No Seminário de Leitura da CLIPP, há alguns semestres nos dedicamos ao trabalho com a clínica borromeana e a topologia. No último, percorremos o conceito de gozo no ensino de Lacan, para concluí-lo fazendo a escrita do nó, conforme Lacan propôs em seus Seminários 22 e 23, nele delimitando os campos de gozo.
Fazer o nó, borromeanamente ou não, é disso que se trata na análise, esta é a sua eficácia. Enquanto escrita, Lacan nos dá as coordenadas nesses últimos Seminários, mostrando que as operações entre cordas e furos delimitam campos de gozo na medida em que os enlaçamentos acontecem; ao mesmo tempo, ressaltou Lacan. “É de suturas e emendas que se trata na análise […]” e é preciso “saber qual é o nó, e emendá-lo bem graças a um artifício”[1], como Joyce com seu nó do sinthoma, a despeito de ser efeito de uma análise.
Por não ser borromeano, então no nó de Joyce a corda não se sustentaria, o que não implica, necessariamente, que haveria nele uma resposta diferente daquela que Lacan propõe frente ao enigma que uma análise instaura. Uma corda percorre como um fio a duração de uma análise: “corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual”[2]. Joyce adorava provocar enigmas. Nossa questão aqui reside em como ele supriu a impossibilidade da relação sexual que há para qualquer falasser?
Lá onde não há relação sexual, há escrita
Ao inventar um modo singular de fazer a relação sexual existir, foi com Nora que Joyce fez uma relação, bem esquisita: “Só há ela, uma mulher. Ela é sempre do mesmo modelo, e ele a enluva com a maior das repugnâncias. É visível que apenas com a maior das depreciações é que ele faz de Nora uma mulher eleita”[3]. Além de sua obra, Nora enquanto objeto, também funcionou como sinthoma Joyce?
No Seminário 24, Lacan disse que o parceiro sexual pode ser um sinthoma, aquilo que melhor se conhece. Conhecer seu sinthoma é saber fazer com, é saber manipulá-lo. Ainda pontuou a possibilidade do saber fazer com a imagem, referindo-se ao narcisismo secundário, o que permite ao falasser, no final da análise, poder imaginar a maneira como se desenrola, se desembrulha ou se esclarece com seu sinthoma. O parceiro é uma invenção. Assim, Nora foi aquela “uma mulher” que permitiu a Joyce deixar RSI enodados.
O nó bo é uma escrita diferente daquela do significante e se faz mediante uma condição: “Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual”[4], marcando a íntima conexão entre parceria sexual e sinthoma. A escrita mediante a conexão dos três registros, então, supre a não-relação sexual.
“Lacan, seguindo a pista de Joyce, seu sintoma, menciona aludindo ao exílio da relação sexual, o amor de Joyce por Nora […]. O interesse de Lacan é mostrar como Joyce, sem um fantasma fálico, se ajeita para aproximar-se de uma mulher e testemunha, com sua obra, aspectos distintos dele, enquanto sintoma, seus enodamentos, entre suturas e emendas[5]”.
E não nos esqueçamos que o amor supre a não-relação sexual. Ademais, para Lacan, no amor acontece “o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo o que em cada um marca o rastro de seu exílio da relação sexual”[6].
Para Joyce, Nora, sua escolha de objeto e parceira sexual, com todas as esquisitices que encontramos em seus escritos e cartas para ela, funcionou como sinthoma, como Lacan observou no Seminário 24.
Para terminar, voltemos à clínica: “ensinamos o analisante a emendar, a fazer emenda entre seu sinthoma e o real parasita do gozo. O que é característico de nossa operação, tornar esse gozo possível…”[7].
No segundo semestre de 2026, no Seminário de Leitura, seguiremos com casos clínicos publicados, com a clínica do último ensino de Lacan, nos servindo da topologia borromeana.
