Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (Clipp/EBP/AMP)
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A revista HADES publica, com muita satisfação, o texto da conferência da colega da Seção Minas Gerais, Márcia Rosa, que abriu as atividades da Clipp no segundo semestre de 2026. Seguindo este texto relevante e significativo para a comunidade analítica, temos o comentário, feito na ocasião, por Rosângela Carboni Castro Turim.

Face à pergunta de Lacan “Por onde andarão as histéricas de outrora”, Márcia Rosa elabora seu argumento afirmando que o desaparecimento da “sintomatologia histérica clássica” ocorre por existirem analistas, psiquiatras, psicólogos que, por meio de seus tratamentos, estabelecem certa distância e certo esfriamento entre o sujeito histérico e seus sintomas, resultando em uma transformação e atualização dos mesmos. Mas a esta pergunta ela adiciona mais uma resposta: algumas das histéricas de outrora recebem agora o diagnóstico de psicose, especialmente de esquizofrenia.

A histeria e os sintomas histéricos variam de acordo com a cultura e as tendências sociais: a histérica não caminha sem o Outro, seja ele psiquiatra, psicanalista, mestre, pai – as formas várias que esse Outro assume repercute no modo como a histeria se apresenta. 

Citando Marie-Hélène Brousse, Márcia observa que a histérica contemporânea não precisa mais da validação de um homem para interrogar a posição feminina: a histérica na atualidade, na busca de encarar os enigmas do feminino, aborda outra mulher, observa os aspectos de uma feminilidade idealizada que se encarna numa Outra e que ela não reconhece nela mesma. 

Nos anos 70, Lacan discute uma manifestação da histeria desacompanhada do Outro, histeria que segue com seu traço de gozo que se reitera, que se repete sem causar, no entanto, uma perda: “histeria rígida”, iteração da letra de gozo que mantém amarrados os três registros: Real, Simbólico e Imaginário.

Enquanto as histéricas clássicas apontavam para uma sintomatologia típica da regulação da pulsão através do Nome-do-Pai, a “histeria rígida” apresenta-se não orientada por um discurso de amor ao pai e endereçado ao grande Outro: uma amarração ocorre em cadeia, onde há uma apreensão do gozo e do sentido, sem invocar qualquer interpretação. 

Destaca-se particularmente a articulação que Márcia Rosa faz com Laurent, sobre o comentário de Lacan de que “o inconsciente é a política” e a proposta de leitura do sintoma como acontecimento de corpo. Ao afirmar que o inconsciente é a política, Lacan reconfigura o Outro e o inconsciente, propondo o corpo como Outro.

Pensar a possibilidade de o inconsciente associado a um acontecimento de corpo, a uma política do sinthoma, leva a verificar que há um deslocamento que transita do campo do Outro, dos ideais, do inconsciente como verdade recalcada, para o sinthoma enquanto noção que implica a psicanálise, na produção do mais singular que afeta e que ressoa em cada corpo.

Os eventos políticos afetam os sujeitos e afetam seus corpos de modo absolutamente singular que, para além dos traços identificatórios, exibem respostas singulares aos acontecimentos políticos que os rodeiam, respostas sinthomaticas que implicam os corpos dos falasseres. Foi o que os psicanalistas ouviram em seus consultórios, com os acontecimentos ocorridos ao redor das últimas eleições em nosso País. 

A posição sinthomatica repercute no campo político, na medida em que o sujeito estabelece laços sociais a partir deste campo; quando o Outro é o corpo, cada um é afetado em sua existência, o que torna possível e necessário considerar as respostas singulares e as políticas orientadas pelo sinthoma. 

Não esqueçamos a recomendação de Lacan: “que antes renuncie a isso (a prática da psicanálise), portanto, quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”1.

 

1.  LACAN, J. “Função e Campo da Fala e da Linguagem”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998, p. 322.