Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (Clipp/EBP/AMP)
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O império dos sentidos (Nagisa Oshima, 1976) – IMDb
O Império dos Sentidos (L’Empire des sens/Ai no korida, França/Japão, 1976), de Nagisa Oshima (1932-2013), provocou escândalo ao ser apresentado no Festival de Cannes em 1976 – na época considerado pornográfico, hoje é encarado como cult. Um dos filmes mais crus do cinema de arte com cenas de sexo explícito, não simulado, originou debates em relação aos limites entre expressão artística e pornografia.
Inicialmente proscrito na Alemanha, teve cópias apreendidas nos EUA e barreiras na Europa; no Japão foi exibido com tarjas pretas ocultando os atos e órgãos sexuais dos atores. Censurado pela Ditadura Militar no Brasil, foi liberado quatro anos depois do lançamento, para projeção apenas em salas especiais.
Oshima, ao que parece, escolheu o título do filme num paralelo com O Império dos Signos (1970) de Roland Barthes (1915-1980) que figurava o Japão como um lugar onde o significado profundo deixaria de existir, cedendo à pura beleza das superfícies. Oshima contrasta signes (signos) de Barthes a sens (sentido).
O filme narra uma história inspirada em um caso real ocorrido em 1936, paixão entre uma prostituta e seu amante. Amor obsessivo, paixão que ultrapassa limites na busca do prazer: os amantes tinham um apetite sexual interminável, passavam semanas copulando e bebendo saquê, sem sair do quarto.
Lacan, no Seminário 23 – O Sinthoma, afirma ter ficado “embasbacado” com esse filme, por não esperar ver retratado num filme japonês o erotismo feminino “comecei então a compreender o poder das japonesas” [1].
Parece que nele o erotismo feminino foi levado ao extremo, e esse extremo é a fantasia, nem mais, nem menos, de matar o homem. Mas mesmo isso não basta. Depois de tê-lo matado, vai-se mais longe. Depois – por que depois? Eis a dúvida – a japonesa em questão (…) corta o pau de seu parceiro[2]
É uma fantasia, mas
vemos claramente que a castração não é fantasia”/ “Quanto ao que fantasia a mulher, se é mesmo isso que nos foi apresentado pelo filme, é alguma coisa que, de todo modo, impede o encontro[3]
Numa referência às tábuas da sexuação apresentadas no Seminário 20[4], Lacan reafirma a impossibilidade da relação sexual, quando o que cada um dos parceiros visa é o gozo do Um: o homem faz “amor com seu inconsciente” e liga-se à mulher através de sua fantasia; o Ⱥ (grande Outro barrado) a mulher que não existe, busca o falo no campo do outro, ligando-se, em seu próprio campo ao S(Ⱥ), o significante de que não há Outro do Outro.
(…) S(Ⱥ) (S de A barrado) é uma coisa bem diferente de Ф (Grande phi). Não é com isso que o homem faz amor (…) ele faz amor com seu inconsciente e mais nada [5]
O gozo fálico, masculino, auto erótico, se produz fora do corpo, isto é, no ponto de exceção. O gozo do Outro, místico, feminino, não está fora do corpo, produz-se no corpo, mas este corpo não faz todo, não tem unidade. No caso do gozo fálico masculino, “o homem como um todo está submetido à castração”[6], o que, de algum modo, o faz todo. No caso feminino, o Outro barrado está não-todo submetido ao gozo fálico, portanto, é um gozo que vai ao infinito, no sentido de escapar à regulação fálica – pelo menos uma parte dele.
No homem (ou no lado esquerdo das fórmulas da sexuação), o gozo tem sempre algo de limitado, circunscrito, localizável e assume a forma fetichista. Do lado feminino (ou no lado direito das fórmulas da sexuação) há um ilimitado do gozo, o que mostra o papel central que desempenha a demanda de amor no feminino: o caráter absoluto com uma visada ao infinito que assume a forma erotomaníaca.
Uma mulher se faz fetichizar, sintomatizar, se velar, se mascarar e acentuar o seu semblante – do seu gozo, ela nada sabe. O homem fetichiza a mulher, ao preço de se eclipsar na sua própria fantasia.
Lacan afirma, ainda a propósito do “Império dos Sentidos” que,
A mulher não existe, e tenho cada vez mais razões para crer nisso, sobretudo depois de ter visto esse filme[7]
Miller observa, no encerramento do “IX Congresso da AMP” (Paris, 2014), que Freud inventa a psicanálise na época vitoriana, a partir do que escapava à repressão da sexualidade; no século XXI temos o espetáculo da sexualidade sem véus; mais do que passar da interdição à permissão, tem-se incitação, forçamento.
O filme O Império dos Sentidos mostra de maneira crua, o que pode ocorrer quando a barreira da linguagem cai; os sujeitos estão de frente com o Real. O Simbólico representa a lei, as regras sociais, a linguagem; os personagens rompem com as regras sociais e morais e, à medida que o filme avança, os diálogos dão lugar a gemidos e silêncios, quando a linguagem não mais se interpõe entre eles. O Real escapa à linguagem e sem a barreira do Simbólico, o casal tenta chegar ao gozo absoluto: castração e morte se aproximam, como nacos, do Real.
O Imaginário aparece nas fantasias de fusão e completude narcísica dos amantes, que se trancam num quarto, na ilusão da inexistência do mundo exterior.
O ato final do filme — em que a protagonista castra e mata o parceiro no ápice do ato sexual — exemplifica esse encontro absoluto com o real do gozo, onde amor e morte se fundem.
