Katia Ribeiro Nadeau (Clipp)
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Nesta edição, a revista HADES traz referências do cinema, mencionadas por Jacques Lacan em sua obra. Como a obra de arte antecede à psicanálise, temos os recortes e olhares de nossos autores, onde estilo e escrita se presentificam nos esforços em transmitir a arte do cinema como inspiração à psicanálise de orientação lacaniana. Assim como Lacan, que articulou cinema e psicanálise em algumas de suas mais belas elaborações, seguem nossos esforços com a escrita nesses traços ensinantes, provenientes das articulações e interlocução das referências da teoria lacaniana com o cinema.
Bernadette toma, a partir do Seminário 23 de Lacan, o erotismo feminino levado ao extremo tão fortemente retratado no filme O império dos sentidos, onde a fantasia posta em ato articula a impossibilidade da relação sexual frente ao gozo do Um. O filme aborda conceitos lacanianos do último ensino, ou seja, do gozo fálico ao gozo do Um, o feminino e sua ilimitada demanda de amor em seu caráter erotomaníaco. Lacan dirá convicto após assistir ao filme, que “A mulher não existe”.
João Paulo nos convida a imaginar Jaques Lacan na plateia da exibição do filme Él, de Buñuel (O alucinado, 1952), muito impressionado com a exatidão clínica na representação da paranoia. É nesse enquadre que João discorre sobre o tema do ciúme delirante e da psicose, com uma construção precisa e rigorosa do delírio paranoico, que Lacan investigava à época, em suas relações com as leis do significante.
Cláudio escreve sobre o filme De repente no último verão, que Lacan cita no seminário sobre a transferência: o enredo coloca o amor em jogo, ao localizar pela via do objeto olhar, os impactos na personagem. Ele faz um recorte de conceitos trabalhados por Lacan neste filme, como o amor, a sedução e a sublimação libidinal que a posição do analista exige.
Vera faz referência ao filme Hiroshima, meu amor, retomando a questão de Lacan sobre o luto em sua relação do sujeito com o objeto, seguindo a pista de como opera o luto, via sustentação e inclusão da perda.
Alessandra apresenta o filme La dolce vita como um elogio à excentricidade, impulsionada pela marca do surrealismo. O filme traz ainda uma leitura psicanalítica sobre o desejo e o gozo, onde o “estranho” se presentifica na “Outra cena”, nas estranhas articulações do registro do real em suas conexões com o sexo, a morte e a mulher.
Noemi a partir do filme Um cão andaluz coloca suas luzes sobre a subversão lacaniana em relação à ordem kantiana, no seminário sobre a identificação, citando a aparição mais radical do objeto como uma espécie de “peso” real que o sujeito carrega nas costas. O objeto olhar entra em cena pelo Seminário 11, onde Lacan demonstra como se dá o desencontro entre o olho e o olhar.
Melissa parte do percurso que Lacan faz no filme Satyricon, de Fellini, recorrendo ao personagem Trimálquio, ex-escravo que compra sua liberdade e enriquece; o personagem em pauta ilustra as questões que preocupavam Lacan, no momento em que estava às voltas com a formalização e conceitualização, da passagem do discurso do mestre para o discurso capitalista.
Márcia realça do filme A janela indiscreta de Hitchcock, o modo como a pulsão escópica mobiliza a audiência: o Olhar que, com o Olhar do Outro faz borda a um gozo que se constitui pelo ver e ser visto. O corpo imobilizado, devido às pernas engessadas do personagem, desloca a libido para o olhar e para o vazio do inconsciente.
Sônia aborda o filme A regra do jogo como uma crítica pela via da sátira, o tema do colapso da sociedade francesa. Lacan faz referência a este filme no Seminário 6 sobre “O desejo e sua interpretação”, para conceituar o objeto da fantasia que – assim como no filme – falha em enquadrar o inassimilável do gozo.
Que este trabalho de ler como o objeto olhar, pelos olhos de Lacan iluminou o cinema, em sua interlocução com a psicanálise de orientação lacaniana, inspirem aqui seus leitores!
