado a um acontecimento de corpo, a uma política do sinthome. Opera-se aí um deslocamento que leva do campo do Outro, dos ideais, da ideologia, do inconsciente como verdade recalcada, ao sinthome como noção que implica a psicanálise naquilo que ela pode ter como ponto de chegada: a produção do mais singular que tem ressonância, que afeta cada corpo em sua existência.
Para discuti-lo, retomo o sociólogo Georg Simmel (1957/2014), em um artigo intitulado “O indivíduo e a liberdade”, no qual ele propõe duas vertentes políticas surgidas a partir do individualismo moderno identificadas com momentos distintos da modernidade. Para ele, duas revoluções individualistas surgem com a modernidade e elas dão lugar a dois tipos de individualismo: um que ele menciona ser um individualismo quantitativo, para o qual usa o termo singleness, e outro, um individualismo qualitativo, ao qual denomina uniqueness.[3]
Single, em inglês, quer dizer “um só”, “um único”, “solteiro”, “individual”. Teríamos aí o individualismo como uma posição que corresponde ao indivíduo como cidadão livre e autônomo, algo no estilo “todos iguais perante a lei”. Uma segunda revolução individualista dá lugar a outra concepção de individualismo para a qual Simmel usa o termo uniqueness. Portanto, não basta ser um cidadão livre, autônomo, com direitos iguais; mais do que isso, interessa ser único, ter um traço, um elemento que marque a diferença com o “todos iguais”, “todos livres”, com o “todos” de uma suposta homogeneidade e universalidade. O individualismo do uniqueness diz respeito à excepcionalidade e à singularidade do indivíduo moderno, posto que o termo unique diz de algo único, ímpar, sem paralelo, exclusivo, raro, singular. Com isso, o sujeito moderno se transforma em um indivíduo livre, mas também e, ao mesmo tempo, singular e insubstituível.
Impossível não vermos que a análise desses dois individualismos é interessante para que possamos pensar a própria psicanálise. Nossa hipótese é que podemos nos servir dessas duas categorias de individualismo – singleness e uniqueness – para pensar a psicanálise e a política. Uma política do singleness seria uma política do S1, e uma política do uniqueness seria uma política do Un tout seul, do Um absolutamente só, uma política do sinthome, na qual opera aquilo que o sujeito tem de mais singular.
Portanto, os acontecimentos políticos afetam os sujeitos em seus traços de identificação a uma comunidade. No entanto, esses acontecimentos também os afetam em seus corpos de modo absolutamente singular. Tomados a partir do traço (S1) que os identifica e os coletiviza (S1→S2), os sujeitos seriam considerados apenas no contexto político da singleness. Entretanto, eles surgem mais-além dos seus traços identificatórios e mostram-se em suas respostas singulares aos acontecimentos políticos que os afetam. Nessas suas respostas sinthomáticas, seus corpos não deixam de estarem implicados.
Posto isso, gostaria de finalizar mencionando a função social e política da histeria tendo no horizonte a singleness e a uniqueness, em outros termos, tendo no horizonte a distinção entre uma política do S1 e uma política do sinthome. Para tal, retomo o testemunho político de Florencia Lance, uma jovem argentina que veio a público confessar como concluiu, só muito recentemente, ser filha de um dos aviadores do Exército argentino, portanto, filha de um pai responsável pelos voos da morte no campo de Maio por ocasião da ditadura argentina. Em uma escrita testemunhal comovente, ela nos mostra como a descoberta lenta e progressiva dessa verdade histórica lhe permitiu, finalmente, ler as suas náuseas como um acontecimento no seu próprio corpo de algo que circulava no contexto familiar, sem ser enunciado. Do mesmo modo, com a descoberta tardia das atividades clandestinas do pai, ela conseguiu, finalmente, entender a explicação que lhe dera a mãe, muitos anos antes, por ter se separado dele: ela, mãe, em cujo corpo algo também acontecera, lhe dissera na época sentir asco pelo cheiro do corpo do marido, não poder tocá-lo, não poder estar com ele (LANCE, 2018). Com isso, os acontecimentos da ditadura argentina são pensáveis em termos de uma política regida por alguns S1, mas o modo absolutamente singular como esse acontecimento político se inscreveu no corpo da mãe e da filha diz de suas singularidades, do modo sinthomático como esse encontro traumático com o real lhes afetou os corpos.
Ao ser tomado como um acontecimento político, fortemente ideológico sem dúvida, a ditadura argentina ultrapassa o seu registro enquanto fato político coletivo e se singulariza em inscrições que repercutem no corpo de cada falasser de modo unique. Ao perguntar de que modo o corpo, afetado singularmente pelo acontecimento político, retorna ao campo político as consequências de sua afetação, indagamos sobre as implicações políticas que o sujeito escolhe dar, ou não, àquilo que lhe afetou o corpo. No caso mencionado, perguntaríamos de que modo o testemunho de Florencia Lance contribui para manter vivo na memória o “holocausto” argentino. Nesse caso, creio ser possível postular que a posição sinthomática repercute no campo político na medida em que o sujeito faz laço social a partir daí, e que, sendo assim, ela não é sem consequência!
Quando o Outro é o corpo, cada um é afetado na sua existência; quando o Outro é o corpo, e não mais algo simplesmente do campo das ideologias ou das políticas identitárias, que reafirmam algo de uma essência, torna-se possível e necessário levar em conta também as respostas singulares. Em vista disso, cabe à psicanálise ir mais além das políticas regidas pela singleness mantendo em pauta políticas orientadas pela uniqueness, isto é, pelo sinthoma.
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