Melissa Ágda da Silva
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Satyricon (Federico Fellini, 1969) – IMDb
Se quisesse dar-lhes material para devanear sobre onde se esboça esse processo cujo estatuto é nossa ciência, eu lhes diria […] que se divirtam com Satyricon. […] é um bom exemplo para estabelecer a diferença entre o senhor e o rico.[1]
Desde Freud, a arte é colocada como cara à psicanálise, pois ele reconhece nas produções artísticas um saber próximo ao da psicanálise. Lacan, retomando Freud, segue essa orientação e, ao longo de seu ensino, recorre reiteradamente às contribuições artísticas como um indicativo do saber-fazer que interessa à experiência psicanalítica. Entre essas contribuições, encontram-se diversas referências ao cinema, dentre as quais o filme Satyricon[2], de Federico Fellini.
Lançado em 1969, Satyricon é um filme italiano inspirado no romance homônimo de Petrônio, autor romano do século I d.C. A narrativa acompanha, em episódios fragmentários, Encólpio e Ascilto em seus infortúnios numa Roma pré-cristã, marcada pela decadência, pela violência e pela heterogeneidade cultural. Entre os acontecimentos que atravessam a narrativa está o sacrilégio cometido pelos protagonistas contra os rituais do deus Príapo, ao qual se associa a punição da impotência de Encólpio e que contribui para impulsionar a errância dos personagens.
A estética cinematográfica de Fellini é especialmente interessante para a análise do filme. O diretor constrói cenários compostos por imensos muros, conferindo à narrativa um aspecto simultaneamente claustrofóbico e teatral. A construção espacial contribui para ilustrar uma Roma fragmentada. Essa fragmentação também se evidencia na dimensão sonora. Para compor a heterogeneidade do Império Romano – marcado, no filme, pela imigração, pela mistura cultural e pela devassidão –, Fellini utiliza uma sonoplastia caótica multilíngue, na qual se misturam diferentes dialetos e línguas, incluindo o latim recitado por padres alemães. A isso se soma o recurso à dublagem intencionalmente descompassada em relação aos corpos dos atores, o que produz uma disjunção entre corpo e voz.
Em 1970, ao estabelecer a estrutura do campo lacaniano, Lacan nos convida a “devanear” com Satiricon, o romance de Petrônio, e nos divertir com Satyricon de Fellini. Essa recomendação não é despretensiosa, mas sim um convite a tomá-los como instrumento para pensar a clínica.
No romance[3] e na adaptação cinematográfica, encontramos a figura de Trimálquio, ex-escravo que comprou a liberdade e enriqueceu. Lacan recorre a essa figura para ilustrar aquilo que buscava formalizar: a passagem do senhor (discurso do mestre) para o rico (discurso capitalista).
O senhor é aquele que prima pelo poder e pela ordem; ele comanda, mas não possui o saber-fazer que sustenta sua posição. O senhor não é senhor de tudo; em seu ato de ordenar, uma perda se configura, um resto se institui, ele paga com sua falta.
O rico, por sua vez, é aquele que se sustenta pela propriedade; sua riqueza está ligada à possibilidade de dispor de objetos, de acumulá-los. Ele é aquele que compra, mas não paga. É justamente isto que constatamos escancaradamente na figura de Trimálquio, que ostenta sua riqueza oferecendo banquetes suntuosos e comprando a companhia e a admiração de seus convidados.
Essa é a lógica engendrada no discurso capitalista; ele tende a eliminar a barreira do gozo. Nele, a dimensão da impossibilidade, da impotência e da perda é recusada em favor de continuum de gozo que visa a recuperação de mais-de-gozar. O rico rechaça a castração; ele é um sujeito que não deixa cair o objeto, acreditando-se completo, na medida em que passa a comandar a própria extração de mais-de-gozar, na maneira de absorvê-la na economia de gozo.
Na contemporaneidade, nós, enquanto analistas em nossa clínica, nos deparamos com as mais diversas formas de retorno da castração foracluída pelo discurso capitalista, em que há uma generalização da falta-a-gozar e, concomitantemente, um empuxo ao gozo-do-ter. Observamos esse retorno nas queixas de insatisfação, na frustração, nos estados depressivos, nas auto exigências, nas auto acusações de incompetência e nas ações de evitação de relacionar-se amorosamente. Encontramos ainda, nos sujeitos, cujo sintoma está determinado no lado de uma articulação de gozo, mais do que uma questão relacionada ao desejo, o que pode caracterizar uma deflação do desejo[4].
Esses sujeitos estão situados em uma condição de dejeto, em posição articulada ao objeto a, na medida em que o discurso capitalista os empurra nessa direção, já que “cada indivíduo é um proletário e que não há nenhum discurso com o qual fazer laço social”[5].
Nesta clínica, que nos coloca diante de fenômenos nos quais não há prevalência de ponto de basta, não há metáfora, mas sim arranjos capengas com o moto-contínuo da circulação de gozo, onde as compulsões das mais variadas nos servem como exemplo das manifestações do gozo, revelando que o sintoma perdeu seu envelope formal[6]. É onde o discurso do analista deve incidir, fazendo oposição ao rico que acumula o gozo. O analista pratica a “descaridade”[7] (décharité) com a intenção de introduzir a falta, o furo. Realizando, em ato, a separação como operação de causação do sujeito, cortando a alienação do sujeito ao Outro do significante. Nessa operação de separação, o sujeito engendra-se na falta do Outro, lá onde reside a metonímia do desejo causado pelo objeto.
Assim, o analista, diante de um sujeito capturado por essa latusa[8], ao fazer semblante de objeto a, convida o sujeito a interrogar-se em sua própria relação com esse gozo, autorizando-se a sair desse lugar objetalizado, separando-se dos significantes que o alienam às idealizações e aos imperativos recebidos por meio do discurso do Outro capitalista.
[1] LACAN, J. (1992 [1969 -1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, p. 85.
[2] Satyricon. Direção: Frederico Fellini, 1969. Recuperado em 25 de agosto de 2026. < https://www.youtube.com/watch?v=mcmBqimmmB4&rco=1>
[3] PETRÔNIO. (2016 [60 – 66 d.C]) Satiricon. Porto Alegre: L&PM Editores.
[4] LACAN, J. (2007 [1975 – 1976]). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar.
[5] LACAN, J. (2022 [1974]). “A terceira”. In: Lacan, J.; Miller, J-A. A Terceira; Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Zahar, p. 29.
[6] LACAN, J. (1998 [1966]). “De nossos antecedentes.” In: Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
[7] LACAN, J. (2003 [1973]). “Televisão”. In: Lacan, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 518.
[8] LACAN, J. (1992 [1969 – 1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
